Do "Doutor Ricardo" ao "Rei dos Frangos": Vieira e a bomba Imosteps

Do 'Doutor Ricardo' ao 'Rei dos Frangos': Vieira e a bomba Imosteps
Bruno Faria Lopes 10 de maio

As explicações de Luís Filipe Vieira no Parlamento mostram como era a sua relação de troca de favores com Ricardo Salgado - e como é a sua relação com o acionista do Benfica que o salvou de um fundo abutre.

As mais de quatro horas e meia de audição a Luís Filipe Vieira não fugiram do guião das restantes audições parlamentares aos grandes devedores do Novo Banco: Vieira entrou a afirmar com veemência que nunca tinha causado perdas ao Novo Banco, mas a sua memória foi-se escapando ao longo da audição, até desembocar em vários momentos de vitimização ("estou aqui porque sou presidente do Benfica"). Mas entre estes momentos, o empresário e presidente do Benfica Luís Filipe Vieira foi dando explicações que ajudam a perceber de onde veem os mais de 410 milhões de euros que as suas empresas deviam em 2018 - e quem o salvou de um fundo abutre no ano passado quando se recandidatava à liderança do Benfica. De todos os casos narrados, o mais ilustrativo, e menos conhecido, é o da Imosteps.

A Imosteps é uma empresa do universo de Vieira que devia ao Novo Banco 54,3 milhões de euros, conforme noticiou a SÁBADO. A dívida – que não foi posta no acordo de reestruturação entre o banco e Vieira – foi vendida a um fundo abutre norte-americano em 2019 por apenas quatro milhões de euros, numa carteira de crédito malparado chamada Nata2. Ou seja: um rombo de 50 milhões de euros para o banco. Mas Vieira afirmou hoje: "A dívida não era minha". Como? A sua versão é de que o terreno pertencia à construtora do GES, a Opway – era um problema que Vieira ajudou a resolver. "Quem lhe apresentou o negócio?", perguntou a deputada Cecília Meireles. "Foi o Doutor Ricardo", respondeu Vieira.

Ricardo Salgado, na versão de Vieira hoje no Parlamento, terá dito "isto [os terrenos da Imosteps] passa para vosso nome [de Vieira e dos sócios] e depois cá estaremos para resolver". Os terrenos estavam em cima de uma reserva natural no Rio de Janeiro e outros tinham cemitérios – era incerto se podiam ser convertidos em área para construção. Vieira aceitou ficar com o negócio e Salgado pôs o BES a financiar a Imosteps, tirando o problema do perímetro da atribulada Opway. Quando chegou a resolução essa dívida ficou do lado de Vieira e o "acordo" deixou de existir. Vieira descreve a Imosteps como um "erro" seu, sem referir que esta se enquadrava numa relação de troca de favores com Salgado, em que ambas as partes beneficiavam (o empresário não soube dizer o que aconteceu a 11 milhões de euros do financiamento do BES à Imosteps).

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