Sábado – Pense por si

Steven Spielberg e Harrison Ford não queriam aliens em "Indiana Jones"

O realizador e o ator resistiram à ideia de George Lucas para "O Reino da Caveira de Cristal" e foi no meio termo que encontraram uma solução.

Capa da Sábado Edição 2 a 8 de junho
Leia a revista
Em versão ePaper
Ler agora
Edição de 2 a 8 de junho
George Lucas (à esquerda), Harrison Ford e Spielberg na estreia do filme, em Cannes, no ano de 2008
George Lucas (à esquerda), Harrison Ford e Spielberg na estreia do filme, em Cannes, no ano de 2008 AP

Quando Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal chegou aos cinemas em 2008, quase vinte anos depois de A Última Cruzada, trouxe consigo uma promessa simples, devolver a Harrison Ford o chapéu, o chicote e o velho pulso de aventura arqueológica que tinha feito da saga uma das mais populares da história do cinema. Mas trouxe também outra coisa, bem menos consensual: seres interdimensionais, uma nave semelhante a um disco voador e uma deslocação brusca do território místico-religioso da trilogia original para a ficção científica dos anos 1950.

Segundo uma , essa tensão não nasceu apenas na sala de cinema ou nos fóruns de fãs, já estava dentro do próprio filme. Kathleen Kennedy, histórica produtora da saga, recorda que Spielberg e Ford “não queriam fazer elementos com extraterrestres” e que ambos se envolveram numa disputa criativa com George Lucas, que insistia nessa direcção.

Lucas, por sua vez, explica que queria aproximar o quarto Indiana Jones de um imaginário à A Guerra dos Mundos, precisamente porque a ação se passava nos anos 50, época marcada pela paranoia da Guerra Fria, pelos relatos de discos voadores e pelo cinema B de invasões alienígenas.

A solução encontrada foi um compromisso semântico: não seriam extraterrestres, mas seres vindos de outra dimensão. O problema é que, no ecrã, a diferença pareceu mais diplomática do que cinematográfica. O próprio Lucas brinca com a contradição ao lembrar que a imagem final, em que a nave levanta voo, foi ideia de Spielberg. “Parece um disco voador”, terá observado. E era difícil discordar. O filme podia chamar-lhes interdimensionais, mas o público viu aliens.

Este novo relato acrescenta camadas a uma história que já tinha sido parcialmente assumida por Spielberg. Em 2011, o realizador admitiu que nunca gostou do MacGuffin – o artefacto – de Caveira de Cristal e que teve grandes discussões com Lucas sobre esse elemento. Ainda assim, sublinhou a sua lealdade ao amigo. Quando Lucas acreditava numa história, Spielberg dizia estar disposto a filmá-la como ele a imaginava. A frase ajuda a perceber o tom paradoxal do filme: uma obra assinada por Spielberg mas conduzida por uma obsessão narrativa de Lucas.

Também David Koepp, argumentista do filme, já tinha mostrado reservas. Anos depois, reconheceu que nunca esteve satisfeito com a ideia dos aliens e que tentou propor outra solução. Em retrospectiva, admitiu que talvez os fãs tivessem razão ao sentir que extraterrestres não pertenciam inteiramente a uma aventura de Indiana Jones. Não porque a saga fosse realista – nunca o foi –, mas porque os seus impossíveis vinham de outro lugar; a Arca da Aliança, as pedras Sankara, o Santo Graal. Eram artefactos de fé, mito e maldição, não de ficção científica.

Apesar da receção dividida, O Reino da Caveira de Cristal esteve longe de ser um fracasso industrial. O filme teve um orçamento estimado de 185 milhões de dólares (cerca de 159 milhões de euros, e arrecadou 786,6 milhões de dólares em bilheteira mundial, aproximadamente 678 milhões de euros). Antes da estreia comercial, foi apresentado fora de competição no Festival de Cannes de 2008, sinal da dimensão mediática que acompanhava o regresso de Indiana Jones quase duas décadas depois de A Última Cruzada.

Artigos Relacionados
A Newsletter SÁBADO Edição Manhã no seu e-mail
Tudo o que precisa de saber sobre o que está a acontecer em Portugal e no mundo. Enviada de segunda a domingo às 10h30