Luís Vargas tem 48 anos e é designer. Assumidamente de esquerda, há mais de dez anos que faz vídeos e montagens que visam os políticos de direita. Luís Montenegro não gostou de um post e anunciou processo.
Depois de José Sócrates, em 2008, ter processado João
Miguel Tavares por causa de uma crónica no Diário de Notícias (uma das muitas vezes em que processou jornalistas), de António Costa ter feito o mesmo em 2022 com um ex-governador
do Banco de Portugal por causa de um livro, voltamos a ter um primeiro ministro no ativo a processar alguém, no caso, devido a uma publicação nas redes sociais.
Luís Montenegro processa criador de vídeos que usa o nome @VolksvargasDR
Num comunicado divulgado hoje no portal do Governo, pode ler-se que "o Primeiro-Ministro de Portugal foi alvo de ato desinformação com elevada difusão pública. Aparentemente, com origem no utilizador 'Volksvargas', foi difundida na rede social X uma falsa publicação do Presidente dos Estados Unidos da América com imagem de mensagem atribuída ao Primeiro-Ministro de Portugal. Será apresentada queixa nas instâncias adequadas."
Luís Montenegro refere-se a uma publicação em que uma conta de redes sociais denominada "Volksvargas" simula um SMS enviado por Montenegro a Trump, numa paródia à divulgação pública que o presidente americano fez há dias de mensagens privadas enviadas por líderes mundiais, nomedamente Macron. O falso "leak" faz ainda alusão à polémica da Gronelândia, extrapolando para o caso dos Açores (que não é despiciendo, como a SÁBADO escreveu há dias).
Última hora | Depois de Macron e Rutte, Trump publica mensagem privada de Montenegro pic.twitter.com/uOUKnMjMLs
Em reação ao anúncio do processo, o criador da conta teve necessidade de publicar hoje um comunicado a lembrar que é apenas uma conta de sátira política.
Quando Luís Montenegro fala em "elevada difusão pública" tal deve-se sobretudo ao número de seguidores de "Volksvargas", que tem quase 13 mil seguidores no X, 99 mil no Instagram, 78 mil no Facebook e 11 mil no TikTok.
Sob o lema "neoliberalism is all fun until you run out of other
people's dignity" (o neoliberalismo é só diversão até acabares com a dignidade dos outros, numa tradução livre), "Volksvargas" é uma personagem discreta.
Em 2015, deu uma entrevista ao Diário de Notícias. Na altura, Luís Vargas tinha 37 anos (terá hoje 48 anos) e era "designer industrial com um mestrado em Engineering Design pelo Instituto Superior Técnico". Tinha criado uma agência de comunicação, a Fisherman. ""Faço design industrial, web design e programação. Quem trabalha na outra parte são os meus dois sócios, pelo que não, não estou a fazer isto como promoção da agência", disse na altura ao DN, lembrando depois como começou o seu envolvimento digital em termos políticos e ainda as acusações de estar a soldo de partidos ou de ter ligações ao PS.
Segundo o perfil traçado no DN, Luís Vargas é "filho de dois informáticos da IBM declaradamente de esquerda mas neto de uma mulher de direita". Assumia "ter votado sempre no PS" e até se proclamava 'socrático' ('Distingo entre a atividade governativa e questões do foro pessoal, e do governante tenho uma opinião muito positiva')". Acrescentava que não fazia aquele tipo de publicações (que ainda hoje faz) se fosse pago para isso.
Segundo o seu Linkedin, ainda está ligado à agência Fisherman.
Há muito que é uma conta de paródia política, sobretudo de crítica dos políticos de direita No X, por exemplo, foi criada em 2013 (na altura a rede social chamava-se Twitter), em plena crise da troika e do governo de Passos Coelho.
Nesta campanha presidencial, fez por exemplo um vídeo sobre Marques Mendes que teve dezenas de milhares de visualizações e onde o candidato apoiado pelo Governo era designado "traficante da República".
Nas ultimas autárquicas, fez vários posts semelhantes sobre Carlos Moedas, candidato a Lisboa. O Chega (sobretudo) e a Iniciativa Liberal são também alvo das públicações, que recorrem quase sempre à associação de declarações presentes com passadas, para evidenciar contradições, falhas de éticas e mentiras.
A SÁBADO tentou, através de várias fontes, chegar a algum contato sobre este criador de conteúdos, sem sucesso. O próprio não nos respondeu, por ora, às mensagens.
O Observador cita declarações do ministro Leitão Amaro, que diz que a queixa do primeiro-ministro é “legítima”, e que "não interessa se no passado [o autor da publicação nas redes sociais] foi avençado ou colaborador de algum espaço político, não interessa isso, mas gerou e produziu um documento falso, inventando uma alegada mensagem escrita da autoria do primeiro-ministro e teve um alcance de centenas de milhares de visualizações e pessoas que viram uma mensagem falsa”.
Acrescenta ainda que a publicação não tem nenhuma indicação "que é satírica, irónica ou brincadeira. Foi uma falsidade, espalhada por centena de milhares de pessoas. No mundo digital e das redes há limite para a desinformação, para a mentira e para a falsidade. E há instrumentos para distinguir o que é brincadeira e o que é uma desinformação”.
Nota: artigo alterado para acrecentar a referência ao artigo do Diário de Notícias.
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