Fé na bondade humana e no desvelo da Inteligência Artificial é algo muito parco para confortar o comum dos mortais.
Este é, por certo, o ano fatídico em que se tornou impossível subestimar os riscos de modelos de Inteligência Artificial escaparem ao controlo humano.
Um modelo da «OpenAI» em testes, em conjunção com o «GPT-5.6 Sol», lançado este mês pela empresa de São Francisco, escapou de um ambiente tido por seguro e acedeu à Internet.
Os dois modelos invadiram em conjunto a base de dados da empresa de aplicações de Aprendizagem Automática em código aberto «Hugging Face», sedeada em Nova Iorque.
Concentram-se exclusivamente na obtenção de dados relevantes para resolver problemas que lhes tinham sido colocados sobre vulnerabilidades de sistemas de segurança, segundo as insuficientes informações disponíveis.
Livres de restrições a actos de usurpação de dados para efeitos de teste, os modelos da «OpenAI» pilharam os servidores da «Hugging Face».
A intrusão e pilhagem de dados pelos sistemas autónomos da «OpenAI» foi detectada a 11 de Julho pela «Hugging Face» que não conseguiu, contudo, identificar os responsáveis pelo ataque.
Dez dias depois, na passada terça-feira, a «OpenAI» de Sam Altman assumiu responsabilidades e anunciou estar a cooperar com a «Hugging Face» para reforçar as capacidades de defesa da empresa nova-iorquina a ataques cibernéticos.
Do lado da concorrência em São Francisco, a «Anthropic» tinha reconhecido, em Abril, que um dos modelos da série «Claude Mythos» – de divulgação restrita devido à sua supercapacidade para identificar vulnerabilidades de software – ultrapassara de forma autónoma controlos de segurança para aceder à Internet.
Eventuais ocorrências similares não foram publicamente anunciadas, nomeadamente por parte de empresas chinesas como a «DeepSeek», de Hangzhou ou a «Moonshot», de Pequim, em intensa concorrência num mercado internacional onde, a par de companhias norte-americanas, superam rivais europeus, canadianos, indianos e israelitas.
O incremento acelerado da capacidade de modelos de Inteligência Artificial para combinar e analisar um universo de dados em constante expansão permite, por exemplo, resolver problemas matemáticos autonomamente, conforme sucedeu, em Maio último, com a solução apresentada por um modelo da «OpenAI» para uma conjuntura de geometria combinatória formulada em 1946 pelo génio matemático húngaro Paul Erdos.
Esta dinâmica é capaz de levar uma pessoa do «entusiasmo ao terror» de um momento para o outro, no dizer de Elon Musk em entrevista divulgada, esta semana, por «The Economist».
O fundador e accionista de referência da «SpaceX» afirma, no entanto, ter chegado à «conclusão filosófica» de que o que importa é «ver o lado bom das coisas».
Musk acredita que os sistemas de Inteligência Artificial e robots acabarão por assumir a maior parte do trabalho digital e físico, tornando o labor humano «facultativo».
Se escaparmos a uma guerra termonuclear e for possível à Inteligência Artificial manter «valores bons, levar em conta a Humanidade», apesar de, paradoxalmente, vir superar a competência de controlo humano na próxima década, Musk antevê uma «era de abundância incrível».
Embora ciente dos riscos que acarretam modelos avançados de Inteligência Artificial, Musk diz-se optimista quanto à capacidade de autoregulação por parte das empresas do sector.
Ante o «progresso inexorável» da Inteligência Artificial, Musk conclui que o melhor é «gozar o passeio».
Fé na bondade humana e no desvelo da Inteligência Artificial é algo muito parco para confortar o comum dos mortais.
É imenso o risco de pessoas decentes em cargos de responsabilidade acabarem confundidas com vigaristas, burlões, ladrões, incompetentes e irresponsáveis que raramente são chamados à pedra.
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