Saúde

Quando o doente é o Serviço Nacional de Saúde

Quando  o doente  é o Serviço Nacional  de Saúde
Susana Lúcio 26 de setembro

Mais de um milhão de utentes sem médico de família, urgências com horas de espera, médicos exaustos e recém-formados que preferem o setor privado. Retrato do SNS à beira do caos.

Fátima Moreira ficou sete horas nas urgências do Hospital de São José, em Lisboa, e não foi assistida. A fiscal da EMEL sentiu-se mal dois dias depois de tomar a segunda dose da vacina contra a Covid-19. “Tinha a respiração ofegante, sentia um formigueiro pelo corpo e um cansaço extremo. Não me conseguia mexer”, conta. Chegou às 16h20 e recebeu a pulseira verde, a menos prioritária. O ecrã eletrónico indicava um tempo de espera de 2h30, mas às 19h e depois de ter vomitado, Fátima Moreira ainda tinha 12 pessoas à frente. Quatro horas depois, às 23h00, garantiram-lhe que seria a próxima, mas não a chamaram. “Tinha ainda mais três pessoas à frente. Estava pior do que quando tinha entrado e fui-me embora.”

O tempo de espera deve-se à falta de médicos nos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Num serviço de uma unidade da região de Lisboa, são 11 médicos, quando deviam ser 23. Destes, oito têm mais de 55 anos e não são obrigados a fazer 24 horas de urgências por semana. Mas fazem-no. “As urgências não fecham devido ao esforço enorme dos médicos, dos internos e dos tarefeiros”, garante o diretor do serviço à SÁBADO, que prefere não ser identificado. No ano passado, saíram cinco médicos, alguns por rescisão, e nos próximos dois anos vão aposentar-se mais quatro. As vagas não têm sido preenchidas. “Os internos que formamos vão-se embora para outros hospitais. Tivemos um que recebeu o convite de um membro do júri do exame de especialidade, para ir para o Hospital Beatriz Ângelo. Imagino que um hospital com parceria público-privada tenha mais recursos para oferecer.”

Para fazer face à falta de médicos no quadro, os hospitais contratam especialistas prestadores de serviço. Mas os chamados tarefeiros não resolvem o problema. “São médicos em outros hospitais e quando lhes alteram a escala não podem vir.” Para as urgências não fecharem, o diretor já fez três períodos de 24 horas numa semana. “Fazemos milagres todas as semanas. É desgastante e desmotivante. E quando não se prevê alteração no futuro, torna-se insustentável.” Os utentes culpam os médicos pelo tempo de espera, mas o diretor assegura que não. “Estamos em sobrecarga todos os meses do ano. Já tivemos um colega que teve um enfarte durante o serviço e outro que sofreu um AVC.”

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