A próxima temporada do Centro Cultural de Belém (CCB), que arranca em setembro, em Lisboa, quer estar mais aberta à Europa e atrair novos públicos, disse esta quinta-feira o novo diretor de artes performativas, Serge Rangoni.
A temporada e artes performativas 2026/2027 do CCB, apresentada esta quinta-feira em Lisboa, é a primeira desenhada pelo programador belga Serge Rangoni, escolhido por concurso internacional e que entrou em funções em fevereiro passado.
É uma programação "mais aberta, mais inclusiva e mais profundamente ligada às comunidades" e feita "em tempo recorde" -- "dois meses e meio não é muito" -, afirmou Serge Rangoni, falando em português na apresentação pública aos jornalistas.
Segundo o diretor artístico, o objetivo da nova temporada "é atrair novos públicos, chegar àquelas pessoas que ainda sentem que o CCB 'não é para elas'" e ao mesmo tempo alinhar-se com o plano estratégico definido pelo CCB para os próximos anos, em torno dos valores "Hospitalidade, Liberdade, Participação e Conhecimento".
Questionado pelos jornalistas sobre esse objetivo de fazer chegar a programação a mais públicos, Serge Rangoni falou em diversidade, acompanhado igualmente a realidade da cidade de Lisboa.
"As nossas salas são cheias, têm muita gente, mas quem é o público? É preciso refletir como atrair mais a diversidade da cidade, mas não é simples. Estamos numa parte da cidade mais privilegiada [a zona de Belém] e eu vivo no Martim Moniz e é uma realidade diversa. Como é que podemos ligar tudo isso? É um desafio, mas muito importante para a cidade e para o CCB", sublinhou.
A temporada 2026/2027 inicia-se com o 'fim de semana de abertura', de 11 a 13 de setembro, que junta instalações participativas, dança, música, teatro e performance.
Um dos espetáculos da abertura será "Falsas histórias verdadeiras: Uma Pina colagem", encenado por Victor Hugo Pontes e com música de A Garota Não, que se estreou no Porto em março.
Serge Rangoni sublinhou ainda a estratégia virada para a Europa, de "apoiar as companhias e artistas portuguesas" na circulação e em residências artísticas em redes internacionais, nomeadamente na plataforma europeia Prospero New e na rede European Theatre Convention.
Onze espetáculos de dança, 12 de teatro português
Num resumo da programação, Serge Rangoni disse que o CCB acolherá "o regresso forte da dança", com 11 espetáculos, além de 12 espetáculos de teatro português acolhidos ou coproduzidos e cinco espetáculos internacionais "de artistas pouco ou nunca apresentados em Portugal".
Na apresentação aos jornalistas, Rui Morais, vogal do conselho de administração do CCB, sublinhou a ideia de que a nova temporada é "uma declaração sobre o lugar" que o centro cultural quer "ocupar na vida cultural do país".
Rui Morais manifestou ainda a expectativa de aumentar a afluência em 30%, até porque há mais espetáculos programados, mais espetáculos com entrada gratuita e momentos de "festas e festivais".
A nova programação "foi preparada enquanto aprofundamos o realinhamento do CCB, nos seus modos de funcionamento, prioridades e na clareza da sua missão e na ambição do seu serviço público", disse Rui Morais.
Na área do Teatro, a nova temporada do CCB inclui, por exemplo, "Siddharta", uma criação da belga Lisaboa Houbrechts a partir da obra de Hermann Hesse, "Hannibal", criação de Junior Mthombeni e Michael De Cock que combina música clássica, vídeo, dança e slam, "Fumo", nova encenação de Tiago Correia, e "Para uma breve história da água", nova criação do Teatro Praga.
Numa temporada em que "a dança ocupa lugar de destaque", estão programados espetáculos como "Da Gare do Oriente para o Centro Cultural de Belém --- Krump Session", uma produção da Associação Cultural e Artística Via Urbana apresentada no 'fim de semana de abertura', "The dog days are over 2.0", criado por Jan Martens em 2014 e recriado em 2025 com um novo elenco, uma nova criação de Vera Mantero para a Companhia Maior, "Mirage", a primeira criação de Damien Jalet para o Ballet du Grand Théâtre, ou "Este mundo", uma coreografia de Bouchra Ouizguen para a Dançando com a Diferença.
Ciclo dedicado a Beethoven e José Mário Branco revisitado por Bruno Pernadas
Na área da Música Erudita, o CCB programa um ciclo dedicado a Beethoven, realizado em parceria com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, a Orquestra XXI, a Orquestra Sinfónica Portuguesa e a Orquestra de Câmara Portuguesa.
