Mirabolando ou as crónicas recicladas de Manguel

O facto de os textos de Manguel publicados no jornal mais vendido em Portugal serem mercadoria antiga, prosa que o tangoso argentino publica e republica, vende e revende, porque este é o seu modo de ganhar a vida, não é particularmente significativo, nem esse é o escopo desta história mil vezes contada. Um ensaio de João Pedro George

Neste último Verão, no meio da pandemia catastrófica em que nos encontramos, fomos tomados por uma notícia animadora, que acendeu um clarão de alegria: Alberto Manguel, ensaísta e bibliófilo, íntimo de Jorge Luís Borges, ia doar à cidade de Lisboa a sua colecção pessoal de cerca de 40 mil livros. A comoção foi geral e a turba aplaudiu às mãos ambas. Porque, enfim, ainda existiam na terra pessoas capazes de gestos duma generosidade larga.

Mas havia outro motivo de regozijo público: o argentino raspava-se do Canadá, preparava-se para viver na cidade fundada por Ulisses, pois encontrara aqui o húmus propício à florescência da sua erudição ampla e firme, que é tu-cá-tu-lá com Dante, Shakespeare, Conrad, Lewis Carroll, Joyce, Virgílio, Swift e tantos outros cuja menção seria interminável.

De um momento para o outro, Lisboa subia a alturas inéditas, arranhava as nuvens do Olimpo das capitais europeias que amam as belas-artes e as belas-letras, convertia-se no refúgio de mais um gigante do jet set internacional.

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