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Os almadenses não pedem milagres nem obras faraónicas. Pedem que, quando abrem a torneira, saia água.
Em julho de 2026, em plena Área Metropolitana de Lisboa, milhares de almadenses abriram a torneira e não saiu nada. Não foi um dia, não foi um acidente isolado. Foram cortes sucessivos a partir de 3 de julho em Lazarim, Charneca de Caparica, Feijó, Laranjeiro, Sobreda e Costa da Caparica, uma rotura de grandes dimensões numa conduta adutora a 5 de julho que deixou seis zonas do concelho sem abastecimento, comércio a fechar portas a meio do dia por não conseguir garantir condições mínimas de higiene, falhas que na Costa da Caparica ultrapassaram as doze horas consecutivas, e a pressão da rede reduzida todas as noites, entre a meia-noite e as seis da manhã, para os depósitos conseguirem recuperar. Os reservatórios chegaram a estar a 10% da capacidade e os próprios serviços municipais admitiram que a normalização completa poderia demorar duas a três semanas. No terceiro país mais a ocidente da Europa, em 2026, Almada gere a água como uma aldeia sitiada.
Inês de Medeiros preside à Câmara de Almada desde 2017. Nove anos depois, iniciado o terceiro mandato em outubro de 2025, a pergunta impõe-se sem rodeios: qual é a obra? Qual é o projeto estruturante que esta presidência deixa aos almadenses? Não há uma requalificação que marque uma geração, não há um plano hídrico executado, não há uma renovação de rede digna desse nome. O que há, visível e sentido na pele de cada munícipe, é a obra da falta de água. Essa ficará. Uma situação de alerta decretada pela própria presidente, um gabinete de crise montado à pressa, uma petição com mais de quatro mil assinaturas, um cordão humano na Costa da Caparica, uma concentração de protesto à porta dos SMAS e até uma moção de censura apresentada pelo PSD na assembleia municipal. Tudo para pedir aquilo que devia ser garantido por defeito num serviço público essencial: água na torneira.
Os números conhecidos nas últimas semanas dispensam adjetivos e condenam anos de gestão. Segundo a matriz da ERSAR referente a 2024, os SMAS de Almada apresentavam 33,4% de água não faturada, contra 13,4% na EPAL, que serve Lisboa. As perdas reais atingiam 284 litros por ramal e por dia, face a 197 litros na capital, um agravamento de 44%. Almada registava ainda 59 avarias por cada 100 quilómetros de condutas por ano, mais do dobro das 26 de Lisboa. A própria Câmara reconheceu que 35% da água introduzida no sistema não é faturada, dos quais cerca de 31% correspondem a perdas reais e aparentes. Dito de forma simples: por cada três litros que entram na rede de Almada, um perde-se antes de chegar a quem paga. Num concelho onde o consumo disparou para mais de 300 litros por habitante e por dia, muito acima da média nacional de cerca de 180 litros, perder um terço da água na rede não é um azar, é um modelo de gestão.
A ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, foi taxativa ao responsabilizar a Câmara Municipal e os SMAS pela crise, lembrando que a responsabilidade pelo abastecimento em alta e em baixa é do município e que os relatórios da ERSAR evidenciam, há vários anos, perdas superiores à média nacional e investimento insuficiente na renovação da rede. Chegou mesmo a afirmar que Almada será talvez o município com maiores perdas de água do país. Isto não é oposição partidária a falar, é a tutela a citar relatórios públicos do regulador que estavam disponíveis para quem quisesse ler, ano após ano, mandato após mandato. Quando um sistema perde um terço da água, tem o dobro das avarias da cidade vizinha e vê a procura duplicar sem que a capacidade de captação acompanhe, o colapso num verão quente não é imprevisto: é cronometrado.
