O mundo mudou e, com ele, o contexto da comunicação social, agora ausente dessa responsabilidade em apresentar os temas sobre os quais refletir.
Esta semana, não sei por onde começar, e não é porque no sector da tecnologia tudo esteja a mudar, ou muito tenha acontecido. Simplesmente, são tantas coisas que acontecem ao mesmo tempo que se torna difícil escolher. De Trump e as suas aparentes loucuras ou afirmações estapafúrdias, criadas para nos chocar mas que são a vida real a acontecer, à sua rebeldia em ignorar o direito internacional e ninguém o conseguir parar, à rebelião no Irão, onde Trump poderia intervir mas escolheu a Venezuela e ameaça a Gronelândia, não nos faltam preocupações que poderiam tirar o sono. Contudo, não o fazem. Porque estamos num scroll infindável que nos distrai e anestesia, no qual não nos dizem sobre o que pensar: dizem-nos o que pensar. E, por isso, deixamos de pensar.
Este paradigma é uma inversão total do papel da comunicação social que, desde a sua fundação, existiu para formar, informar e entreter, ao mesmo tempo que nos dava ferramentas para pensar. O mundo mudou e, com ele, o contexto da comunicação social, agora ausente dessa responsabilidade em apresentar os temas sobre os quais refletir. Gradualmente, passou a indicar o caminho, definindo o que devemos pensar. E este problema intensifica-se em contexto digital, onde múltiplas fontes, mais ou menos credíveis, nos ditam, a cada instante, que opinião ter sobre tudo: os assuntos que importam e os que não importam.
E, neste contexto, pergunto-me: que fontes são estas e por que razão estamos a perder a capacidade de pensar? O problema não é apenas a inteligência artificial, mas também os agentes que nos subtraem ideias e fazem quase tudo por nós. O problema é mais profundo, porque estamos, enquanto sociedade, a perder a vontade de pensar, participar e elaborar.
Depois, lembro-me dos multimilionários da tecnologia. Os filhos deles não usam redes sociais, frequentam escolas sem interferência tecnológica, e ainda assim deixam-nos numa espécie de roda de hamster infinita, na qual consumimos por prazer e sem critério, sem saber muito bem o que estamos a fazer. O pensamento crítico passa a pertencer a uma elite, numa espécie de retrocesso aos tempos em que apenas uns tinham acesso ao saber. Em tempos idos, estava reservado ao clero; agora, a Igreja foi substituída por uma outra religião: a tecnologia domina a procissão. Estudam História e Filosofia, e a leitura continua a fazer parte do quotidiano. Nós enviamos os nossos filhos para cursos de programação, porque o caminho é digital e a linguagem passou a ser binária, em todos os sentidos do que se entende por binário.
Uns e outros, sendo que os outros se tornam a audiência passiva que as grandes teorias da comunicação caracterizaram até ao pós-Segunda Guerra Mundial. Éramos uma audiência manipulável e manipulada pela tecnologia da altura: a palavra escrita e, logo a seguir, a palavra na rádio, com enorme impacto. E agora? Somos uma audiência manipulável e manipulada pelo scroll infinito e pela sobreposição constante de opiniões, numa anulação do pensamento crítico que a tecnologia e as redes sociais parecem impor. Por isso, por mais coisas que aconteçam no mundo, volto sempre ao mesmo: este contexto é insustentável.
As redes estão preparadas para alavancar o óbvio: emoção, contradição, discussão. O que nos provoca raiva ou indignação ganha uma força que a mesma história, contada de outra forma, não consegue alcançar. E, por isso, se queremos, realmente, fazer por mudar, o digital ajuda mas não chega.
O ChatGPT foi lançado no final de 2022 e, desde então, grande parte do conteúdo que encontramos online passou a ser produzido, parcial ou totalmente, por inteligência artificial. Falta discutir limites éticos.
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