A data de validade da extrema-direita (ou: uma tentativa de ler o prazo numa embalagem que activamente recusa ser lida)
Surgem dissidências à direita da direita, cada vez mais extremas e cada vez menos eleitoralmente viáveis, como frutos que caem da árvore antes de maduros.
Em algum lugar nos arquivos do Partido Nacional
Fascista italiano existe — ou existiu, antes de algum bombardeamento ou algum
funcionário apressado — um memorando de 1938 em que um quadro regional da
Sicília pede orientações sobre como lidar com o facto de os preços do pão terem
subido quarenta por cento desde que o Duce assumiu o poder. A resposta,
que demorou três semanas a chegar de Roma, não abordava os preços. Falava da
glória do trigo italiano, da traição dos especuladores internacionais, e da
necessidade de os sicilianos desenvolverem uma relação mais espiritual com a
farinha. O quadro regional, que era um homem prático com filhos para alimentar,
arquivou a resposta e não voltou a escrever. Isto é: percebeu que o problema
não era de comunicação.
Os movimentos que prometem devolver a grandeza a povos
que nunca foram consultados sobre quando, exactamente, a perderam, têm todos
este problema no seu núcleo: a distância entre o que prometem e o que o mundo
permite que aconteça é uma distância que só pode ser mantida por um número
finito de explicações alternativas. Quando as explicações se esgotam, esgota-se
a crença. E quando a crença se esgota — não toda de uma vez, mas aos bocados,
como um pneu que perde ar durante a noite, de forma imperceptível até ao
momento em que não — o ciclo termina.
A pergunta é: quanto tempo têm os pneus?
I.
A resposta honesta é que depende do terreno.
Os ciclos autoritários do século XX que jogaram dentro
de sistemas formalmente democráticos — porque é desses que estamos a falar, não
das ditaduras que simplesmente fecharam as eleições como quem fecha uma janela
incómoda — duraram em média entre oito e dezasseis anos antes de uma ruptura
interna ou eleitoral significativa. Não é uma lei. É uma observação empírica
com todas as ressalvas que as observações empíricas exigem quando o objecto de
estudo é o comportamento humano em grupo, que é aproximadamente tão previsível
como o comportamento de um bando de estorninhos em vento forte: há padrões, há
dinâmicas, há forças que estruturam o movimento, e ainda assim nenhum modelo
consegue dizer com precisão onde vai estar o bando daqui a trinta segundos.
O que os dados sugerem — e aqui estamos a falar de
estudos de ciência política comparada, de análises eleitorais longitudinais, do
trabalho empírico de pessoas que passaram décadas a olhar para estas coisas em
vez de apenas a comentá-las — é que existe uma estrutura no ciclo. Não um
destino, mas uma gramática. Uma sequência de fases que os movimentos populistas
de direita radical tendem a percorrer com variações de ritmo mas não de ordem.
A primeira fase é a da ruptura. O movimento aparece
(ou aparece de novo, transformado) num momento em que as instituições
estabelecidas perderam suficiente credibilidade para que a palavra alternativa
soe a promessa em vez de a ameaça. Esta fase pode durar meses ou anos — depende
de quão deteriorado estava o tecido político anterior — mas tem sempre a mesma
textura emocional: a sensação de que finalmente alguém está a dizer o que tutta
la gente pensa mas ninguém tinha coragem de dizer. (O que tutta la gente
pensa é sempre, nestes contextos, uma construção retroactiva. Primeiro cria-se
o consenso, depois descobre-se que sempre existiu.)
A segunda fase é a da consolidação. O movimento chegou
ao poder, ou chegou perto o suficiente para que o poder comece a negociar com
ele. É aqui que a retórica da revolução começa a colidir com a burocracia dos
ministérios, com os mercados obrigacionistas, com os tratados internacionais
que ninguém leu mas que regulam tudo desde a qualidade do azeite até aos
acordos de extradição. Os movimentos que sobrevivem a esta fase são os que
conseguem, de alguma forma, manter a aparência de radicalismo enquanto fazem as
cedências que o poder real exige. É um acto de equilíbrio que consome uma
quantidade enorme de energia narrativa.
A terceira fase — e é aqui que o pneu começa a perder
ar — é a do desgaste. As promessas não cumpridas acumulam-se. A base começa a
dividir-se entre os que acusam o movimento de ter sido corrompido pelo sistema
e os que acusam os primeiros de serem puristas impraticáveis. Surgem
dissidências à direita da direita, cada vez mais extremas e cada vez menos
eleitoralmente viáveis, como frutos que caem da árvore antes de maduros. Os
bodes expiatórios multiplicam-se porque o catálogo original foi insuficiente para
cobrir a realidade — aos imigrantes juntam-se os juízes, aos juízes juntam-se
os académicos, aos académicos juntam-se os jornalistas, e assim por diante numa
expansão do inimigo que, se levada às últimas consequências lógicas, acaba por
incluir uma fracção significativa da própria base.
