Em 1994 houve Diego, mas também o Maradona dos Cárpatos e o Maradona do Deserto. E a triste história do colombiano Escobar. Já o Mundial 98 teve em Zidane o protagonista, sobrepondo-se ao brasileiro Ronaldo Fenómeno, que viveu um episódio assustador na véspera da final.
O Mundial 2026 começa no próximo dia 11 de junho, com o México-África do Sul como jogo de abertura – vai acontecer no estádio Azteca, da Cidade do México, que vai ser o primeiro a receber partidas de três Mundiais (o México organizou o torneio em 1970 e 1986). Este é também o primeiro Mundial de futebol a realizar-se em três países (Estados Unidos, México e Canadá), algo que vai voltar a acontecer em 2030, pois a competição desse ano decorrerá em Espanha, Portugal e Marrocos. Enquanto não começa a febre dos jogos (e este ano serão, no total, 104, pois este vai ser o Mundial com mais seleções de sempre, 48), veja aqui algumas curiosidades ao longo de quase 100 anos da história da prova. Até ao início, vamos publicar todos os dias curiosidades à volta de dois Mundiais, num total de 11 textos. Este aborda os Mundiais de 1994 e 1998.
Em 1994, o Brasil tornou-se a primeira seleção tetracampeã mundial
Mundial 1994
País organizador: EUA
Vencedor: Brasil
1. Depois do aborrecido e defensivo Mundial de 1990, a FIFA introduziu várias alterações. Cada triunfo passou a valer três pontos, para incrementar um futebol de ataque e a procura da vitória. Os árbitros deixaram de ter de andar de preto, podendo usar equipamentos coloridos. E as camisolas dos jogadores passaram a ter os nomes deles nas costas.
2. A Bulgária foi uma das seleções mais surpreendentes deste Mundial. Nas suas seis anteriores participações na competição não tinha vencido qualquer jogo, mas nos EUA ficou em 2º lugar no seu grupo (à frente da Argentina, que venceu por 2-0), e eliminando a campeã mundial Alemanha nos quartos de final.
3. Este foi o Mundial do adeus de Diego Armando Maradona, que ia com a expectativa de liderar a Argentina a mais uma conquista. E até teve bons momentos, como o belo golo marcado à Grécia. Mas depois acusou efedrina, uma substância estimulante, num controlo anti-doping, e acabou por sair da prova, dizendo-se perseguido pela FIFA.
4. Quanto à seleção da Argentina, perdeu com a Bulgária, passou em 3º no grupo e foi depois eliminada pela Roménia, que teve neste Mundial em grande destaque Hagi. O Maradona dos Cárpatos, que jogou no Real Madrid entre 1990 e 1992, carregou a sua seleção às costas no Mundial dos EUA (eliminada nos quartos de final pela Suécia, nos penáltis), o que lhe valeu a mudança, no verão de 1994, para o Barcelona (onde cumpriu duas épocas abaixo das expectativas, com apenas 11 golos em 51 jogos).
5. Este Mundial viu ainda nascer outro Maradona, o Maradona do Deserto. Foi assim que ficou conhecido Saeed Al-Owairan, que marcou à Bélgica no jogo que decidiu o grupo e permitiu à Arábia Saudita chegar aos oitavos de final na sua estreia em Mundiais. Saeed, logo aos 5 minutos, ganhou a bola a 70 metros da baliza foi por ali fora, fintando três jogadores e beneficiando de uma má abordagem do defesa Rudi Smidts para se isolar perante o guarda-redes Michel Preud’Homme, finalizando com classe.
6. Saeed Al-Owairan teve depois clubes europeus interessados em contratá-lo, mas a lei do país impedia que os sauditas representassem clubes no estrangeiro, acabando por continuar na sua equipa, o Al-Shabab, onde cumpriu toda a carreira.
7. A Colômbia tinha conseguido grandes resultados na qualificação (que acabou com apenas dois golos sofridos em 26 encontros, tendo batido a Argentina por 5-0), e trazia grandes expectativas. Só que o Mundial foi desastroso, começando logo na estreia (derrota por 3-1 frente à Roménia). Os barões da droga, que tinham apostado fortunas numa boa campanha da Colômbia, ficaram furiosos pelas grandes perdas financeiras e Andrès Escobar, que fez um autogolo na derrota frente aos EUA, no regresso a casa foi assassinado. Iria mudar-se para o Milan na época seguinte e planeava casar-se, mas acabou morto com seis tiros à saída de um bar em Medellín. Cada bala tinha escrita a palavra "golo". O autor do crime, Humberto Muñoz, do cartel Gallón, foi detido e condenado, tendo apenas cumprido 11 dos 43 anos de prisão a que fora sentenciado.
8. O Rússia-Camarões (6-1) não apurou nenhuma das seleções, mas ficou na história por dois motivos. Primeiro, pelos cinco golos do russo Oleg Salenko, até hoje o único a marcar cinco golos num jogo de um Mundial (e que iria terminar também como melhor marcador da prova, com seis golos, tantos quantos o búlgaro Stoichkov). Depois, por causa de Roger Milla. Ao fazer o tento de honra dos Camarões, o avançado, com 42 anos, tornou-se o mais velho de sempre a marcar num Mundial, recorde que ainda hoje lhe pertence.
9. A final do Mundial 94, entre Brasil e Itália, é ainda hoje a única de uma final da competição que terminou sem golos. Após o 0-0 (nos 90 minutos e no prolongamento), a partida teve de ser decidida nos penáltis. E aí o “vilão” foi Roberto Baggio. O talentoso jogador italiano enganou o guarda-redes Taffarel, só que a bola subiu demasiado e saiu por cima da trave, com Baggio a ficar ali, desolado, a olhar para o céu. Muitos brasileiros dizem que o “escrete”, que teve nas grandes figuras a dupla Romário e Bebeto, teve ajuda divina para vencer este Mundial, referindo que a bola desse penálti foi guiada para o alto por Ayrton Senna, piloto de Fórmula 1 que tinha morrido num acidente dois meses antes.
