O regime teocrático iraniano abanou, mas não quebrou. Agora negoceia quase em pé de igualdade com a autoproclamada superpotência mundial.
Visto de
Bruxelas, até agora, ninguém ganhou muito com a aventura
israelo-americana no Irão. Ou melhor, uns perderam mais do que outros. A União
Europeia, que quis ficar fora da fotografia da intervenção por boas razões, apesar
do custo económico da guerra, talvez possa vir a ter ganhos políticos e
diplomáticos tardios. Agora, é preciso esperar que um dos muitos anúncios do
Presidente Trump sobre um acordo de paz se concretize e se ponha mesmo fim a um
conflito que de “épico” só tem a forma como falhou e o problema novo que criou:
o ‘Interruptor de Ormuz.’
Quem perdeu
menos
O regime teocrático
iraniano abanou, mas não quebrou. Agora negoceia quase em pé de igualdade com a
autoproclamada superpotência
mundial um cessar-fogo que permita uma resolução cabal e global da crise que
intervenção militar dos EUA e Israel desencadeou. É verdade que importantes capacidades
militares, balísticas e navais do Irão terão sido destruídas neste
conflito.
Mas, para além
de se verificar que em junho do ano passado os EUA não tinham afinal obliterado
o programa
nuclear iraniano como anunciado aos quatro cantos do mundo, o Irão passou a
ter ao seu dispor uma arma de destruição (quase) maciça: o Estreito de Ormuz. A
partir de agora e para o futuro, passamos a ter o ‘Interruptor de Ormuz’ que o
regime dos aiatolas vai poder ligar e desligar cada vez que se sente sob
pressão – venha ela de Washington, Jerusalém ou Bruxelas – tornando a economia
global refém de qualquer disputa.
A somar a isto,
até ver, não parece que no que toca ao programa nuclear do Irão, Washington vá
conseguir um acordo substancialmente melhor do que aquele que europeus,
americanos, russos, chineses e iranianos fecharam em 2015. Quando em 2018, na
sua primeira administração, Donald Trump disse que aquele era o pior
acordo de sempre, concluía-se que ele conseguiria fazer melhor. Tem agora a
oportunidade para o demonstrar.
A Rússia e
China também não parecem perder muito com este conflito. Moscovo, porque vê uma
entrada inesperada e bem-vinda de fundos
da venda de energia que ajuda o país a manter a sua guerra de agressão à
Ucrânia e alivia algumas das dificuldades da economia russa. Pequim, porque
explora os estilhaços desta aventura como mais uma brecha no prestígio
internacional americano, contribuindo para a ideia de declínio da potência
ocidental juntamente com a afirmação de uma suposta responsabilidade global
chinesa. Como as autoridades de Pequim gostam de dizer nas suas relações
externas, esta é uma situação “win-win:” só ganham com isto.
Quem perdeu
mais
Diga a
administração americana o que disser sobre as suas muitas vitórias neste
conflito, os ganhos que possam ter tido no enfraquecimento
militar convencional do Irão e dos seus peões no Médio Oriente são obscurecidos
pela imagem de total improviso, pela incapacidade de antecipação estratégica
das consequências de segunda e terceira ordem para a região e para o mundo do
conflito e pelo facto de ficarem aquém dos objetivos centrais da operação
militar que, aliás, foram sendo vários, mudando ao sabor dos acontecimentos ou
de quem os declarava por parte da administração americana. A consequência de
todo este ziguezaguear foi conseguir criar um problema que não estava lá
inicialmente: o bloqueio de Ormuz.
Pelo caminho perdeu
também (ou nunca tentou ganhar) o apoio que poderia ter tido caso tivesse
cooperado antes e não tivesse tentado coagir
depois os seus aliados tradicionais quando as coisas começaram a correr mal. Entre
democracias há outras formas de agir na ordem internacional, especialmente
quando o adversário que se tem pela frente é um regime autoritário e opressor.
Se internacionalmente
a coisa foi indo de mal a pior, do ponto de vista da política doméstica americana
as coisas também não estão famosas para o Presidente Trump. Para além de criar fracturas
na base de apoio Maga – diga-se que o Vice-Presidente J.D. Vance foi,
alegadamente, o único que nas deliberações internas da administração levantou reservas
à operação –, a intervenção é altamente impopular
entre a maioria dos americanos e agravou o sentimento económico generalizado.
Isto retira ao Partido Republicano qualquer autoridade sobre temas de ‘custo de
vida’ numa campanha que já está a aquecer para as eleições intercalares de novembro.
A popularidade
de Trump tem caído nas sondagens, incluindo nos temas que mais preocupam o
eleitorado. Isto não é um bom pressagio para a administração americana.
A União
Europeia, aparentemente, também está entre os que mais perderam, especialmente
as famílias e as empresas europeias que vêm, uma vez mais, o custo de vida e o
custo de fazer negócios a subir
e as projeções económicas a descer.
Se inicialmente alguns líderes europeus hesitaram sobre o que fazer quando o
conflito começou, gradualmente aperceberam-se dos riscos e custos de uma
intervenção para a qual não foram tidos nem achados. A forte pressão para se
envolverem quando Teerão bloqueou o Estreito de Ormuz parece ter funcionado ao
contrário porque aquela também já se somava a outras afrontas políticas vindas de
Washington – desde tarifas comerciais e ameaças de tomar
a Gronelândia a críticas ao papel das tropas europeias que combateram ao lado
dos americanos no Afeganistão…
A súbita
unidade europeia permitiu fazer frente à pressão americana e posicionar a UE
como um ator construtivo e confiável numa potencial resolução desta crise a
longo prazo e para ajudar a desbloquear Ormuz, assim que seja estabelecido um
acordo de paz entre as partes. Pela experiência que teve nas negociações do
programa nuclear do Irão, a Europa pode vir a ser útil também nesse domínio.
Quem perdeu
muito mais
Verdadeiramente,
até agora, quem parece ter perdido muito mais é o povo iraniano, cuja situação
parece ter piorado.
Se o Presidente Trump julgava que os iranianos viriam para a rua para deitar
abaixo o regime, enganou-se. Não só as rédeas do poder e da opressão não
mudaram, mas parecem estar ainda mais curtas. Com o conflito, o contexto
económico e social interno agravou-se. Uma desgraça para todos os que no Irão
anseiam por paz, prosperidade e liberdade.
No século XXI, se as democracias não conseguem ser mais rápidas a acompanhar acontecimentos e mudanças, então têm de ser mais inteligentes para antecipar e preparar-se para o que pode estar para vir.
A diferença está em saber o que é mais importante para os europeus neste período de instabilidade geopolítica: uma política externa a uma só voz ou, às vezes, sem voz? Ou uma postura internacional mais veloz, mas potencialmente a mais vozes?
Desde o começo da agressão russa à Ucrânia, a Hungria, não obstante ter eventualmente dado apoio aos diversos pacotes de sanções, tem sido o maior obstáculo a qualquer apoio a Kyiv.
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