Detido em Nova Iorque desde janeiro, ex-presidente da Venezuela desenvolveu uma obsessão pelo Papa e cita frequentemente excertos da Bíblia. Nos telefonemas que faz para casa, pergunta pela família, pela política venezuelana e fala de futebol.
Nicolás Ernesto Maduro Guerra, filho de Nicolás Maduro, contou numa entrevista ao El Pais alguns pormenores da noite em que as tropas norte-americanas detiveram o seu pai e a mulher, Cilia Flores, em Caracas. Nicolasito, como é conhecido o deputado de 35 anos no seio familiar, recebeu uma mensagem de voz do presidente naquela noite do dia 3 de janeiro. "Nico, eles estão a bombardear. Deixa a pátria, continua a lutar, vamos em frente", recorda, citando as palavras do pai, para depois acrescentar: "Ele achou que ia morrer".
Maduro Guerra, filho de Nicolás MaduroAP
Nicolás Maduro acabou por ser levado para os Estados Unidos, onde permanece detido numa prisão em Brooklyn, juntamente com a mulher, acusado de narcoterrorismo. Maduro Guerra lembra o que lhe contaram sobre a noite da detenção: o pai foi agarrado quando tentava entrar num armário "por instinto de sobrevivência", fraturou um joelho, e que Cilia Flores desmaiou depois de bater com cabeça num móvel. "Graças a Deus descobrimos depois que Cilia estava bem, porque a poça de sangue era horrível."
Depois de receber aquela mensagem perturbadora, Nicolasito pensou que o pai tinha morrido. Entre explosões e caças a sobrevoar a cidade, tentou ligar para o pai, sem sucesso, pelo que telefonou aos irmãos Delcy Rodríguez (atual presidente interina do país) e Jorge Rodríguez (presidente da Assembleia Nacional), que chegaram a admitir que Maduro estava morto. "Eles disseram aos mediadores norte-americanos que, se o presidente tivesse sido morto, não falariam com assassinos", conta o filho de Maduro que à mulher reconheceu: "Acho que mataram o meu pai".
Um mês e meio depois, Maduro Guerra recebeu um telefonema do pai, a partir dos Estados Unidos, e o deputado recorda que ficou sem palavras, que "chorou" ao ouvir a sua voz. A partir daquele dia passou a receber chamadas relativamente frequentes, uma vez que Maduro tem direito a 510 minutos por mês para conversar com o mundo exterior.
Os primeiros meses foram passados em confinamento solitário, numa cama estreita. Mas o governo de Delcy Rodríguez negociou melhores condições com os Estados Unidos e, segundo o filho, durante a Semana Santa Maduro começou conviver com outros presos e até a ver televisão com eles.
Maduro desenvolveu uma obsessão pelo Papa e pela Bíblia. “Memorizou-a. Cita uns versículos malucos...”, refere o filho, que grava todas as conversas. “Ele nunca foi assim, mas agora ao telefone começa a dizer ‘vocês têm de ouvir Mateus 6:33. E 3 Coríntios. E o Salmo 108’."
Mas o ex-presidente tem lido outros livros. Pediu-os ao filho, que os enviou para Nova Iorque. Biografias, livros sobre a história dos Estados Unidos, sobre Simon Bolívar e metafísica. Para Cilia Flores, que é advogada, Maduro Guerra enviou o Código Penal de Nova Iorque.
Maduro também pergunta ao filho sobre a família, às vezes sobre política da Venezuela, comida e até futebol. No dia 14 de abril, quando o Barcelona foi eliminado da Liga dos Campeões, estava furioso. "Bolas, que fiasco", lamentou.
Nicolasito acredita que o pai está bem, apesar da detenção. “Ele é dedicado ao país e à política. Acredito que estava preparado para isto. Sei que sente que é uma vitória estar vivo", refere, acreditando que um dia Maduro vai regressar à Venezuela: "Temos fé de que possa voltar. O juiz parece ser um bom homem, vamos lutar na justiça, mas o regresso terá de fazer parte de um acordo político."
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