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Ex-funcionárias acusam Julio Iglesias de abusos sexuais: "Usava-me quase todas as noites"

Duas mulheres relataram como foram alegadamente submetidas a penetrações e agressões naquela a que dizem ser a "casa dos horrores".

Duas mulheres que trabalharam para Julio Iglesias em 2021, nas residências do cantor na República Dominicana e nas Bahamas, alegam ter sido alvo de abuso sexual e de poder por parte do artista. As informações foram avançadas esta terça-feira pelo  que, em colaboração com a Univision Noticias, desenvolveu uma investigação durante três anos.

O cantor Julio Iglesias
O cantor Julio Iglesias Foto AP/Carlos Giusti, Arquivo

Ambas as mulheres garantem que foram alvo de abusos sexuais por parte do espanhol, de 82 anos, principalmente quando a sua esposa, Miranda Rijnsburger, não estava em casa, garantindo que eram sujeitas a penetrações e agressões. "Ele usava-me quase todas as noites. Sentia-me como um objeto, como uma escrava", começou por explicar ao jornal a empregada doméstica.

Um dia Iglesias perguntou-lhe: "Está livre? (...) Ele explicou-me logo: 'Vem ao meu quarto hoje à noite?' Disse-lhe que sim, mas que não era para sexo." Já depois do almoço, uma das chefes abordou-a. "'Olha ele quer que durmamos juntos hoje à noite.' Respondi que não ia fazer isso, que estava muito nervosa e não queria." Mas a chefe advertiu-a: "Tens de o fazer, disseste que sim."

Mais tarde, naquela noite, "ela disse-me que, se eu quisesse, podia colocar a colocar a mão na minha vulva e assim fizemos." No entanto, as coisas não correram como planeado: "Fiquei muito envergonhada. Senti que ele me estava a tocar e não quis. Ele tirou a mão..." 

Esses episódios, segundo explica, aconteciam frequentemente. "Ele agarrava a minha vulva com muita força, doía muito. (...) Eu dizia: 'Isso incomoda-me, não quero', mas ele continuava. Às vezes tinha que fingir porque dizia que não e ele não ouvia." E acrescenta: "Ele também me dava estalos com muita força no rosto nessas ocasiões. Era horrível."

A mesma jovem, que na altura tinha apenas 22 anos, seria uma das responsáveis por cuidar de Julio Iglesias quando o artista estava com dores e, por isso, submetia-se a outros tipos de agressões, incluindo sexo oral.

A mesma declaração foi confirmada pela fisioterapeuta particular do cantor. "Começou a dizer: 'não consegui dormir nada ontem à noite porque a cólica não me deixou. A pobre Rebeca e a outra mulher não dormiram nada. A Rebeca passou a noite toda a chupar para ver se eu dormia, mas não deu certo, não consegui pregar o olho a noite toda.' Ele fazia sempre esse tipo de comentários e depois dizia que era uma brincadeira."

A fisioterapeuta recorda ainda outros episódios: "Estávamos na praia, ele aproximava-se e tocava-me nos mamilos." Além disso, "perguntava-me quando é que estávamos sozinhos, se eu gostava de sexo a três, se eu gostava de mulheres, se eu era de mente aberta." E iniciava outras conversas desconfortáveis: "Quando é que te masturbas?". E um dia, inesperadamente, colocou a sua língua "até às minhas amígdalas". "Deveria ter percebido que o abuso, tanto verbal quando físico e sexual, era real e que não estava a acontecer só comigo. Eu conseguia dizer que não e, até certo ponto, ele respeitava esse não. Mas havia raparigas que não conseguiam dizer não e ele fazia o que queria com elas."

"Casa dos horrores"

Uma das queixosas - a jovem trabalhadora doméstica - afirmou ainda que se sentia pressionada e controlada no seu trabalho, que vivia num ambiente de tensão constante. "Sentia-me obrigada a fazer coisas sem ter a opção de dizer 'não'", recorda. "Aquela casa devia chamar-se a 'casa dos horrores', porque era um pesadelo, um lugar horrível."

Apesar disso, segundo a mesma mulher, Julio Iglesias dizia-lhe que era uma "princesa sortuda" por estar na sua residência.  "Como posso ser uma princesa sortuda se trabalho mais de 16 horas por dia?", questionou.

Apesar das condições retratadas, ela recorda que havia várias modelos "a morrer de vontade de estar com ele". "Quando eu dizia que não queria fazer algo, ele começava a insultar-me e a dizer-me como é que não vou estar com ele, que há muitas modelos a morrer [de vontade] de estar com ele".

A fisioterapeuta também descreveu a mesma atmosfera de controlo absoluto. "O Julio é uma pessoa muito controladora", garantiu, assegurando que o artista controlava as pessoas "através do medo". "Ele ameaça demitir-te e lembra-te constantemente que trabalhar para ele é a melhor coisa que já aconteceu." Além disso, "está sempre a recordar quais são as regras: o que podes ou não fazer".

E continua: "Era um lugar desconfortável" onde os trabalhadores "estavam em estado permanente de alerta" e "irritados". Para não falar do tratamento que recebiam. "Normalizava os maus-tratos. (...) Eu tinha sempre medo do que fazer ou dizer."

Ambas as mulheres concordam que o controlo se estendia a todos os aspetos das suas vidas. "Ele ameaçava demitir-te por qualquer coisa", diz uma delas. "Sabia que ele ia mexer no meu telemóvel. Eu arquivava sempre as conversas ou escondia as fotos", acrescentou a outra mulher. 

A situação chegou a ter até um grande impacto emocional na vida da fisioterapeuta. "Entrei numa depressão muito profunda", diz. Já a empregada recorda que, depois de sair de casa, não conseguia parar de se sentir afetada. "Eles usaram-me, humilharam-me e fizeram o que quiseram comigo. Penso em mim mesma e sinto pena."

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