As nossas universidades foram capturadas por elites medíocres
Como podem as nossas universidades permitir que a avaliação do mérito seja conduzida por quem, objetivamente, apresenta níveis de desempenho muito inferiores aos avaliados?
Há muito que as universidades públicas portuguesas (e, em geral, boa parte
da administração pública) foram capturadas por uma elite que, salvo raríssimas
exceções, se revela profundamente medíocre. E, como dita a experiência, a
mediocridade tende a reproduzir-se: promove os seus pares e penaliza o mérito.
Já tive oportunidade de abordar este tema em artigos anteriores, onde
denunciei disfunções nos concursos públicos e no recrutamento docente no ensino
superior. Hoje, volto ao assunto para expor um problema menos visível, mas
igualmente grave: a qualidade (ou falta dela) das chamadas “elites”
responsáveis pela avaliação de desempenho dos professores universitários.
O processo de avaliação trianual dos docentes, na maioria das universidades
públicas, segue um modelo aparentemente estruturado. Numa primeira fase, os
professores reportam a sua atividade nas dimensões de ensino, investigação
científica, extensão universitária e gestão académica. Com base nesses dados,
um sistema (frequentemente algorítmico) atribui uma classificação objetiva.
Até aqui, tudo bem.
O problema começa na segunda fase, quando entram em cena os conselhos ou
comissões coordenadoras de avaliação. Um dos seus membros pode ajustar os pesos
atribuídos às variáveis das diferentes dimensões, alterando assim a
classificação final. E fá-lo, muitas vezes, com base em critérios opacos,
subjetivos e dificilmente escrutináveis.
É neste momento que o sistema deixa de ser meritocrático e passa a ser
vulnerável à arbitrariedade.
Conheço um caso recente, numa das universidades mais prestigiadas do país,
em que um docente obteve uma classificação de “Excelente” com base nos
indicadores objetivos. No entanto, após a intervenção do avaliador (através da
manipulação dos pesos) a classificação foi reduzida para “Muito Bom”.
Perante esta situação, o docente apresentou pronúncia em sede de
interessados e analisou os currículos dos membros do conselho coordenador
responsável pela sua avaliação. A conclusão é, no mínimo, perturbadora: os
indicadores científicos do docente, medidos por bases de dados internacionais
como Scopus, Web of Science ou Google Scholar, eram superiores à soma dos
indicadores de todos os sete membros do conselho coordenador.
Ou seja, um único docente produzia mais do que a soma de todo o grupo de
sete pessoas que o avaliava.
Isto levanta uma questão inevitável: como podem as nossas universidades
permitir que a avaliação do mérito seja conduzida por quem, objetivamente,
apresenta níveis de desempenho muito inferiores aos avaliados?
A resposta não é simples, mas é conhecida. Resulta de um sistema
permissivo, de leis pouco exigentes, de ausência de escrutínio efetivo e de uma
cultura institucional que, em muitos casos, tolera (quando não incentiva) a
mediocridade.
A terceira e última fase do processo (a homologação pelo Presidente ou
Diretor da Escola/Faculdade) muito raramente corrige estas distorções. Pelo
contrário, tende a legitimá-las.
E não raras vezes, também encontramos níveis de desempenho científico no
responsável máximo da instituição que ficam muito aquém dos padrões
internacionais. No caso referido, o Diretor da Faculdade apresentava um índice H
na Scopus de apenas 4, enquanto o docente avaliado tinha um índice de 31.
Estes números não são meras estatísticas. São indicadores credíveis e claros
de um problema estrutural.
Se nada for feito, arriscamo-nos a perpetuar um sistema onde o mérito é
penalizado, a excelência é desincentivada e a mediocridade se consolida no topo
das instituições. E isso terá consequências profundas, não apenas para as
universidades, mas para o desenvolvimento do país.
Portugal não pode dar-se a esse luxo!
Álvaro Rocha
Professor Universitário
amrrocha@gmail.com
As nossas universidades foram capturadas por elites medíocres
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