A quarta fase é a ressaca. O movimento perde o poder —
eleitoralmente, ou por implosão interna, ou (nos casos mais sérios) por
intervenção de instituições que ainda funcionam suficientemente bem para
funcionar. Mas não desaparece. Reconfigura-se. Torna-se mito fundador da
próxima iteração. Estávamos a ganhar até nos traírem. Esta frase, ou
alguma versão dela, é pronunciada em todas as línguas depois de todos os ciclos
deste tipo, com a regularidade de um refrão que o compositor não consegue
eliminar porque é, na verdade, a parte mais eficaz da canção.
II.
Apliquemos esta gramática aos casos concretos, com a
frieza que o assunto merece e a honestidade de admitir onde a incerteza é maior
que o conhecimento.
Estados Unidos. O ciclo americano é, neste momento, o mais acelerado e o mais instável de
todos os casos ocidentais. A segunda presidência Trump — que começou em janeiro
de 2025 com uma velocidade de desmantelamento institucional que surpreendeu
mesmo os observadores que tinham passado quatro anos a avisar que isso
aconteceria — está a comprimir o ciclo de uma forma que pode significar duas
coisas opostas: ou que o colapso virá mais cedo do que o esperado, quando a
acumulação de consequências tangíveis (económicas, judiciais, diplomáticas)
atingir a massa crítica necessária para converter suficientes apoiantes em
desencantados; ou que a velocidade é precisamente o mecanismo de sobrevivência,
porque cria um estado de caos permanente em que a oposição nunca consegue
organizar-se em torno de um único ponto de resistência antes de o próximo já
ter chegado. Os modelos históricos não têm precedente claro para esta variante.
A estimativa mais razoável situa o pico — o momento em que o movimento atinge a
extensão máxima antes de a contracção começar — algures entre 2026 e 2027, com
as eleições intercalares como primeiro teste sério. Mas "razoável" é
uma palavra que o contexto americano actual torna difícil de sustentar com
confiança.
Reino Unido. O ciclo
britânico está numa fase que não tem nome preciso: é o pós-pico de um movimento
que já atingiu o seu objectivo principal — o Brexit — e que agora existe numa
espécie de estado fantasmático, presente mas sem substância nova para oferecer.
Nigel Farage e o Reform UK são os herdeiros de uma explosão. Herdar uma
explosão é diferente de detonar uma nova: tens os fragmentos, tens a memória do
barulho, mas o momento de máxima energia já passou. O problema britânico é que
o Brexit, ao contrário do que prometeu, não produziu o reino de soberania
radiante que estava na embalagem. Produziu filas nas fronteiras, custos
logísticos e uma quantidade de papelada administrativa que é, provavelmente, o
oposto filosófico do que os seus promotores tinham em mente. Esta dissonância
entre promessa e resultado é o combustível do desgaste. Estimativa: cinco a
oito anos antes de uma transformação estrutural do campo populista britânico —
não o fim do fenómeno, mas o fim desta versão do fenómeno.
França. O caso
francês é o mais disciplinado e, por isso, o mais difícil de datar. Marine Le
Pen passou quinze anos a fazer uma coisa que poucos líderes populistas têm
paciência para fazer: transformar um movimento que cheirava a anos quarenta num
partido que cheira, pelo menos superficialmente, a gestão competente. Esta
transformação deliberada — a dédiabolisation, como os franceses lhe
chamam com aquele gosto pelo substantivo abstracto que é talvez a coisa mais
genuinamente francesa que existe — adiou o relógio. O Rassemblement National
ainda não governou a nível nacional (Le Pen perdeu duas presidenciais, está
inelegível temporariamente enquanto decorre o processo judicial, e o partido
chegou à coabitação parlamentar mas não ao Eliseu), o que significa que ainda
está, em certa medida, na fase de ascensão depois de uma maturação anormalmente
longa. Se chegar ao poder executivo pleno, o relógio começa então a contar os
oito a doze anos típicos desta fase do ciclo. Se não chegar — se continuar a
ser o eterno segundo — pode manter a pureza da oposição por mais tempo, mas ao
custo de uma credibilidade que precisa periodicamente de ser renovada com
vitórias reais.
Itália. Giorgia
Meloni governa há mais de dois anos com uma moderação prática que desconcertou
os seus críticos mais apocalípticos e desapontou os seus apoiantes mais
entusiastas. A razão é simples e estrutural: a Itália deve ao mercado
obrigacionista internacional uma quantidade de dinheiro que não lhe permite o
luxo de assustar os investidores com aventuras ideológicas. O spread
entre os BTP italianos e os Bunds alemães é, neste sentido, o verdadeiro
ministro da economia italiano — invisível, não eleito, e absolutamente
determinante. O que Meloni demonstra é que o populismo de direita, quando
confrontado com as responsabilidades do poder real numa economia integrada,
tende a moderar-se no comportamento enquanto mantém a retórica inflamada para
consumo interno. Este equilíbrio — dizer uma coisa, fazer outra, convencer a
base de que a diferença é táctica e não substancial — é cognitivamente
sustentável por um período limitado. A estimativa para o ciclo italiano, que
está agora no seu terceiro ano efectivo de poder, é de mais quatro a seis anos
antes de uma crise interna significativa ou de uma derrota eleitoral que
obrigue a uma reconfiguração.
