A Doutrina Monroe, implementada pela primeira vez em 1823, tem sido utilizada para justificar invasões dos EUA a países da América Latina.
Na madrugada de 3 de janeiro de 2026 as forças militares dos Estados Unidos capturaram o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e a sua esposa, Cilia Flores, na sua residência em Caracas, a capital do país. Ambos foram levados para os Estados Unidos para enfrentarem acusações de ‘narcoterrorismo’.
Homem fotografa grafitti de Jacobo Árbenz em GuatemalaAP
De forma a justificar esta invasão, o presidente dos EUA, Donald Trump, invocou a Doutrina Monroe, uma visão política articulada pela primeira vez em 1823 pelo então presidente James Monroe, para se opor à influência europeia no hemisfério ocidental. Desde então a doutrina tem sido utilizada para justificar intervenções militares dos Estados Unidos a países da América Latina e a ilhas das Caraíbas.
1954: O golpe de Estado em Guatemala
Em junho de 1954 o Coronel Jacobo Arbenz Guzmán, então presidente da Guatemala, foi destituído do poder por mercenários treinados e financiados por Washington, após a implementação de uma reforma agrária que ameaçava os interesses da empresa norte-americana, United Fruit Corporation.
O líder do golpe de estado, Carlos Castillo Armas, que tomou o poder depois de Arbenz, foi o primeiro de uma série de governantes autoritários apoiados pelos Estados Unidos a governar o país antes da eleição de Vinicio Cerezo em 1985.
Segundo o canal de televisão norte-americano, CBS News, em 2003, os Estados Unidos reconheceram oficialmente o papel da Agência Central de Inteligência (CIA, sigla em inglês) no golpe em “nome da luta contra o comunismo”.
Três soldados da Guarda de Honra e do quartel da Cidade de Guatemala mostram espingardasAP
1961: Invasão da Baía dos Porcos em Cuba
Pouco depois de entrar na Casa Branca, o presidente John F. Kennedy jr. aprovou um plano, que tinha sido desenvolvido durante o tempo de Dwight D. Eisenhower, para destituir o líder cubano, Fidel Castro.
A operação secreta consistia na invasão da Baía dos Porcos por cerca de 1.400 exilados cubanos treinados pela CIA, de forma a mandar abaixo o regime de Fidel Castro. Contudo, acabou por ser um desastre e uma mancha negra para as administrações de Kennedy e Eisenhower. Quando as forças apoiadas pelos EUA chegaram à praia encontraram cerca de 20 mil soldados cubanos, resultando numa aproximação de Cuba à União Soviética que posteriormente levou à Crise dos Mísseis de 1962.
Após esta tentativa, a CIA experimentou outras alternativas para tentar matar Fidel Castro, incluindo envenenar o seu charuto e colocar um búzio com explosivos na zona onde costumava praticar pesca submarina, mas nenhuma foi bem sucedida.
A história repete-se: As intervenções dos Estados Unidos na América Latina e Caraíbas
Os Estados Unidos apoiaram em 1964 o golpe de Estado que vinha a depor o presidente João Goulart, visto como uma ameaça comunista, instaurando uma ditadura militar que durou 21 anos.
A operação ‘Brother Sam’ tinha como objetivo garantir que, caso houvesse resistência por parte dos apoiantes de Goulart, o golpe tivesse armamento e instrumentos para derrubar o governo.
As tropas rebeldes de Belo Horizonte entram no Rio de Janeiro na tarde de 2 de abril de 1964, depois do presidente João Goulart ter partido para o Rio Grande do Sul AP
1965: República Dominicana e a “ameaça comunista”
Em 1965, por uma alegada “ameaça comunista” na República Dominicana, os Estados Unidos enviaram mais de 20 mil fuzileiros e pára-quedistas para Santo Domingo durante uma guerra civil, após o presidente Juan Bosch ter sido destituído. A intervenção dos EUA tinha como objetivo estabilizar o país, proteger os interesses norte-americanos e impedir a ascensão de um regime comunista semelhante ao de Cuba.
