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O reconhecimento e denúncia de genocídios tornou-se num jogo político cínico, evidente, por exemplo, na esquiva de Israel a reconhecer o genocídio arménio para não prejudicar as relações com Turquia e Azerbaijão, vitais na gestão de interesses na Síria e no confronto com o Irão.
O espectro do perigo iminente de «abandono e destruição», um novo «Holocausto», assombra Israel desde os anos sessenta e como propaganda de estado é uma das maiores pechas do sionismo.
Este diagnóstico de Omer Bartov – autor de estudos essenciais sobre o genocídio nazi no Leste europeu – é uma das teses essenciais do ensaio «Israel. O que correu mal com o meu país?».
Bartov – nascido em Israel, filho de emigrantes judeus oriundos da Polónia, apostados na criação de um estado hebraico na Palestina sob Mandato Britânico – sublinha que a «Shoah» («A Devastação») foi assumida como «momento cardinal da história judaica moderna».
O professor da Universidade de Brown, nos Estados Unidos, argumenta que o sionismo é presentemente, uma justificação virulenta de exclusivismo étnico hebraico, redundando na exclusão e opressão de palestinianos.
A expansão territorial de Israel, com a sujeição de mais populações de territórios palestinianos a partir da guerra de 1967, agravou as dissensões na comunidade judaica em Israel.
Ideários democráticos do sionismo, abarcando a incorporação de árabes no novo estado, cedo cederam terreno ao exclusivismo étnico.
Acresceu a rejeição por crentes ultraortodoxos de um estado judaico que nunca poderia preceder o advento do Messias.
O compromisso entre sionistas laicos e judeus ultraortodoxos saldou-se num estado em os privilégios religiosos se enquistaram a tal ponto que põem em causa um sistema democrático.
A instauração do estado do Israel na guerra de 1948 teve como reverso a «Nakba» («A Catástrofe») com a expulsão e fuga de mais de 300 mil palestinianos, mas, no entender de Bartov, a maioria dos judeus israelitas ignora este vínculo.
O domínio exclusivo na «Terra de Israel» («Eretz Yisrael»), seja por colonatos ou através da subordinação e discriminação de não-judeus em fronteiras que dispensam reconhecimento internacional, «Do Mar até ao Rio», é o que, portanto, resulta do ideário sionista.
Radica aqui uma das razões para que, em resposta a críticas às políticas do estado de Israel, surja a acusação indiscriminada de antissemitismo.
É expediente ofensivo quando o que está, de facto, em causa é o preconceito expresso na hostilidade ou discriminação contra pessoas judias, independentemente de elas se reconhecerem como tal, por motivação religiosa, cultural ou étnica.
A 7 de Outubro de 2003, os islamistas do Hamas lançaram um ataque terrorista, notoriamente antissemita ou antijudaico na sua justificação ideológica e concretização assassina, junto à fronteira de Gaza com Israel.
Independentemente de alegar tratar-se de uma forma de luta e resistência contra Israel – estado inimigo e opressor – o Hamas revelou-se fiel ao ideário genocida comum a radicais islamistas: exterminar todos os judeus «Do Mar até ao Rio», das praias de Gaza e Haifa até ao Jordão.
A desmesurada retaliação da coligação de direita e extrema-direita de Benjamin Netanyahu levou logo em Novembro de 2023, Bartov a publicar um artigo em que, embora evitando classificar as operações israelitas em Gaza como genocídio, admitia estarem em curso crimes de guerra e contra a humanidade.
No ensaio agora editado em Portugal, após três anos de chacina e horrores, Bartov é taxativo: Israel levou a cabo um genocídio em Gaza.
Na estrita definição legal a tese de Bartov é conforme à «Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio», adoptada pela ONU em 1948 e em vigor desde 1951: qualquer acto cometido com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. A Convenção engloba actos de matar ou capazes de causar lesão grave à integridade física ou mental de pessoas destes grupos, descartando classes ou grupos sociais específicos. No genocídio importa, igualmente, a imposição intencional de condições de existência capazes de levar à destruição física total ou parcial do grupo estigmatizado. A adopção de medidas visando impedir nascimentos no seio do grupo destinado à matança e a transferência forçada de crianças para outra entidade constam, ainda, na definição de genocídio das Nações Unidas.
O reconhecimento e denúncia de genocídios tornou-se num jogo político cínico, evidente, por exemplo, na esquiva de Israel a reconhecer o genocídio arménio para não prejudicar as relações com Turquia e Azerbaijão, vitais na gestão de interesses na Síria e no confronto com o Irão.
O jurista judeu polaco Raphael Lemkin cunhou o termo, chocado com o massacre dos arménios na Turquia durante a I Guerra Mundial e de assírios às mãos de árabes e curdos no norte do Iraque, ao confrontar-se com a barbárie nazi.
Para Lemkin, em livro publicado, em Washington, em 1944, «O Domínio do Eixo na Europa Ocupada», a destruição dos fundamentos da vida de uma entidade nacional seria equivalente a um genocídio.
Tal fora já a desgraça dos hereros chacinados às ordens do governador Heinrich Goering – pai de Hermann Goering, eminência do Reich hitleriano – na colónia alemã do Sudoeste Africano (actual Namíbia), entre 1904 e 1908.
Chacinas e extermínios, antiquíssimos e correntes, não se esgotam na definição legal de genocídio a que se cinge Bartov.
«Crimes de Guerra», designadamente retaliação desproporcionada e destruição generalizada e propositada de habitações de civis, além de tortura, tal como «Crimes contra a Humanidade», em particular deportação e transferências forçadas de populações, são patentes em Gaza.
A extrema-direita israelita é propagandista genocida anti-árabe, a pretexto da real ameaça dos genocidas sunitas do Hamas ou de xiitas do Hizballah libanês.
É admissível, contudo, afirmar que não existe propaganda recorrente e sistemática de extermínio por parte do estado de Israel, uma das características essenciais da obsessão genocida.
Tal ocorreu, por exemplo, na Alemanha nazi ou na propaganda de extremistas hutus contra tutsis no Ruanda, ainda que, por vezes, tal degeneração, após anos de opróbrio, possa assumir um cunho violento brusco, como foi o caso da perseguição de arménios pelos «Jovens Turcos» a partir da entrada em guerra do Turquia, em Outubro de 1914.
Deste libro de Omer Bartov, além da amargura de ilusões numa democracia e judaísmo incertos, o maior desconforto, contudo, salda-se nisto: nada se vislumbra de realista para a coexistência pacífica entre judeus e árabes.
O reconhecimento e denúncia de genocídios tornou-se num jogo político cínico, evidente, por exemplo, na esquiva de Israel a reconhecer o genocídio arménio para não prejudicar as relações com Turquia e Azerbaijão, vitais na gestão de interesses na Síria e no confronto com o Irão.
A percepção de que a atitude amoral e o acto imoral, em prejuízo consciente de terceiros, predominam ou, pelo menos, são tolerados entre as elites com poder de decisão, põe em causa a legitimidade dos regimes políticos.
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