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Pedro Strecht: "Nunca existiram tantas crianças e adolescentes a sentirem-se sós"

Vanda Marques
Vanda Marques 13 de julho de 2025 às 10:00
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O psiquiatra da infância tem novo livro com o objetivo de ajudar "os nossos filhos na sociedade do excesso". Alerta para a falta de autonomia das crianças e diz que prefere pais "suficientemente bons" a perfeitos.

O psiquiatra Pedro Strecht escreveu um livro dedicado aos pais porque, como explica, existe um excesso de informação sobre parentalidade que é preciso saber "filtrar". Neste momento de férias, também é importante não cair nos excessos de telemóveis e ecrãs. Numa abordagem a vários temas da educação infantil - desde os estados depressivos dos excessos à arte da espera, sem esquecer um problema que está a afetar as crianças: exposição à pornografia - o especialista alerta que em consulta ouve muitos adolescentes desiludidos com o futuro. 

Como esclarece o autor de Pais, Menos é Mais - Como ajudar os nossos filhos na sociedade de excesso, não se trata de culpabilizar os pais, mas de lhes dar as melhores ferramentas para lidar com os desafios da educação. O psiquiatra - autor de vários livros - alerta que "menos desejo de ter irá originar mais vontade de ser" e ainda que precisar de "menos validação externa" aumenta a autoestima. 

Porque este título: menos é mais?

"Menos é mais" é um aforismo que foi utilizado pelo célebre arquiteto Mies van der Rohe que neste título nos lembra não tantos as vantagens de um minimalismo exagerado, mas a necessidade de depuração de todo o excesso que atualmente envolve a vida emocional de muitas crianças e adolescentes.

Hoje as crianças têm demasiados estímulos?

Vivemos em sociedades marcadas pelo excesso: tensão, desempenho, informação e contacto pelos ecrãs, entre outros. São tempos diferentes em sociedades que obviamente evoluíram nesse sentido e que assim determinam a forma como os mais novos se desenvolvem precocemente em determinadas áreas.

O facto de estar tudo à distância de um clique é prejudicial?

O clique num objeto como um telemóvel ou um computador é um gesto que tanto pode ajudar a aproximar e expandir as relações e a informação como, a pouco e pouco, a afastar-nos da necessidade de contactos reais e de verdadeiro conhecimento. É também um gesto que, sem ser auto-regulado, favorece a impulsividade, a má gestão da frustração e, sobretudo, da aceitação e integração do outro.

Qual é o maior erro dos pais?

Não há um maior erro, sobretudo numa época em que cada vez os pais se preocupam genuinamente com o bem-estar dos filhos. Contudo, atualmente, um erro comum é os pais não atuarem como filtro de estímulos desnecessários ou desadequados para certas fases do crescimento dos filhos e serem eles mesmos, agentes desse excesso de que falamos.

Há um excesso de informação sobre educação ou parentalidade?

Sim, há. E, como se explica neste livro, essa informação excessiva facilmente ilude e baralha, confirma a própria convicção do adulto (e o seu erro), porque nem sempre é fonte de conhecimento, muito menos de sabedoria. Pode ser até procurada e exercida de forma tão exaustiva que inibe uma certa noção de sensibilidade e bom-senso que tantos pais têm sobre os seus filhos

De que forma podemos usar essas informações sem os pais terem sempre a sensação que estão errados?

Como em tudo na vida, há que saber colocar filtros de "para-excitação", como definiu Joyce McDougall e, mais que tudo, saber estar atento à singularidade dos mais novos que, de diversas formas (palavras, comportamentos, por exemplo), já nos dizem imenso sobre as suas necessidades, refletindo também qualidades dos seus pais. Diria assim a muitos pais que, em vez de procurarem informação sobre os filhos, os possam conhecer melhor, admitindo naturalmente que nesse processo todos, por vezes, erramos.

Acha que o excesso de estímulos poderá contribuir para o aumento de diagnósticos de crianças com PHDA - Perturbação de Hiperatividade/Défice de Atenção?

Claro que sim. Pense-se na rotina de muitas crianças ou adolescentes "síntese", ou "padraõ". Dormir pouco e mal, estar na escola horas a fio, demorar imenso tempo nos transportes, usar em excesso os telemóveis, ouvir na televisão ou na voz dos pais relatos em tempo real maioritariamente de desgraças e "emergências", sentirem que a sua necessidade de lazer ou ócio é criticada. Perante isto, o que mais resta é uma resposta em espelho a quem está em excesso de ativação e não lhe é permitido pausa, silêncio, integração de experiências sólidas e de continuidade.

É importante proibirem-se os telemóveis nas escolas? 

As escolas são espaços onde atualmente as crianças e os adolescentes passam demasiadas horas da vida. Penso sempre que a primeira tarefa de qualquer escola é a de facilitar e promover a socialização através da relação com o outro; só depois, vem a aprendizagem. Dito isto, é óbvio que pelo menos até idades em que os mais novos sejam capazes dessa mesma auto-regulação, o uso de telemóveis deve ser proibido no espaço escolar.

Nas férias há alguma descontração nas regras, por exemplo, com os telemóveis ou videojogos, o que se deve fazer?

