Na iminência de uma imensa devastação há a prudência de uma bala, ou seja, a consideração de que só resta fazer o possível para escapar a maiores horrores.
Fiel, talvez, à prudência de ateu que cultivara numa vida erudita e cosmopolita, o conde Jan Potocki teve o cuidado de solicitar ao capelão da sua propriedade um último favor.
Benzer uma bala, era o que pedia ao sacerdote católico o aristocrata polaco, um ímpio assolado por depressões e nevralgias.
Potocki, aos 54 anos, finava-se melancólico – após tantas viagens da Espanha à Mongólia, do Egipto ao Cáucaso – no imenso domínio familiar de Uladivka, na periferia ocidental da Ucrânia da Rússia Imperial.
Tornara-se conhecido, afora salões e palácios, pela ascensão em balão, em Varsóvia, em 1790, com o pioneiro Jean-Pierre François Blanchard, e, era sabido, que o conde perfilhara o Iluminismo francês.
Potocki vivera de perto a Revolução em Paris, combatera pela independência da Polónia, conformara-se com a partilha, em 1793, da República Polaco-Lituana imposta pela Prússia e a Rússia.
Ia deixar obras pioneiras de arqueologia e etnografia, fizera nome com relatos de viagens, e ao premir o gatilho da pistola com a bala benzida, afastava de vez a ameaça de lobisomens, a insensata salvação dos católicos, e outros demónios que o tentassem.
Jan Potocki, sem que então se pressentisse, iria, contudo, vergar-se ao peso da história.
Depois do suicídio com a bala consagrada, em 1815, começaram a ser conhecidos excertos e traduções de uma obra-prima da literatura fantástica que redigira em francês: «Manuscrito encontrado em Saragoça».
É uma jornada iniciática de pistas, indícios, insinuações, turbulências, cujo sentido só se alcança por virtude de muita perspicácia, persistência e suma curiosidade.
«Manuscrito encontrado em Saragoça» é uma sequência de relatos de seduções, encantos, que obriga à prudência, ao zelo contra a altivez.
É uma advertência a quem se atenha a elucubrações primárias sobre causas e consequências.
No fantástico de Potocki há motivações ocultas, conexões e associações imprevistas, e é no confronto com demónios transfigurados em beldades, linhagens subsumidas em lendas ainda mais obscuras, que o espanto inicial acaba por se confrontar, mais sereno e comedido, com a brutalidade do quotidiano.
Na iminência de uma imensa devastação, para Potocki, há a prudência de uma bala, ou seja, a consideração de que só resta fazer o possível para escapar a maiores horrores.
Uma fatalidade
A iminente ofensiva dos Estados Unidos e de Israel para captura de urânio enriquecido em Ispahan, Natanz e Fordow ou criação de zonas de alta radiação que impeçam o acesso às reservas iranianas é uma fatalidade.
A operação pode ser total ou parcialmente bem-sucedida ou um fracasso politicamente devastador.
Em qualquer dos casos será essencial a negociação política com o Irão, seja qual for o regime.
Para Telavive a bomba atómica era um imperativo existencial que foi possível alcançar na década de 1960.
O Irão ambicionou, então, o mesmo e com a República Islâmica desenvolveu um programa nuclear militar visando uma capacidade de dissuasão e intimidação equivalente à de Israel.
A ambição de Teerão, ao assumir-se como ameaça nuclear, acarreta, mesmo que a liderança clerical iraniana não saiba ou queira perceber, uma retaliação maior.
Em Washington, o cálculo estratégico, de qualquer administração, obriga a impedir que o Irão possua armas nucleares.
A prudência de uns e de outros poderia, eventualmente, ter obviado a este desfecho, mas, agora, só restam malefícios.
Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945
Na iminência de uma imensa devastação há a prudência de uma bala, ou seja, a consideração de que só resta fazer o possível para escapar a maiores horrores.
A imperativa identificação e lealdade entre judeu e Estado de Israel levou a uma equivalência entre crítica à política governamental israelita e antissemitismo.
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