Mundial 1998
País organizador: França
Vencedor: França
1. O Mundial voltou a crescer, passando de 24 para 32 seleções – e mesmo assim Portugal não esteve na prova (foi a última vez que falhou um apuramento, desde 2000 é totalista em Europeus e Mundiais). A seleção das Quinas teve um mau início na qualificação, ao empatar na Arménia e perder na Ucrânia, precisando depois de vencer a Alemanha, tendo-se ficado pelo empate (2-2), num jogo em que o protagonista foi o árbitro francês Marc Batta, ao expulsar Rui Costa por gastar tempo numa substituição quando Portugal ainda vencia por 2-1.
2. A Croácia foi uma das grandes surpresas do Mundial, na sua estreia na competição, tendo eliminado a Alemanha nos quartos e perdido apenas nas meias-finais, face à França (que iria vencer a prova).
3. Nas meias-finais, os franceses venceram com dois golos do defesa-central Lillian Thuram, que marcou os únicos dois golos da carreira pela seleção gaulesa (e fez um total de 142 jogos). Quanto à Croácia, venceria depois a Holanda (2-1) no jogo de atribuição do 3º e 4º lugar, com Suker a marcar um golo e a tornar-se assim o máximo goleador da prova, com seis golos.
4. Argentina e Inglaterra reencontraram-se 12 anos depois do polémico jogo decidido pela “mão de Deus” de Maradona. Assistiu-se a uma grande partida, com quatro golos na primeira parte (2-2), mas no início da segunda parte David Beckham foi expulso, caindo no engodo de Diego Simeone – reagiu a uma entrada violenta do agora treinador do Atlético Madrid, mesmo junto ao árbitro, e acabou por ver o cartão vermelho.
5. Com 10, a Inglaterra foi-se defendendo, levando o jogo para os penáltis, acabando por ser eliminada pela equipa argentina. A figura em destaque foi o guarda-redes Roa, que parou os remates de Ince e Batty.
6. Este Mundial ficou ainda marcado pelo jogos entre Irão e EUA, dois países com profundas divergências políticas desde o caso da invasão da embaixada americana em Teerão, em 1979 (que fez 52 reféns durante 444 dias). Apesar do clima entre os dois países, o jogo decorreu de forma tranquila, acabando com a vitória do Irão, o que levou o líder iraniano, o ayatollah Ali Khamanei, a exultar os jogadores: “O poderoso e arrogante adversário sentiu o gosto amargo da derrota graças a vós”, elegendo a vitória como um “símbolo da unidade nacional”. As duas equipas, ao perderem o terceiro e decisivo jogo, os EUA frente à Jugoslávia e o Irão contra a Alemanha, acabaram eliminadas.
7. A final teve frente a frente França e Brasil, com Zidane a sobrepor-se a Ronaldo Fenómeno, que com apenas 21 anos estava a ser uma das figuras do torneio, seguindo com quatro golos apontados. Na final, Zizou marcou dois golos, ambos de cabeça, na sequência de cantos, cobrados por Emmanuel Petit e Djorkaeff. O próprio Petit estabeleceu o resultado final (3-0), tornando-se a França a sétima seleção a vencer o Mundial, a primeira a ganhar em casa desde a Argentina, em 1978.
8. O brasileiro Ronaldo teve, na véspera da final, algo semelhante a um ataque de pânico ou de ansiedade, com o seu sistema a colapsar, como ele diria mais tarde, devido ao stress e pressão a que estava sujeito – eleito o Melhor do Mundo pela FIFA com apenas 20 anos, tinha-se mudado em 1997 do Barcelona para o Inter de Milão por uma fortuna. “Perdemos a Copa no hotel, às 2h37 da madrugada no dia da final”, contaria depois Roberto Carlos, colega de quarto de Ronaldo. Foi ele que deu o alerta, ao vê-lo “com o corpo tenso e a salivar da boca”, com a língua enrolada.
9. Os responsáveis brasileiros tinham decidido que Ronaldo não jogaria a final, mas ele pediu para o fazer, embora não se lembrasse de ter tido aquela convulsão de madrugada – há boatos de que Ronaldo teve de jogar por pressão dos seus patrocinadores. Sob o efeito de comprimidos, Ronaldo foi uma sombra em campo e o Brasil, mesmo com as estrelas Rivaldo e Bebeto, seria contagiado pelo seu fraco desempenho.
10. Duas curiosidades mais sobre o Mundial de 1998: na Argentina, o selecionador, Daniel Passarella, não queria jogadores de cabelo grande. Gabriel Batistuta respeitou essa regra e foi convocado; já Fernando Redondo e Claudio Caniggia não estiveram para isso e ficaram de fora. Refira-se ainda o caso de Cantona: o francês acabou por nunca participar num Mundial, por vários motivos, sendo um deles o famoso pontapé de kung fu sobre um adepto, em 1995, que lhe valeu uma suspensão de nove meses e ter falhado o Euro 96 – aliás, nunca mais seria convocado para a seleção francesa. Cantona não é o único grande jogador do Manchester United a nunca ter disputado um Mundial: o mesmo aconteceu com Ryan Giggs (País de Gales) e George Best (Irlanda), pois os respetivos países estiveram décadas sem se apurarem para a competição.
Curiosidades dos Mundiais de futebol (8): Três Maradonas, barões da droga e Zidane
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