Impacto do digital "sente-se profundamente" no conflito

Lusa 08 de maio
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Miguel Poiares Maduro, professor e antigo ministro, considera que existe um grande impacto do digital na guerra na Ucrânia, onde não faltam campanhas de desinformação.

O professor e antigo ministro Miguel Poiares Maduro afirma, em entrevista à Lusa, que na guerra entre a Rússia e a Ucrânia "sente-se profundamente" o impacto do digital, onde não faltam campanhas de desinformação.

Miguel Poiares Maduro
Miguel Poiares Maduro
Miguel Poiares Maduro, que é diretor da Global Law School, Universidade Católica Portuguesa, e professor da Cátedra Vieira de Almeida, vai marcar presença na 31.º edição do Congresso da APDC, no painel de debate sobre democracia na era digital.

Questionado sobre se o impacto do digital é sentido na invasão da Ucrânia pela Rússia, o antigo ministro com a tutela dos media considera que sim e de forma profunda, "no bom e no mau" sentido.

"No bom, tem-nos permitido assistir àquilo que se passa na Ucrânia, às opiniões públicas de outros Estados, mobilizando as opiniões públicas desse Estado como provavelmente nunca mobilizaram, para até pressionarem seus governos a fazer mais em apoio dos ucranianos que estão a ser vítimas de uma invasão, do que provavelmente os governos fariam noutras circunstâncias", salienta.

Em larga medida, acrescenta, "os governos ocidentais estão a ser pressionados para fazer mais em apoio da população ucraniana e da Ucrânia do que teria ocorrido se não fosse esta opinião pública virtual e a disponibilização neste espaço público virtual de informação que mobiliza essas opiniões, levando-as a responsabilizar e a pressionar os seus governos nacionais num certo sentido", sublinha Miguel Poiares Maduro.

No entanto, "também sabemos e também vemos como a desinformação está a ser utilizada e é utilizada como instrumento da guerra e em particular pela Rússia, que tem sido especialista nisso, embora não só", porque "também há casos de desinformação relacionados com a Ucrânia", prossegue.

No caso da Rússia, em particular, Miguel Poiares Maduro cita estudos já feitos que demonstram "que o número de contas que fazem 'retuit' das posições oficiais da Rússia aumentou brutalmente", ou seja, "vários milhares de percentagem no pós-invasão da Ucrânia", aponta.

Tudo indica, com base nesse estudo, que a Rússia "criou milhares, senão milhões, de contas oficiais falsas para ajudar a disseminar a sua desinformação e dar-lhe credibilidade, aumentar o número de apoios", acrescenta Poiares Maduro.

Aliás, "vemos muitas vezes, mesmo cá, o número de contas anónimas que aparecem muitas vezes a criticarem de forma violenta posições contrárias à Rússia", bem como "também sabemos como essas estratégias são desenhadas atendendo às opiniões públicas que eles consideram poder ser mais vulneráveis e mais importantes do ponto de vista geopolítico".

Miguel Poiares Maduro cita ainda outro estudo que mostra que "a Rússia tem, sobretudo, concentrado as suas campanhas de desinformação, no âmbito desta guerra, não na Europa", isto "porque, no fundo, provavelmente, acha que já perdeu a comunicação na Europa em larga medida, até porque as opiniões públicas na Europa têm outras fontes de informação independentes que ajudam a contextualizar aquilo que se passa e, portanto, dificultariam a eficácia dessas campanhas de desinformação".

Nesse sentido, as contas falsas pró-Rússia que disseminam desinformação concentram-se na "Índia, no sul de África e na América do Sul".

Portanto, "curiosamente nos países que se têm abstido, por exemplo, nas decisões que têm sido tomadas no âmbito das Nações Unidas", comenta o professor.

"É muito interessante e demonstram uma estratégia clara, pensada, planeada e implementada de desinformação", remata Miguel Poiares Maduro.

A edição deste ano do congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), que dura dois dias, arranca no dia 11 de maio e será em formato híbrido.

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