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A atriz não tem o papel principal, este cabe a Bárbara Branco por ser mais jovem. Mas foi consultora da produção e fez uma personagem inspirada na mãe (Carla Lupi, falecida em 2012). Até às filmagens, no final de 2025, decorreram centenas de horas de conversas para o guião, houve choro e até um nome provisório: o projeto era para chamar-se 44, número da cela onde esteve presa. Ficou Desnorte, com estreia prevista para este ano.
Tinham passado quase oito anos desde que fora libertada de Botafuegos, a prisão em Algeciras (Andaluzia, Espanha) onde cumprira 16 meses e 4 dias pelo tráfico de 800 gramas de haxixe. O cadastro dificultava o regresso aos palcos de Sara Norte, que se contentava com aparições no cinema e na TV e trabalhos temporários fora da área da representação: de gerente de restaurante a empregada de mesa, a atriz fazia-os, empenhada, para sobreviver. Veio a pandemia e tudo piorou, para todos, especialmente para a classe artística, mas a 23 de março de 2021 – em plena crise sanitária – recebeu uma mensagem no chat do Instagram que lhe abriria "a" porta. O argumentista Pedro Barbosa da Silva escrevia-lhe, direto ao assunto: "Dizia que acompanhava a minha carreira há alguns anos, que era argumentista há mais
de 10, que estaria interessado em fazer uma série baseada na minha vida, no meu
percurso e que achava que se eu fizesse parte que o projeto teria mais a
ganhar", conta a própria à SÁBADO.
Aos 40 anos, Sara Norte retrata a sua vida na série DesnorteDuarte Roriz
O seu instinto dizia-lhe para confiar. Sara não o conhecia, no dia seguinte respondeu-lhe afirmativamente. Encontraram-se numa esplanada dos jardins da Gulbenkian, junto à praça de Espanha, em Lisboa, para traçarem os alicerces do projeto, desde o primeiro momento pensado pelo argumentista para série. Com seis episódios, o drama realizado por Jorge Paixão da Costa passará no canal OPTO SIC, ainda em 2026.
Na fase de escrita do guião, Sara deu o seu contributo enquanto consultora com detalhes que só ela sabia. "Aí começou realmente a nascer o 44, que era o nome provisório da
série", conta. O número aludia à cela, onde a atriz conta na autobiografia Eu, Sara, Me Confesso (lançado pela Dom Quixote em setembro de 2013) ter chorado, nos dias maus. "Porque chorar na prisão é dar parte de fraca, se eu estou a chorar, as outras veem, podem aproveitar e tentar abusar e, então, eu fazia questão de mostrar que estava sempre bem", lê-se. Lá dentro, aprendia rapidamente que "ninguém está livre de lá ir parar e que não interessa o grau de instrução, a classe social, o dinheiro", prossegue no livro.
Conversas nos jardins da Gulbenkian e por Zoom
Das reuniões presenciais na Gulbenkian, passaram a falar ao telemóvel e, na escrita de diálogos, a comunicação fez-se por Zoom. "Foi um
processo de muitas horas de conversa, diria centenas de horas, de muito choro, de muito riso", conta. Delineado o guião, já havia algo concreto para apresentar às produtoras. Coube ao autor esta parte da odisseia: bater a muitas portas e ouvir "nãos". "Precisávamos de uma produtora e do canal para ir ao ICA [ Instituto do Cinema e Audiovisual]. Até que a Coral [Europa] aceitou o projeto e ficámos muito felizes", recorda Sara.
