Sábado – Pense por si

Paula Cordeiro
Paula Cordeiro Especialista em comunicação
09 de março de 2026 às 07:31

Entre o sucesso e a obediência: a insustentável dualidade da Geração Z

O estudo, feito com 23 mil pessoas em 29 países, incluindo Reino Unido, EUA, Brasil, Austrália e Índia, mostra diferenças geracionais claras nos papéis de género e um retrocesso na independência feminina.

Escrever no Dia Internacional da Mulher sobre um estudo que mostra regressão social nas gerações mais novas é, no mínimo, irónico. E o mais preocupante? Sabemos, pelo menos em parte, como chegámos até aqui. Ou talvez não, porque não consigo deixar de pensar na panóplia de influências que moldam a sociedade, fazendo-a, às vezes, andar para trás. E se é bonita a tendência de desligar o telefone à entrada da sala para estar com os amigos, já o resto é mais difícil de aceitar.

Um inquérito recente da Ipsos Global Advisor conclui que os homens da Geração Z são, em muitos aspetos, mais conservadores do que os seus avós, sugerindo uma renegociação complexa dos papéis de género na sociedade atual. A Ipsos, uma das maiores empresas mundiais de estudos de mercado, dedicada a analisar opinião pública, consumo e tendências sociais, revela uma ambiguidade notável entre os jovens: concordam que mulheres com carreiras de sucesso são mais atraentes, mas ao mesmo tempo acham que a esposa deve sempre obedecer ao marido e que a mulher nunca deve ser demasiado independente. Jovens, em que ficamos?

Vamos por partes. Para nos entendermos: a Geração Z, nascida entre 1997 e 2012, tem hoje entre 14 e 29 anos. Os Baby Boomers, os “avós”, nasceram no pós-Segunda Guerra e têm mais de 60 anos. Seria de esperar um maior conservadorismo, mas, curiosamente, demonstram maior abertura de pensamento do que os (atuais) jovens. Entre ambos, a Geração X sobreviveu à vida analógica sem perder a graça, e os Millennials, entre os 30 e os 40 e poucos anos, vivem entre problemas e propósito, tentando navegar no mundo contemporâneo. Depois, temos os nativos digitais, sempre com o telefone na mão, conectados 24/7. E isto explica muito do que se passa.

O estudo, feito com 23 mil pessoas em 29 países, incluindo Reino Unido, EUA, Brasil, Austrália e Índia, mostra diferenças geracionais claras nos papéis de género e um retrocesso na independência feminina. A Geração Z mantém expectativas tradicionais sobre o próprio comportamento: acredita que homens que cuidam de filhos são menos masculinos e que devem esforçar-se para parecer fisicamente fortes, numa masculinidade tóxica amplificada pelas redes sociais digitais.

Os números são claros: quase um terço (31%) dos jovens da Geração Z concorda que uma esposa deve sempre obedecer ao marido, e cerca de 33% dizem que o marido deve ter a palavra final nas decisões importantes do lar, quase o dobro dos observados entre os homens Baby Boomers (13–17%). Porquê esta regressão? Parte da explicação está na retórica online e nas pressões sociais, que desafiam a igualdade de género e reforçam normas tradicionais, muitas vezes de forma subtil e constante.

O contexto ajuda a compreender: a Geração Z cresceu num mundo permanentemente conectado, onde redes digitais, informação e comparação constante se sobrepõem à vida real. Esta exposição, somada à instabilidade económica, gera ansiedade, depressão e burnout elevados. No trabalho, a pressão por resultados imediatos e a falta de segurança traduzem-se em menor compromisso e redefinição do que significa responsabilidade profissional, num contexto muito desanimador.

Conheço os meus alunos e ensino há tempo suficiente para poder fazer comparações: nunca, como agora, foram tão inseguros e ansiosos, e o problema tem vindo a acentuar-se ao longo dos últimos 10 anos. O resultado é uma geração insegura, que se agarra a tudo, sem compreender o caminho que nos trouxe até aqui. Por favor, Geração Z: não queiram voltar atrás.

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