O ciclo, que acontece no âmbito dos 200 anos da morte do compositor alemão, é transversal a toda a temporada, incluindo os Concertos Comentados. Além disso, haverá também um ciclo de conferências dedicado a Beethoven, "que convida a refletir sobre todas as dimensões da sua criação e a olhar para um artista que tanto apoiou a ideia da Europa".
Na área da Música, a nova temporada volta a incluir os ciclos Música no Museu e Há Fado no Cais, este em coprodução com o Museu do Fado, e concertos de jazz, com o Omniae Large Ensemble, de Pedro Melo Alves, o João Paulo Esteves da Silva Quarteto, Desidério Lázaro e Pantuã, de Mariana Dionísio.
Ainda na Música, na nova temporada, o CCB dá Carta Branca a Bruno Pernadas, que apresentará um concerto do qual faz parte "uma homenagem a José Mário Branco, evocando a sua passagem pelo CCB, em 1997, através de uma suite criada a partir de alguns dos seus temas mais marcantes".
Em novembro, o CCB é palco de vários concertos do festival Misty Fest, de artistas como Alan Stivell, Al Di Meola e Eliana Glass.
Na nova temporada, a Fábrica das Artes "reforça o trabalho com o público jovem", com oficinas e novas criações, muitas das quais no âmbito do projeto "Missão: Democracia", em parceria com a Assembleia da República.
O "Missão: Democracia" inclui, por exemplo, o espetáculo "Montanha e Utopia", de Sara Barros Leitão.
Além disso, está garantida mais uma edição do festival BIG BANG.
Em 2026/2027, o CCB reforça colaborações com a Culturgest, o Teatro D. Maria II e festivais como Alkantara, Temps d'Images, FIMFA - Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas e Festival de Almada, bem como com várias redes europeias, "contribuindo para ampliar a circulação dos artistas portugueses e diversificar os públicos".
A programação integral fica disponível no 'site' do CCB.
Um objetivo: criadores portugueses mais próximos da Europa
O novo diretor artístico das artes performativas do Centro Cultural de Belém (CCB), o belga Serge Rangoni, quer impulsionar a criação de uma rede "um pouco mais formal" para aproximar as estruturas portuguesas do panorama artístico europeu.
Segundo Rangoni, já houve contactos informais com outros programadores e diretores artísticos, como Mark Deputter (Culturgest, em Lisboa) e Luís Fernandes (gnration e Theatro Circo, em Braga), para trabalhar na criação de uma rede que partilhe projetos e modelos de trabalho.
Para o programador belga, deve haver mais condições para que os artistas e estruturas portuguesas de artes performativas se aproximem do contexto artístico europeu, até porque "o tempo de programação em Portugal não é o mesmo de França", exemplificou.
E o trabalho em rede servirá precisamente para isso, para expandir as possibilidades de coprodução e circulação de artistas e estruturas portuguesas, com Rangoni a adiantar a possibilidade de trabalho com Espanha e França.
"É uma questão de sustentabilidade", disse.
Questionado sobre a atualidade, sobre a fragmentação de públicos e a polarização política, Serge Rangoni lembrou a importância da empatia e da diversidade e da necessidade de falar sobre o passado.
"Confrontamo-nos com uma diversidade de posicionamento e as instituições são vistas como poderosas e é complicado", disse, sublinhado a necessidade de abertura, nomeadamente em abordar questões sobre migrações e colonialismo.
"Estou muito admirado das coisas em Portugal, como muitos artistas falam sobre isso [migrações e passado colonial], que não vejo na Bélgica, por exemplo. É muito mais complicado", disse.
O CCB anunciou em novembro passado a escolha do gestor e encenador belga Serge Rangoni como novo diretor artístico das artes performativas, na sequência de um concurso internacional, depois da demissão de Aida Tavares do cargo.
Na escolha pesou "a vasta experiência enquanto diretor artístico e gestor cultural, adquirida tanto no Teatro de Liège como no Museu de Arte Contemporânea do Grand-Hornu, em Mons", revelou na altura o CCB.
Com uma carreira em instituições culturais e governamentais de referência na Bélgica e na Europa, Serge Rangoni foi vice-secretário do ministro da Cultura belga (1997-1999) e presidente do conselho de administração da Convenção Europeia de Teatros (ETC, na sigla em inglês) entre 2017 e 2023.
Sob a sua direção, o Teatro de Liège assumiu também a coordenação da Prospero, uma rede europeia que reúne teatros, festivais e instituições culturais dedicadas à coprodução e circulação internacional de artistas e obras, plataforma da qual o CCB é membro fundador, recorda o comunicado.
"A proposta programática apresentada por Serge Rangoni destacou-se pela sua consistência e ambição, promovendo o cruzamento entre disciplinas artísticas e revelando uma particular atenção à singularidade dos espaços e da arquitetura do CCB", referiu o centro cultural.