Sara Norte sobre a série baseada na sua vida: "A protagonista chama-se Beatriz, em homenagem à minha irmã"
Sara Norte foi libertada de Algeciras a 4 de junho de 2013Luís Costa
A mãe Carla Lupi (à esq.) numa das visitas, em 2012 Duarte Roriz
A abraçar o pai, Vítor Norte, à saída da penitenciáriaLuís Costa
Seguiu-se a candidatura ao ICA, em 2023, para obter financiamento à produção. Foi chumbada à primeira tentativa. "Fomos novamente ao ICA [em 2024],
ganhámos e depois começou-se a pré-produção." A escolha do elenco pelo responsável de casting João Monteiro revelou-se certeira, assegura. A começar pela atriz que fará de Sara: Bárbara Branco. "Vai brilhante. Teria de ser uma atriz bastante mais nova do que eu, estou com 40 anos. Nem com muita maquilhagem, nem inteligência artificial, poderia fazer." O nome é um dos pontos ficcionados: "A protagonista chama-se Beatriz, em homenagem à minha irmã [vítima de leucemia em 2020]."
Rui Unas fará de Vitor Norte (na vida real pai de Sara Norte) e a própria ficará com um papel inspirado na mãe (Carla Lupi, falecida em 2012). "Tenho um saco com as cartas que a minha mãe e a minha família me enviaram, durante o tempo em que estive presa. Recolhi algumas, dei ao Pedro [autor] para ele ler. E numa das cartas, a minha mãe tem um trecho em que dizia que podia contar a história dela à vontade, que era uma mulher resolvida. Isso ainda bateu mais certo e fiquei com a sensação que tinha feito bem em querer fazer o papel dela."
Realidade misturada com ficção
Na infância recordada no livro, Sara conta que não era dada a brincadeiras com bonecas, Barbies e afins. Preferia entreter-se com uma câmara de filmar, "daquelas grandes, antigas", lê-se, imaginando-se a fazer filmes e novelas. Estreou-se precocemente, aos 4 anos, num anúncio ao detergente Super Pop Limão; entrou depois na Rua Sésamo; Super Bebés (RTP) e aos 12 anos conheceu a popularidade através da série Médico de Família. Nesta altura, chegava a gravar 10 horas por dia. "Vou
expor coisas da minha vida, outras são ficcionadas. É muito mais interessante o espetador
não saber o que é a realidade. As pessoas têm de ver, imaginar e sonhar, porque é para isso também que nós fazemos ficção", diz.
Aos 12 anos, durante as gravações de Médico de Família (SIC)D.R.
Com os pais (Vítor Norte e Carla Lupi) e o irmão Diogo, em 1998Hugo Correia
Com a irmã Beatriz, em 2017D.R.
Percorrendo várias etapas da sua vida, Desnorte, como passou a chamar-se a série, vai abordar a queda e a recuperação da atriz. "Quando me encontram na rua, muitas pessoas dizem-me que
querem ver Desnorte. Estou curiosa para ver como é que o público vai reagir,
se vai gostar, se vai entender", diz. Há vários públicos, sabe que não será consensual: "Aliás, nem sei como é que
vai ser para mim estar a ver. Porque participei no processo de escrita, estive
nas filmagens e agora quando vir, nem sei. Queria salientar que esta equipa
técnica foi maravilhosa, todos os setores fizeram de alma e coração. Nós
apanhámos muita chuva, muito frio."
No set, mesmo quando os temas filmados eram duros, a equipa mostrava-se coesa e com espírito de camaradagem, elogia. "Se não houvesse este bom ambiente, seria muito complicado e foi leve. O assistente de produção é o marido, Vasco Cruz, que conheceu em 2026 durante as filmagens de Fátima, de João Canijo. "Não meti nenhuma cunha", diz. E acrescenta: "Somos muito companheiros e trabalhamos bem, porque ninguém
se mete no trabalho um do outro. Cada um está dedicado ao que tem que se
dedicar. Às vezes, depois daquelas cenas mais fortes, ter lá o meu Vasquinho para
dar um abracinho foi fixe."
As filmagens terminaram a 28 de dezembro e segue-se a pós produção (editar as cenas, criar efeitos visuais, sonoplastia, etc.). E remata: "Claro que ter a oportunidade de ter uma série baseada na minha
vida, em que fui consultora, fiz a personagem baseada na minha
mãe vai ser inesquecível", assegura.
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