Sábado – Pense por si

Escolha a Sábado como "Fonte Preferida"

Veja as nossas notícias com prioridade, sempre que pesquisar no Google.

Adicionar fonte

Hantavírus: como a decisão de receber navio contaminou relação entre governo das Canárias e Madrid

Trocas de mensagens de WhatsApp entre o presidente das Canárias, Fernando Clavijo, e a ministra da Saúde espanhola, Mónica García, mostram desentendimentos sobre a decisão de enviar o cruzeiro infetado de hantavírus para Tenerife, com Clavijo a questionar a decisão do governo central e a apresentar outras soluções.

Este domingo, dia 10, que estavam a bordo do cruzeiro MV Hondius com um surto de hantavírus. O navio esteve brevemente ancorado em Cabo Verde, mas a 6 de maio foi decidido entre a OMS e o governo espanhol que a embarcação seria encaminhado para as Canárias, onde os passageiros iriam desembarcar e ser repatriados para os respetivos países. 

Retirada dos passageiros do navio foi feita com fortes medidas de segurança
Cruzeiro MV Hondius atraca em Tenerife
Retirada dos passageiros do navio foi feita com fortes medidas de segurança
Cruzeiro MV Hondius atraca em Tenerife

Contudo, novos relatos do jornal espanhol dão conta de que a decisão ficou marcada por desentendimentos e discussões entre o governo espanhol e o governo regional das Canárias, que não queria receber o navio. 

E a situação chegou ao cúmulo este sábado à noite quando Fernando Clavijo, presidente das Canárias, recebeu os ministros do Interior espanhol, Fernando Grande-Marlaska, da Saúde, Mónica García, e da Política Territorial, Álgel Victor Torres, no porto de Granadilla, com uma crítica: que o governo central tinha decidido tudo pelo governo das Canárias e que não garantiu que o navio ficaria apenas um dia nas águas do arquipélago. 

De Cabo Verde para as Canárias

Na segunda-feira, dia 4, preocupado com a informação que surgia sobre o futuro do cruzeiro, atracado em Cabo Verde, Fernando Clavijo entrou em contacto com a Delegação do Governo, o braço-direito do Palácio de Moncloa nas ilhas, para questionar a veracidade da possibilidade de o MV Hondius ser enviado para as Canárias. Foi rapidamente tranquilizado, mas na terça-feira os rumores intensificaram-se e Clavijo entrou diretamente em contacto com Ángel Víctor Torres, ministro e ex-presidente das Canárias, que lhe disse para não se preocupar, enviando-lhe o número de telefone da ministra da Saúde. 

Durante a manhã Clavijo pediu por WhatsApp uma reunião com ministra, mas Mónica García respondeu-lhe com a nota que ela própria tinha enviado em resposta à OMS - após ter sido solicitado a ajuda de Espanha -, explicando que não tinha a certeza de que o país conseguiria dar esse apoio. Desta troca de mensagens, o presidente das Canárias ficou com a impressão de que a posição de Madrid era de não acolher o navio. 

Ainda na terça-feira, por volta do meio-dia, Clavijo entrou em contacto com especialistas das Canárias, que lhe disseram que não havia qualquer necessidade de o cruzeiro chegar às águas do arquipélago, apresentando duas outras opções: ou os passageiros voavam para os seus países a partir de Cabo Verde, ou seguiam rumo aos Países Baixos, a bandeira sob a qual opera o MV Hondius

Mas à tarde tudo mudou, quando o governo espanhol afirmou que o cruzeiro iria atracar em Tenerife. Depois de várias tentativas para entrar em contacto com a ministra da saúde, a governante respondeu ao presidente das Canárias à noite, mencionando uma emergência, que um dos passageiros do navio teria de viajar de avião e que era necessário que fosse para o arquipélago. Clavijo recusou e perguntou pelo estado de saúde do passageiro. “Isto é urgente, o que se passa com esta pessoa? Não temos qualquer informação nem um relatório médico, nem um historial, como posso aceitá-lo?”, questionou, segundo fontes do El Mundo

A carregar o vídeo ...

De acordo com o governo das Canárias, depois desta conversa Mónica García terá ficado “tensa” e aconteceram mais duas reuniões “intensas” sobre este incidente. Pouco depois, a ministra enviou a Clavijo um alerta da OMS a dizer que será preciso ativar, para o passageiro doente, a Unidade de Isolamento do Hospital de la Candelaria. Por volta da 01h00, o líder do governo regional respondeu dizendo que seriam necessárias mais informações sobre patologias prévias, “para avaliar”. 

Sem obter qualquer resposta, Clavijo enviou uma mensagem por WhatsApp ao primeiro-ministro, Pedro Sánchez, na manhã de quarta-feira. “Presidente, estou preocupado com este assunto do navio”, escreveu, à qual Sánchez respondeu que também estava preocupado mas que é um dever espanhol ajudar. 

Porquê Tenerife?

Ainda na quarta-feira, por volta das 15h00, aterrou o avião com o passageiro infetado em Las Palmas, depois de Marrocos o ter impedido “sequer de tocar em terra”. Contudo, o Governo Regional das Canárias só ficou a saber desta informação uma hora depois, através da imprensa. 

O passageiro acabou por ficar cerca de 13 horas na pista do aeroporto, devido a um problema técnico. “Se ele vier a precisar de hospitalização, cabe-nos a nós, que nem sequer tínhamos o seu historial: é uma deslealdade e um perigo incrível”, afirma uma fonte regional ao jornal espanhol. 

No dia seguinte, na quinta-feira, deu-se uma reunião com a ministra da Saúde, em que Fernando Clavijo exigiu o documento da OMS que justificasse a proibição do desembarque em Cabo Verde, assim como uma explicação científica pela qual os passageiros deveriam ser evacuados em Tenerife. Deu-se uma discussão depois da qual o presidente das Canárias acabou por aceitar a decisão do Governo, mas impôs uma limitação de tempo. “Vocês vão fazer isto, ok, mas vamos fazê-lo com segurança e por um período muito limitado”, afirmou, segundo fontes do El Mundo

Assim, apresentou a solução à imprensa como uma vitória e, tendo em mente que o barco é estrangeiro, operando sob a bandeira dos Países Baixos, reuniu-se sexta-feira pelas 12h00 com uma delegação daquele país. Aí fez três pedidos: que o cadáver que viaja no navio não desembarcasse nas Canárias, que o navio partisse logo depois da saída dos passageiros e que “tudo aconteça no domingo”, uma vez que o tempo iria piorar a partir desta segunda-feira, dia 11. 

Pouco tempo depois, a ministra da Saúde explicou a Clavijo que a operação iria demorar mais tempo e não prometeu que tudo seria feito no domingo. O presidente das Canárias questionou os protocolos e lembrou que o vírus é transmitido por r,  mostrando-se preocupado por esses roedores poderem sair do navio e entrar na ilha. Além disso, a ministra tinha dito que não seriam realizados testes PCR nem antigénios aos passageiros à chegada de Tenerife e que seria apenas medida a temperatura corporal.

Ainda de acordo com as mensagens, a razão pela qual a operação não pôde terminar no domingo foi atribuída a dois aviões que só podiam chegar esta segunda-feira à ilha. O dos quatro passageiros australianos e o que levaria os passageiros holandeses para os Países Baixos, que depois voltaria para buscar a tripulação filipina, de 38 pessoas, para levá-la para o seu país.

Artigos Relacionados
A carregar o vídeo ...