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A guerra com o Irão tem custado alguns apoios políticos a Donald Trump por parte da direita nacionalista europeia. O investigador Riccardo Marchi explica o verdadeiro motivo das críticas.
Guerra do irão, tarifas e ataques (retóricos, para já) à soberania europeia. A direita mais conservadora do velho continente, habitualmente próxima de Donald Trump, começa a mostrar sinais de desagrado com o rumo da administração Trump. Riccardo Marchi, - investigador especializado no pensamento político da Europa contemporânea - diz à SÁBADO que na base das críticas está o modo como a guerra afeta os cidadãos de cada país e também a própria questão da soberania europeia.
Giorgia Meloni e Donald Trump já foram mais próximosMICHAEL KAPPELER/DPA
O bate boca entre Giorgia Meloni e Donald Trump tem alimentado manchetes. O principal tema? Outro bate boca, mas entre Trump e o Papa Leão XIV, fervoroso crítico das políticas bélicas dos Estados Unidos e Israel. Meloni não gostou e considerou “inaceitáveis” as declarações Trump sobre o pontífice. Mas este embate político não começou agora. No início do ano, a primeira-ministra italiana classificou como um "erro" as tarifas de Trump sobre países aliados europeus, na sequência da disputa pela Gronelândia. Depois, deixou bem claro que não tinha intenções de arrastar Itália para o conflito no Médio Oriente. Pela Europa fora, políticos de linhas políticas aproximadas, embora não eleitos, têm demonstrado desagrado relativamente às posições de Donald Trump.
É o caso do alemão Tino Chrupalla, co-presidente da AfD (Alternative für Deutschland), exigiu a retirada das tropas americanas da Alemanha, chegando a citar Espanha como modelo na posição tomada quanto à utilização das suas bases pelas forças militares norte-americanas. Na França, o líder do RN (Rassemblement National) e pupilo de Martine Le Pen, definiu a política de guerra de Trump como “errática” e sem fim à vista. O britânico Nigel Farage, líder do Reform UK, confessou-se chocado com a afirmação do presidente norte-americano de querer aniquilar toda a civilização do Irão.
Tornaram-se todos pacifistas ou há outra razão a alinhar posições na linha política mais extremada e nacionalista à direita? Riccardo Marchi explica que há um afastamento a verificar-se desde o arranque deste segundo mandato de Trump, que começou a ter “uma postura muito crítica em relação à Europa, aliada histórica dos Estados Unidos da América (EUA). Por um lado deixou de ter a “importância geoestratégica que tinha antigamente” e, por outro, por se tornar “um peso” para a defesa, já que são os EUA os principais contribuidores da NATO. “Portanto, há esta ideia de que a Europa vive à custa como um parasita dos Estados Unidos da América. E isso não foi só uma crítica pontual, foi uma série de comentários neste sentido”, recorda o investigador.
“É evidente que para líder de partidos nacionalistas e soberanistas europeus, esta crítica cai muito mal, principalmente quando vêm que tem um impacto no eleitorado destes partidos”, diz Marchi, enumerando exemplos italianos como o Fratelli d'Italia (de Meloni) e a Lega, o espanhol Vox ou a alemã AfD. Partidos “soberanistas” que “tem uma visão muito clara daquela que é a história da Europa”. Isto significa que olham para presença norte-americana na Europa como consequência da Segunda Guerra Mundial, numa “dependência quase colonial, principalmente ligada à presença militar americana”.
Às declarações diminuidoras da força europeia juntou-se “esta última aventura trumpiana da guerra do Irão, que tem um impacto muito forte sobre os eleitores, por causa das consequências económicas desta guerra”, destaca o investigador. A indignação não passa, por isso, pela questão de soberania do país do Médio Oriente (até porque estes partidos não se queixaram do sequestro de Maduro na Venezuela) mas sim pelas “consequências económicas” que se podem repercutir nos próximos atos eleitorais.
A tudo isto, para Meloni somou-se o ataque ao Papa, numa sociedade que apesar de laica mantém uma forte ligação ao Vaticano, detentor de um “peso político e cultural importante”. Para Riccardo Marchi, “Giorgia Meloni não podia deixar sem resposta esta ingerência direta em relação ao Papa, principalmente porque, apesar de tudo, desde que foi eleita primeira-ministra da Itália, se tinha aproximado bastante de Donald Trump”. Uma posição política “muito realista”, uma vez que os EUA são um importante aliado para a Itália, embora Marchi acredite que a líder italiana nunca tinha tido uma grande admiração por Trump, considerando-se “mais sólida do ponto de vista da cultura política”.
Mas, agora, a guerra com o Irão acarreta consequências económicas também para os cidadãos italianos e acontece numa fase em que Meloni viveu uma derrota política num referendo sobre a reforma da justiça. "Portanto, está numa fase de repensar a estratégia política. E, perante uma ação militar que, muito provavelmente, não foi concordada com os aliados europeus, mas foi concordada só com Israel, o facto de ter de suportar todas as consequências e não ter tido nenhuma palavra a dizer sobre o tema, de certeza não agradou a Giorgia Meloni e também aos outros líderes do Rassemblement Nacional, da AfD, do Vox e do Chega também”, reflete o investigador.
Sobre o Chega, a SÁBADO questionou Marchi sobre as razões do partido português não ter assumido uma posição como alguns dos congéneres europeus. "Considero que o Chega, apesar de tudo, é um partido muito mais atlantista, pro-americano e ocidentalista que o Fratelli d'Italia. A direita radical italiana, apesar de ser absolutamente fiel à Aliança Atlântica, tem correntes internas muito fortes de soberania, portanto crítica dos Estados Unidos da América desde sempre. É uma coisa que o Chega não tem”, responde. Por exemplo, para a direita radical italiana seria “impensável” mudar a capital de Israel de Tel Aviv para Jerusalém, uma medida apoiada pelo Chega. “E a direita italiana sempre tentou manter, apesar de tudo, boas relações com o mundo árabe, exatamente porque é realista e sabe o quanto isto pode criar problemas".
Em suma, diz o investigador, estas posições não são anti-americanas, mas sim “realistas”, por não quererem alinhar em “todas as loucuras belicistas” dos EUA, preferindo dar prioridade ao que consideram ser os interesses nacionais. "O governo italiano é muito mais próximo de Trump do que o português, mas tem uma atitude muito mais dura na questão da guerra do Irão: proibiu a utilização da base de Sigonella [na Sicília], por onde podiam passar aviões americanos. No caso português, o governo disse nem sim nem não, disse que está a cumprir aquilo que está previsto, mas nós até agora não sabemos que posição tomou”, refere.
O caso húngaro
Recentemente, Trump perdeu um dos seus aliados europeus que estava no poder. Viktor Orbán foi substituído no poder por Péter Magyar e de nada lhe valeu a visita de JD Vance, vice-presidente dos EUA, durante a campanha eleitoral. Os dois governos tinham posições aproximadas quanto à "aproximação a Moscovo e crítica em relação a política europeia sobre a Ucrânia", mas na opinião de Riccardo Marchi, este apoio foi "um bocado estranho", uma vez que já se antecipava a vitória do partido de Magyar, o Fidesz, há vários meses. "Possivelmente foi mais uma tentativa de criar problemas dentro da Europa".
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