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Gonçalo Levy Cordeiro
Gonçalo Levy Cordeiro Dirigente da IL
24 de julho de 2026 às 07:00

Dois Ministros, dois pesos e duas medidas

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Edição de 21 a 27 de julho

Portugal é um país sofisticado na arte da indignação seletiva. Temos uma balança para a incompetência dos adversários e outra, mais tolerante e almofadada, para as coincidências dos amigos.

Comecemos por Fernando Alexandre, porque, ao contrário das classificações dos exames, esta parte pode ser corrigida rapidamente. O ministro decidiu generalizar um sistema digital de correção que tinha sido experimentado de forma limitada. Entregou a plataforma a uma pequena empresa sem experiência conhecida numa operação desta dimensão. Na verdade, a empresa já tinha sido escolhida pelo Governo do PS, mas os seus pergaminhos não permitiam, em consciência, manter essa escolha.

O resultado foi previsível: falhas na distribuição das respostas, páginas cortadas, problemas de processamento, atrasos, adiamentos e milhares de classificações por confirmar. Quando as famílias protestaram por terem férias marcadas, Fernando Alexandre explicou que os pais tinham sido imprudentes. O pormenor de ter sido o próprio Ministério a alterar as datas pareceu-lhe burocraticamente irrelevante. Este foi o ponto mais baixo do ministro. Ele falhou os prazos a que se tinha comprometido, mas a culpa era das famílias. Surreal. A única coisa que se lhe exigia era um pedido de desculpas pelo transtorno causado. Quer dar sermões, dê-os à sua família e não às famílias que confiaram nos prazos que o seu ministério falhou.

Depois soube-se que o teste-piloto do ano anterior já tinha revelado problemas. O ministro garantiu que não existia “relatório nenhum” e culpou o antigo presidente do Júri Nacional de Exames por não o ter produzido por iniciativa própria. O antigo responsável respondeu que ninguém lho tinha pedido. É uma excelente definição da governação portuguesa: ninguém pediu, ninguém fez, ninguém sabia, mas todos concordam sobre quem deve assumir a culpa: sempre o outro, nunca o próprio.

Não ignoro o número de entraves internos e de gente a querer minar a acção do ministro, mas às falhas da plataforma juntaram-se erros nos critérios de correção de provas como Física e Química, Geografia, História e Português Língua Não Materna. Foi preciso recalcular milhares de notas. Cerca de 1.400 exames ficaram suspensos, surgiram códigos como -3 e -1 e uma aluna que realizou três provas recebeu zero nas três, pediu para as consultar e descobriu que ninguém sabia onde estavam. Estamos a falar de exames que podem decidir o curso, a universidade, a cidade e, em muitos casos, o futuro profissional de centenas de milhares de jovens. Não é aceitável transformar as expectativas de uma geração num beta test.

O PS indignou-se. José Luís Carneiro exigiu desculpas e questionou se Fernando Alexandre tinha condições para continuar. Bitola registada.

Passemos a Luís Neves. A história começa num monte alentejano. Enquanto Diretor Nacional da Polícia Judiciária, Luís Neves contratou para obras privadas uma empresa que recebera cerca de 2,2 milhões de euros em contratos da própria PJ. Segundo o ministro, conheceu o empreiteiro apenas depois da maioria das adjudicações. Pode ser verdade. Não deixa de demonstrar uma extraordinária falta de instinto ao contratar para a sua casa o dono de uma empresa que trabalhava para a instituição que se dirigia.

Na propriedade apareceu um “tanque” com aparência e utilidade de piscina, aparentemente sem licenciamento. A empresa de construção estava até há pelo menos seis dias sem alvará válido. Vieram ainda as sulipas da REFER, transformadas em bancos e mesa, e a empresa de alojamento local da mulher, não declarada apesar do regime de comunhão de adquiridos e das obrigações de exclusividade e transparência do então diretor da PJ.

Dou o desconto a tudo isto. A minha veia liberal mais libertária até admite que a distinção legal entre tanque e piscina seja uma das grandes conquistas do absurdo administrativo português. Acho abstruso pedir autorização para fazer uma piscina a um burocrata num terreno meu. Assim como acho que usar drones para filmar os terrenos do Ministro da Administração Interna (e ex-Director Nacional da PJ) é absolutamente escabroso. O jornalismo português no seu pior. Admitamos também que as sulipas foram uma oferta inocente e que todas as coincidências se reuniram no mesmo monte apenas porque o Alentejo é muito espaçoso. Aqui, porém, o desconto é menor. Tal como é a ideia de que este empreiteiro de Barcelos era o mais adequado para ir a Odemira. A distância entre Barcelos e Odemira é vasta. Os óbvios conflitos de interesse entram pelos olhos dentro, mas deixemos passar. Admitamos que a empresa da mulher desapareceu das declarações por lapso tal como foi indicado. Não deixemos, contudo, passar a refinada ironia da situação original: em Portugal, nem o ex-Director da PJ sabe as leis da construção.

