A imprevisibilidade da Casa Branca está a aproximar os seus parceiros tradicionais da China. Cátia Miriam Costa considera que o gigante asiático "se tem revelado mais estável do que os EUA".
Donald Trump fez toda a sua campanha para regressar à Casa Branca a prometer tornar a América grande outra vez (Make America Great Again, em inglês), mas na realidade a incerteza que tem trazido para as relações com os seus parceiros internacionais tradicionais está a afastá-los e a fazê-los procurar outros países, ajudando-os a também ficarem grandes novamente.
Trump e Xi JinpingAP Photo/Mark Schiefelbein, File
É aí que entra a China. O gigante asiático tem aproveitado o momento de incerteza no Ocidente para se aproximar do Canadá, Reino Unido e União Europeia. Apenas em 2025 o aumento das exportações sentidas no país resultou num superávit comercial de quase 1 bilião de euros, o que significa um aumento de 20%.
Há duas semanas, depois da sua visita a Davos – onde deixou grandes críticas à atuação de Trump - Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, fechou um acordo comercial com a China que reduz as tarifas sobre veículos elétricos chineses em troca da redução das tarifas retaliatórias sobre importantes produtos agrícolas canadianos. Carney chegou mesmo a afirmar que a relação do Canadá com a China se tornou “mais previsível” do que a relação com os Estados Unidos, devido às constantes ameaças por parte da administração Trump. Vale a pena recordar que o presidente dos Estados Unidos já referiu várias vezes o seu desejo de tornar o Canadá o 51º estado. Assim sendo, o Canadá está agora a "recalibrar" o seu relacionamento com a China, "estrategicamente, pragmaticamente e decisivamente".
Já na semana passada foi a vez de Keir Starmer visitar a China (um líder do Reino Unido já não visitava a China desde 2018), para procurar novas oportunidades de comércio e investimento. Neste caso não foi alcançado nenhum acordo abrangente de comércio livre, mas é clara a reaproximação das duas potências e foram anunciados alguns acordos. A AstraZeneca prometeu investir mais de 12 mil milhões de euros na China nos próximos quatro anos enquanto a empresa britânica Octopus Energy vai entrar no mercado chinês pela primeira vez. Em contrapartida a China concordou em reduzir as tarifas sobre o uísque escocês.
Cátia Miriam Costa, investigadora no Centro de Estudos
Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa, explica à SÁBADO que “tradicionalmente
as relações dos países ocidentais com a China são baseadas na diferenciação das
relações comerciais com aquelas que são as relações políticas”, no entanto “desde
2017 que os Estados Unidos têm trabalhado para afastar a China daqueles que são
os seus parceiros”.
Donald Trump reagiu a estas aproximações alertando o Canadá que pode vir a enfrentar tarifas de 100% e advertiu o Reino Unido referindo que é “muito perigoso” fazer negócios com a China. Cátia Miriam Costa recorda que Trump deixa este aviso apesar das empresas norte-americanas também não se conseguirem afastar da China: “Os
Estados Unidos têm relações económicas fortes com empresas chinesas. Quer os
benefícios da relação comercial para ele, mas não para os seus parceiros”.
Também o chanceler alemão Friedrich Merz vai visitar tem uma visita à China marcada para este mês. A relação entre a União Europeia e a China é marcada por altos e baixos devido a desequilíbrios comerciais, preocupações com os direitos humanos e a aproximação de Pequim a Moscovo, mesmo durante a invasão militar à Ucrânia. Em julho do ano passado os representantes da União Europeia e da China juntaram-se numa cimeira que, apesar dos poucos resultados palpáveis, deixou claro o desejo chinês por uma cooperação mais profunda.
A investigadora do ISCTE acredita que “a visita do chanceler
alemão à China é importante para toda a União Europeia” uma vez que “qualquer
acordo ou intenção de acordo que seja alcançado vai pressionar a Comissão
Europeia”.
Europeus perderam confiança nos Estados Unidos
Uma sondagem do European Council on Foreign Relations, realizada em novembro do ano passado, que ouviu 25.949 pessoas em 21 países indica precisamente que a maioria dos europeus já não considera os Estados Unidos como um aliado confiável e estão abertos à existência de uma relação mais próxima com a China, considerando ainda que é bastante provável que a influência global da China cresça na próxima década. Os inquiridos também consideram que com o afastamento dos Estados Unidos já não existe a necessidade de mantermos o sistema de alianças tradicionais, criando uma ordem global onde os países são mais livres para escolher novos aliados, algo que vai de encontro com o discurso de Mark Carney sobre a existência de uma “nova ordem mundial” em Davos.
Também uma pesquisa do The Economist que abrangeu 32 países, no ano passado, mostrou que a preferência pelos Estados Unidos como principal potência mundial caiu de 59% para 46% relativamente a 2024. Já a preferência pela China alcançou os 33%, o que significa um aumento de 11% - em países como o Brasil, Canadá e Indonésia o aumento foi de aproximadamente 20%.
Cária Miriam Costa concorda que “enquanto parceiro económico
a China se tem revelado bastante mais estável do que os Estados Unidos”, isto
porque “os objetivos das relações com a China estão estabelecidos como sendo
puramente económicos”. Quanto à questão dos direitos humanos a investigadora
reforça que “neste momento os Estados Unidos também não são um parceiro fiável
neste campo”, se por um lado tem existido uma repressão interna das faculdades
e jornalistas desde que Trump regressou à Casa Branca, por outro “a relação com
Israel e a falta de condenação relativa às suas ações em Gaza mostram que não
existe qualquer preocupação com a proteção dos direitos humanos”.
A realidade é que as ofertas económicas da China se tornam mais atraentes para parceiros que procuram uma alternativa aos Estados Unidos ao mesmo tempo em que a pressão imposta pelos Estados Unidos faz com que seja mais fácil para Pequim coagir os outros países. A especialista considera que “nos últimos anos houve uma
tentativa de reaproximação” especialmente tendo em conta as “mudanças
geopolíticas do último ano”.
“O que é novo aqui é que ao contrário do que acontecia durante
a Guerra Fria, quando os blocos se encontravam muito definidos, existem agora
acordos pontuais baseados em interesses económicos, mas sem grande expectativas
de que exista uma reorganização do mundo devido a estes acordos”, explica Cátia
Miriam Costa que acredita que esta nova situação acarreta “o risco de uma
desarticulação das cadeias globais”.
Cátia Miriam Costa ressalva que “a China já não é a fábrica
do mundo para os produtos baratos, mas sim uma fábrica altamente especializada
em tecnologia”.
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