Portugal e Espanha. Chegámos tarde, como de costume — com aquela pontualidade mediterrânica
que é, no fundo, uma forma de orgulho disfarçado de desculpa. O Chega em
Portugal tem a vantagem e a desvantagem de nunca ter governado: a vantagem é a
preservação da pureza do ressentimento, não contaminada pela realidade do
executivo; a desvantagem é que a pureza, quando mantida demasiado tempo sem ser
testada, começa a parecer não princípio mas incapacidade. O Vox em Espanha já
passou o pico, depois de ter atingido o máximo eleitoral em 2019 e de ter visto
a sua relevância diminuir desde então, parcialmente porque o Partido Popular
absorveu parte do seu eleitorado ao deslocar-se para a direita. Em ambos os
países, o momento decisivo será a entrada eventual numa coligação de governo.
Quando isso acontecer, o relógio começa.
III.
Existe uma tentação, ao fazer este tipo de análise, de
concluir com algo tranquilizador — de dizer que o arco da história se dobra
para a justiça, ou que a democracia tem mecanismos de autocorrecção
suficientemente robustos para absorver estas vagas sem dano permanente, ou pelo
menos sem dano irreparável. Esta tentação deve ser resistida não porque seja
necessariamente falsa mas porque é prematura. O arco da história dobra-se para
onde as pessoas o dobram, com as mãos, durante anos, com a resistência de quem
sabe que ninguém mais vai fazê-lo se elas não o fizerem.
O que os ciclos históricos nos dizem não é que tudo
vai ficar bem. É que os movimentos que prosperam no ressentimento e na
simplificação têm, internamente, as sementes da sua própria dissolução — porque
o ressentimento não resolvido cresce, e porque a simplificação, quando
confrontada com a complexidade irredutível de governar, revela-se insuficiente.
A questão não é se este mecanismo funciona. É se funciona depressa o
suficiente, e se o que vier a seguir é melhor ou é apenas diferente.
As gerações que estão agora a entrar na vida política
— que cresceram com a crise climática como dado existencial, com a desigualdade
económica como experiência pessoal, com a diversidade como norma e não como
excepção — não vão desenvolver retroactivamente um desejo pela homogeneidade
dos anos cinquenta. Podem desenvolver outros medos, outros ressentimentos,
outras narrativas de declínio que ainda não foram escritas. A história é fértil
nessa matéria. Mas os ressentimentos específicos que alimentam esta vaga
específica têm uma data de validade determinada não apenas pelo ciclo político
mas pelo ciclo demográfico, e o ciclo demográfico é, de todos os ciclos, o mais
implacável e o menos negociável.
IV.
Voltemos ao memorando siciliano. O quadro regional que
percebeu que o problema não era de comunicação tinha, sem o saber, identificado
a fragilidade central de todos os movimentos deste tipo: a distância entre a
narrativa e a realidade não pode ser mantida indefinidamente por retórica mais
elaborada. Em algum momento — e este momento é o que estamos a tentar datar — a
conta chega.
A conta não chega de uma vez. Chega como as dívidas
chegam: primeiro devagar, depois de repente. Primeiro é uma voz dissonante que
é facilmente descartada como traição ou ignorância. Depois são duas vozes,
depois são dez, depois são o suficiente para que uma eleição produza um
resultado inesperado, ou para que uma dissidência interna force uma crise de
liderança, ou para que um escândalo que antes seria absorvido se torne o ponto
de ruptura que estava à espera desde há anos de uma desculpa para existir.
Os prazos que aqui avancei — oito a quinze anos como
intervalo central, com as variações nacionais descritas acima — não são
profecias. São estimativas baseadas em padrões históricos, com todas as
limitações que isso implica. A história não se repete com a regularidade de um
horário de comboios (nem os comboios, na maior parte dos países, se repetem com
a regularidade de um horário de comboios). O que se repete são as estruturas,
as dinâmicas, as tensões internas que todos os sistemas construídos sobre promessas
impossíveis acumulam até ao momento em que não conseguem mais.
Esse momento está a chegar, em cada país ao seu ritmo.
Não porque o bem triunfa sobre o mal — esta é a narrativa mais confortável e a
menos verificável empiricamente. Mas porque os sistemas que dependem de manter
as pessoas suficientemente enfurecidas para não repararem que os seus problemas
concretos não estão a ser resolvidos têm, estruturalmente, um problema de
sustentabilidade a longo prazo.
O pão continua a custar o que custa. A farinha não se
torna mais espiritual por decreto.
E o siciliano que não voltou a escrever tinha família
para alimentar, não uma relação metafísica com o trigo.
Fevereiro de 2026. Exterior frio. Interior também,
dependendo do país.
A data de validade da extrema-direita (ou: uma tentativa de ler o prazo numa embalagem que activamente recusa ser lida)
Surgem dissidências à direita da direita, cada vez mais extremas e cada vez menos eleitoralmente viáveis, como frutos que caem da árvore antes de maduros.
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