Hector García Godoy foi instituído como presidente interino mas as eleições de 1966, marcadas por alegações de fraude, deram a vitória a Joaquín Balaguer, um candidato favorecido pelos interesses dos EUA, que tinha feito parte do governo autoritário de Leónidas Trujillo e que se manteve no poder, não continuamente, até 1996.
Fuzileiros navais viajam num veículo blindado, percorrendo uma rua de Santo DomingoAP
Década de 1970: Apoios a regimes autoritários
Durante a década de 1970 Washington apoiou várias ditaduras militares na América Latina, vendo-as como uma força contra movimentos armados de esquerda num mundo dividido pela Guerra Fria. A operação denominada ‘Condor’, uniu oito ditaduras militares, na Argentina, Chile, Uruguai, Bolívia, Paraguai, Brasil, Peru e Equador.
Os EUA apoiaram o ditador chileno Augusto Pinochet durante o golpe de 11 de setembro de 1973 contra o presidente de esquerda Salvador Allende. Embora não tenham estado diretamente envolvidos no golpe de Estado, as administrações norte-americanas destabilizaram o país através de pressão diplomática, restrições financeiras e com o financiamento de grupos da oposição.
Poucos anos depois, em 1976, os EUA apoiaram a “junta” argentina com o secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger encorajando o novo regime a pôr fim à sua “guerra suja”, segundo documentos norte-americanos desclassificados em 2003. Pelo menos 10 mil dissidentes argentinos desapareceram durante este tempo.
Augusto Pinochet preside uma reunião com o seu estado-maior militar em Santiago, Chile, dias após tomar o poder do presidente Salvador AllendeAP
1979 e 1980: Reagan em Nicarágua e El Salvador
Em 1979 os rebeldes Sandinistas derrubaram o ditador Anastasio Somoza na Nicarágua. Preocupado com uma eventual aliança com Cuba e a União Soviética, Ronald Reagan, então presidente dos Estados Unidos, autorizou a CIA a financiar os contra revolucionários, os Contra, com 20 milhões de dólares para derrubar o governo à época.
Contudo este apoio aos Contras eram financiado parcialmente pela venda ilegal de armas dos EUA ao Irão, gerando o escândalo Irão-Contras. A guerra civil na Nicarágua durou até abril de 1990 e causou cerca de 50 mil mortes.
Em 1980 Reagan também enviou conselheiros militares para El Salvador para enfrentar os apoiantes da Frente Farabundo Martí para a Liberação Nacional, numa guerra civil que durou 12 anos e fez mais de 70 mil mortos.
Um veterano de 87 anos da primeira rebelião de Sandino, armado com uma espingarda ao lado de um guerrilheiro sandinista de 18 anos em León, NicaráguaAP
1983: A invasão a Grenada, Operação Fúria Urgente
Em 1983 enquanto Grenada passava por um período de instabilidade após o assassinato do primeiro-ministro Maurice Bishop por uma ‘junta’ de esquerda, Reagan enviou para a ilha fuzileiros navais e ‘Rangers’ norte-americanos.
A pedido da Organização dos Estados das Caraíbas Orientais, o então presidente dos EUA lançou a Operação “Fúria Urgente” com o objetivo de proteger cerca de mil cidadãos norte-americanos que estariam em Granada.
A operação, que foi condenada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, fez mais de 100 mortos.
Um fuzileiro naval dos EUA observa uma rua a partir da esquina de um edifício numa cidade da ilha de GranadaAP
1989: Captura de Manuel Noriega no Panamá
A captura de Maduro na Venezuela dá-se exatamente 36 anos depois dos Estados Unidos terem invadido o Panamá e detido o seu líder Manuel Noriega por acusações de tráfico de droga, apesar de ter passado anos a trabalhar com a CIA a defender os interesses dos EUA na América Latina.
O então presidente George W. Bush ordenou a invasão do Panamá, enviando cerca de 24 mil soldados para derrubar o governo de Noriega. No total, a Operação “Causa Justa” fez 500 mortos, sendo que 23 deles eram soldados norte-americanos.
A queda de Noriega levou ao fim da ditadura militar no Panamá, que passou mais de 20 anos na prisão nos Estados Unidos.
Manuel Noriega colaborou com a CIA até ter sido capturado pelos EUA em 1989AP
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