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Ricardo Borges de Castro
Ricardo Borges de Castro Analista e Consultor
02 de maio de 2026 às 15:29

Política externa europeia: unidade ou velocidade?

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A diferença está em saber o que é mais importante para os europeus neste período de instabilidade geopolítica: uma política externa a uma só voz ou, às vezes, sem voz? Ou uma postura internacional mais veloz, mas potencialmente a mais vozes?

Visto de Bruxelas, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, quer aproveitar a derrota de Viktor Orbán para mudar a forma como a UE faz política externa. Por outras palavras, quer abandonar o princípio da unanimidade em favor das decisões por maioria qualificada como acontece com a política comercial. Esta semana, no seu primeiro grande sobre política externa, o Presidente António José Seguro defendeu o mesmo. Ora, se a UE não conseguiu resolver este problema quando havia o veto persistente da Hungria, será que consegue resolver agora? Há bons argumentos de um lado e do outro. A diferença está em saber o que é mais importante para os europeus neste período de instabilidade geopolítica: uma política externa a uma só voz ou, às vezes, sem voz? Ou uma postura internacional mais veloz, mas potencialmente a mais vozes?

Déjà-vu

O tema não é novo. Volta e meia, o debate sobre a eficácia e peso da política externa da UE no mundo sobe para o topo da agenda em Bruxelas. Isto normalmente acontece quando o quadro externo é muito exigente e um ou poucos países da União impedem o consenso necessário para tomar decisões conjuntas. É verdade que o problema se agravou nos últimos anos com os vetos sistemáticos da Hungria do Sr. Orbán. Mas, o tema da unidade europeia, da necessidade de falar a uma só voz e da rapidez com que a UE responde a acontecimentos internacionais está frequentemente presente em Bruxelas.

Jean-Claude Juncker, Presidente da Comissão Europeia entre 2014 e 2019, abordou o da Política Externa e de Segurança Comum (PESC) da UE no seu discurso do Estado da União Europeia em 2018: “Precisamos de melhorar a nossa capacidade de falar a uma só voz quando se trata da nossa política externa. É por isso que hoje a Comissão propõe a adoção do voto por maioria qualificada em áreas específicas das nossas relações externas”. Na que fez na altura, a Comissão apresentava formas concretas de como avançar naquele sentido nas áreas das Sanções, Direitos Humanos e nas Missões Civis da Política Comum de Segurança e Defesa (PCSD), que é parte integrante da política externa da UE.

A atual presidente, Ursula von der Leyen, também o fez logo em 2020 no seu primeiro do Estado da União: “Quando os Estados-Membros dizem que a Europa é demasiado lenta, digo-lhes para terem coragem e adotarem finalmente o voto por maioria qualificada – pelo menos em matéria de direitos humanos e de implementação de sanções.” Apesar de toda a turbulência internacional dos últimos anos e das declarações de muitos líderes europeus a favor de maior autonomia estratégica e de capacidade geopolítica, o problema persiste.

Um novo impulso?

No último apelo de von der Leyen, o foco é uma vez mais a capacidade geopolítica da UE em responder aos desafios internacionais atuais de forma mais eficaz. No rescaldo da derrota do , a Presidente da Comissão que os 27 deveriam usar o élan criado pelos resultados eleitorais na Hungria para mudar o sistema de votações

em política externa: “Avançar para o voto por maioria qualificada na política externa é uma forma importante de evitar bloqueios sistémicos, como já vimos no passado.” Isto, no entender da presidente, era especialmente relevante na adoção de sanções à Rússia e nos apoios à Ucrânia.

Acontece que isto é mais fácil dizer do que fazer. Se foi impossível alterar o processo de tomada de decisão em alguns temas de política externa enquanto persistia o obstáculo permanente da Hungria, agora que esse impedimento vai, provavelmente, desaparecer, será que o tal ímpeto vai mesmo no sentido de se abandonar a unanimidade? Não sei. O que sei é que há bons argumentos tanto daqueles que propõem o voto por maioria qualificada (como acontece na política comercial), como daqueles que se opõem a esta alteração.

Prós e contras Antes de ver alguns dos prós e contras, é bom referir que o já tem instrumentos que permitem avançar na política externa na ausência de consenso: a abstenção construtiva, isto é, um estado abstém-se numa decisão, mas não impede os demais de avançar e compromete-se a não dificultar a decisão tomada. A outra hipótese, mais remota porque mais difícil, é a chamada ‘clausula passerelle’ que permite aos 27 decidir por unanimidade que nalgumas situações concretas da PESC as decisões se passam a fazer por maioria qualificada. Este mecanismo não foi utilizado até hoje, precisamente porque a mudança do sistema de votação pressupõe a existência de unanimidade.

Num excelente do think tank do Parlamento Europeu, que recomendo a leitura integral, a investigadora Tania Latici, elenca os prós e contras do voto por maioria qualificada nas questões da política externa da UE.

Quanto aos prós, Latici indica: permite tomar decisões mais rápidas; previne a paralisia da PESC como já aconteceu no passado; evita ‘Cavalos de Tróia’ (lembram-se do Sr. Orbán?); ajuda a ultrapassar a questão perene do menor denominador comum que define muitas vezes as posições europeias onde o consenso é necessário; contribui para aumentar a influência do chefe da diplomacia europeia porque pode mais rapidamente tomar posições; e permite a criação de coligações de vontades dentro da UE lideradas por grupos de estados para resolver algumas questões internacionais, aumentando potencialmente a sua influência no quadro europeu e internacional.

No que toca aos contras, a autora identifica os seguintes: enfraquece a unidade da UE, a eterna quimera de Bruxelas; reduz o peso das decisões tomadas, ou seja, uma decisão a 27 tem mais peso do que uma a 20, por exemplo; pode fragilizar estados de menor dimensão porque uma convergência de estados maiores num determinado tema permite tomar decisões por maioria qualificada mais facilmente dado o maior peso relativo na ponderação dos votos; arrisca a marginalização daqueles que não se juntem a uma decisão e esse não é o espírito de uma união; e compromete, potencialmente, a legitimidade democrática de uma decisão que provavelmente afeta o conjunto da UE.

Você decide

Este é um tema complexo e difícil que está ainda por resolver de forma satisfatória. A verdade é que a UE muitas vezes se marginaliza na ordem externa porque é incapaz de tomar decisões atempadamente, se paralisa ou se divide.

Num estudo de opinião do , publicado em dezembro de 2025, oito em cada dez europeus apoiam uma política comum de segurança e defesa (parte da política externa europeia) entre os países membros da UE.

A base de apoio parece clara e os argumentos estão apresentados. Na sua opinião, caro leitor ou leitora, o que se deve privilegiar na ação externa da UE: unidade ou velocidade?

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