Eis que surge o atrelado. O veículo tinha sido apreendido pela PJ na Operação Pacoba, que desmantelou um laboratório de produção de cocaína. Era usado para transportar equipamentos e produtos químicos. Em vez de ser destruído ou permanecer sob custódia das autoridades para efeitos de prova, acabou junto à sede da mesma construtora que fazia as obras privadas de Luís Neves. Ninguém me venha dizer que isto é normal.

As notícias indicam que a saída poderá ter sido autorizada pelo próprio, ainda enquanto diretor da PJ. O atrelado foi encontrado acoplado a um camião da empresa. No local estavam também dezenas de barris com acetona, substância utilizada no processamento de cocaína, havendo igualmente referências a amoníaco.

A PJ recuperou o material, abriu uma averiguação e comunicou o caso ao Ministério Público, que instaurou um inquérito. Ou seja, a PJ agiu como se não soubesse que o atrelado estaria autorizado para estar ali. Isto não prova que Luís Neves tenha cometido um crime. Prova que existem perguntas gravíssimas sobre a forma como bens apreendidos numa investigação criminal saíram da custódia da PJ e acabaram à porta de um empreiteiro ligado ao seu então diretor. A ser verdade pode pôr em causa a investigação àqueles traficantes de droga. Igualmente desencadeará uma série de crimes e problemas judicias ( que sintetiza todas as implicações gravíssimas do caso do atrelado).

Uma semana passada (escrevo isto na quinta ao almoço), o ministro não deu esclarecimentos concretos. Quando falou, anunciou que estava a reunir documentos para responder “ponto por ponto”. Proibiu perguntas aos jornalistas. A nova transparência política consiste em garantir que um dia haverá transparência.

O primeiro-ministro manteve-lhe a confiança numa quase mudez. No fundo, as declarações de Luís Neves foram um tour de force de Luís Neves que explicou assim a Luís Montenegro que não se vai embora. O PS pediu explicações “claras e inequívocas”, mas sem a mesma pressa, o mesmo dramatismo ou as mesmas dúvidas sobre a permanência no cargo demonstradas no caso da Educação. Na ausência de uma explicação plausível estamos a falar de um dos maiores escândalos de sempre na democracia portuguesa e é assim que um partido da oposição se comporta?

Talvez ajude o facto de Luís Neves ter sido nomeado e reconduzido por governos do PS, antes de voltar a ser reconduzido pelo atual Governo. Não é propriamente um homem de um partido. É um homem do sistema, daqueles que atravessam os partidos como que pertencendo a uma casta suprapartidária.

Fernando Alexandre deve responder pelo desastre dos exames. O que aconteceu afecta diretamente milhares de famílias e pode alterar a vida de muitos jovens. A 2.ª fase tem de correr sem lapsos, sob o risco de não se poder fazer uma reforma em Portugal sem que os patronos do imobilismo nacional atirem este caso – que não é uma reforma, mas uma alteração processual – à cara de quem quer mudar Portugal.

Não ignoro que ambos os ministros terão feito muitos inimigos nos sítios por onde passaram (como se nota!), mas o caso Luís Neves não é apenas uma história sobre piscinas, sulipas e formulários mal preenchidos. Se estes casos poderiam pôr em causa o bom senso do ministro, o atrelado põe em causa a idoneidade de quem dirigia a principal polícia de investigação criminal e, pior ainda, a própria credibilidade da PJ. Para o ministro da Educação, do PS, houve a exigência pedidos de desculpa e dúvidas sobre a sua continuidade. Para Luís Neves o PS trouxe serenidade e pedidos envergonhados para que esclareça o que se passou. Com uma oposição destas, quem precisa de amigos? Ninguém se questiona por que motivo há bitolas tão diferentes?

Dois ministros, dois escândalos e uma balança política tão rigorosa como a plataforma dos exames: perante casos graves, apresenta resultados diferentes e ninguém consegue explicar exatamente como chegou à classificação. Eu tenho uma ideia, mas vou ficar à espera do próximo episódio de Luís Neves que deve estar quase a começar. Ou muito me engano, ou isto não ficará por aqui.

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