As férias são um espaço fundamental para o que, autores como Byung Chul-Han, chamam de "desligação". Tempo de pausa, de diminuição de estímulos ou execução de tarefas. Contudo, muitas das circunstâncias atuais de vida levam a que os mais novos ocupem esse tempo colados aos ecrãs ou, em demasiados momentos, fazendo deles o seu uso exclusivo de estar e ser desde que acordam até que se deitam, porque nessas alturas os pais ainda estão em trabalho. É muito importante promover vivências de ar livre e de relação com outras crianças, mais membros da família, saber e poder oferecer alternativas a essa monocultura do jogo online.

"As escolas são espaços onde atualmente as crianças e os adolescentes passam demasiadas horas da vida"

Pedro Strecht

Temos hoje crianças mais ansiosas? 

Sem dúvida, e é sobretudo uma ansiedade que pode ser vivida a três níveis distintos: separação, antecipação e desempenho. Separação porque há pais que não facilitam a autonomia emocional dos filhos, antecipação e desempenho uma vez que vigora desde cedo a cultura obsessiva do perfecionismo e do que muitos chamam a "excelência", em que a criança sentindo que têm que ser a única e/ou a melhor, não tolera em si mesmo a contrariedade ou a frustração

Ou teremos pais mais ansiosos? 

Também, porque são inseguros. Seria útil ajudá-los a relembrar as suas boas capacidades parentais, os aspetos positivos de cada um dos seus filhos e lembrar-lhes que ser "bom pai" é, como expliquei no livro anterior a este, funcionar muito mais num padrão de "pais suficientemente bons" do que de pais perfeitos.

O impacto [da pornografia] é muito negativo pois, acima de tudo, pode destruir ou seriamente condicionar o desenvolvimento da vivência de uma sexualidade integrada nos afetos e vivida no plano da intimidade e da privacidade pessoal.

No seu livro frisa que há cada vez mais crianças com acesso à pornografia. Porque é que isto acontece? Qual o impacto?  

Sim, há estudos que nos dizem que a idade média de entrada de uma criança nesse mundo é por volta dos 10 a 11 anos, correspondente aquela em que recebe o seu primeiro telemóvel. E que, mesmo com controlo parental, muitas delas e pela experiência do seu grupo de pares, chega ao mesmo fim de outras maneiras. O impacto é muito, muito negativo pois, acima de tudo, pode destruir ou seriamente condicionar o desenvolvimento da vivência de uma sexualidade integrada nos afetos e vivida no plano da intimidade e da privacidade pessoal. Também porque proporciona a eventual normalização de modelos individuais (incluindo de imagem de corpo) e relacionais totalmente distorcidos.

Qual a consequência das crianças passarem mais horas na escola do que em casa?

Acima de tudo o distanciamento afetivo dos pais e ainda o facto de que grande parte dos momentos desse contacto seja feito apenas a propósito do tema "escola", nomeadamente no desempenho académico dos filhos. Acho um ponto absolutamente vital a transformar, bem como o que hoje em dia a escola sente como "aprendizagens essenciais" na diferentes idades das crianças e adolescentes, que estão muitíssimo desfasadas tanto das suas necessidades como dos seus interesses. 

Refere que os pais não devem olhar para as escolas como a única forma de crescimento dos filhos. Sente que os pais responsabilizam a escola pela educação dos seus filhos?

Educação e aprendizagem são palavras distintas, embora devam coexistir no espaço de casa e da escola. E sim, delegar noutros tarefas pessoais e, posteriormente, criticá-los com facilidade é sempre mais cómodo do que ser um agente ativo nesse processo.

Por que é que é preocupante o aumento de pais que acompanham os filhos à universidade?

Porque expressa a incapacidade dos pais em favorecer a autonomia emocional dos filhos, mesmo quando estes já são crescidos e ainda porque diz bem da importância que dão a esse momento durante anos vivido como o mais importante no crescimento e bem-estar dos mais novos. E não é.

Descreve que vivemos submersos, em vídeos e fotos do que fazemos, de que forma isto pode ser prejudicial?

A cultura atual da imagem, em vez de expandir e ser fonte de alegria e realização pessoal e social, tornou-se em fonte primordial de imposição, necessidade de validação externa pelo outro, superficialidade de experiências e da vida em si. Temos e devemos explorar a profundidade e durabilidade das pessoas, dos objetos, das relações, não apenas a imagem que, de forma impactante para o outro, queremos que elas exibam.

Temos um problema de solidão?

É um dos maiores problemas psicossociais da atualidade. Em todas as faixas etárias e parece paradoxal que, numa sociedade que facilita o contacto e a proximidade, nunca existiram tantas crianças e adolescentes a sentirem-se sós, tal como a serem incapazes de estarem (ainda que transitoriamente) sozinhos. É um problema também de auto-referenciação e narcisismo maligno das sociedades de hoje.

Fala da importância do tempo livre, porquê?

Porque, de verdade, ele é tão importante como negligenciado no tempo atual. Mesmo o pouco que resta é demasiadas "pré-ocupado" na vida das crianças e adolescentes, levando a que muitas não saibam o que fazer quando, simplesmente, não há nada em particular para fazer.

Podia explicar o que quer dizer com a descrição da sensação: "estou mal, porque estou bem"? 

Porque estar bem, para muitos pais e filhos, parece ser sempre insuficiente. Quando nos esquecemos que, em várias ocasiões, "menos é mais", somos facilmente levados a um padrão de constante sensação de falha ou falta porque, mesmo que já se tenha "tudo", parece sempre que "nada" chega.

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