A gestão da crise foi, ela própria, um manual de como não comunicar. Primeiro, a culpa foi do consumo recorde e do calor. Depois, das ligações clandestinas e dos desvios de rede, com a presidente a afirmar na RTP que tinha sido surpreendida com desvios onde não contava. Dias depois, foi a própria Inês de Medeiros a desvalorizar a tese dos roubos, notando que as zonas mais pobres do concelho até reduziram o consumo. A autarquia contradisse-se a si própria em menos de uma semana, enquanto moradores relatavam que o piquete de avarias dos SMAS não atendia e que a informação chegava pelos grupos de Facebook e Instagram. É certo que a fiscalização entretanto reforçada identificou ligações irregulares, algumas destinadas a sistemas de rega, e isso deve ser dito com clareza. Mas a pergunta incómoda mantém-se: onde estava essa fiscalização nos últimos nove anos? A telemetria, a setorização da rede, o controlo ativo de perdas e a deteção de consumos anómalos não são tecnologia de ponta, são o básico da engenharia de sistemas de abastecimento, praticado há décadas por entidades gestoras sérias em Portugal e lá fora.
Mas seria desonesto parar em 2017, e é aqui que a crítica tem de ser distribuída sem contemplações. Esta crise tem uma segunda camada de responsáveis, e chamam-se CDU. Os comunistas governaram Almada durante quatro décadas, desde meados dos anos setenta até 2017, e nesse tempo a rede de abastecimento envelheceu sem manutenção estrutural, sem renovação sistemática de condutas e sem a abertura atempada de novos furos de captação que acompanhasse o crescimento demográfico e a pressão turística do concelho. Um sistema hídrico não colapsa em nove anos: colapsa em quarenta. A elevada antiguidade de parte significativa das infraestruturas, hoje admitida pela própria Câmara, tem assinatura política. Até Isaltino Morais, que não é propriamente suspeito de fazer o frete a ninguém, o reconheceu ao afirmar que o planeamento adequado devia ter sido feito há trinta ou quarenta anos e que o problema vem muito de trás, recordando que em Oeiras enfrentou situação semelhante e a resolveu com planeamento de longo prazo. A CDU semeou o subinvestimento e Almada está agora a colher a sede.
E há uma ironia final que os almadenses devem conhecer e que diz muito sobre a política local. A presidência dos SMAS, precisamente os serviços municipalizados responsáveis pela água, foi entregue à CDU no âmbito do acordo pós-eleitoral que garantiu maioria ao executivo socialista neste terceiro mandato. Os mesmos que durante quarenta anos não renovaram as condutas nem abriram os furos necessários voltaram a ter a chave do sistema, agora por conveniência aritmética de Inês de Medeiros. A isto soma-se o relacionamento difícil com a Câmara do Seixal, também liderada pela CDU, que segundo a ministra do Ambiente impediu a resolução atempada de um problema essencial para o abastecimento do concelho, nomeadamente nas interligações que poderiam ter socorrido Almada. PS e PCP, sócios na gestão e sócios no falhanço, enquanto a máquina partidária socialista local se entretinha com guerras internas e disputas de sucessão amplamente relatadas na imprensa.
Convém ainda desmontar o argumento do calor e do turismo, porque ele vai ser repetido até à exaustão. Sim, houve temperaturas extremas e um pico de procura com o arranque da época balnear. Mas o calor não abre fugas de 284 litros por ramal por dia, o turismo não provoca 59 avarias por 100 quilómetros de condutas e a época balnear da Costa da Caparica não é uma surpresa sazonal: acontece todos os anos, no mesmo sítio, desde sempre. Uma entidade gestora que conhece a sua rede, que monitoriza perdas em tempo real e que dimensiona captação e armazenamento para a ponta de verão não chega a julho com reservatórios a 10% e sem plano além de cortar a pressão de noite e pedir moderação nas regas. O que falhou não foi a meteorologia, foi uma década de decisões adiadas em cima de quatro décadas de decisões nunca tomadas.
A água é o serviço público mais básico que uma autarquia presta. Não é uma bandeira ideológica nem um debate de esquerda ou direita: é engenharia, manutenção preventiva, telemetria de perdas, fiscalização de ligações ilegais, renovação programada de condutas e investimento contínuo em captação, adução e reserva. Tudo isto se sabe fazer, tudo isto está estudado e financiado por fundos europeus para quem os saiba executar, e nada disto foi feito com a seriedade exigida, nem pelos comunistas em quarenta anos, nem por Inês de Medeiros em nove. Os almadenses não pedem milagres nem obras faraónicas. Pedem que, quando abrem a torneira, saia água. Em 2026, em Almada, isso passou a ser pedir muito. E essa é a herança que esta presidência, salvo inversão improvável, vai deixar aos almadenses: nenhuma obra para mostrar, exceto a que ninguém queria.
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