Para muitos de nós, será estranho imaginar a vida pública sem Marcelo e a forma expressiva com que traduz a atualidade. Era – e continuará a ser – uma espécie de avô da nação.
Ontem foi o fim de uma era. O fim definitivo da década Costa-Marcelo em que o país virou a página da austeridade e do pessimismo. Mas também, ou sobretudo, o fim do trajeto para Marcelo Rebelo de Sousa, a presença mais perene na cena política portuguesa, desde a fundação do Expresso à Assembleia Constituinte e por aí fora, servindo décadas como professor, comentador e político.
A sua passagem por Belém, tão intensa e omnipresente, pode ser definida por essa coisa tão passageira: o afeto. É irónico que assim seja. Até porque Marcelo sempre foi, como diz o próprio, “um solitário”. O seu comportamento, por vezes errático ao longo desta década, revela essa constante procura de contacto e reconhecimento público, seja pela imprensa, com quem nunca teve filtros, seja pelas ruas que tão habilmente conheceu.
A espontaneidade com que saía do programa oficial, a rapidez à la CMTV com que se punha no centro do acontecimento e, claro, as selfies e abraços que o caracterizaram eram chamadas de atenção. Mas corresponderam, tantas vezes, à nossa própria solidão como povo. Para muitos de nós, será estranho imaginar a vida pública sem Marcelo e a forma expressiva com que traduz a atualidade. Era – e continuará a ser – uma espécie de avô da nação.
Talvez por isso tenha sido, em diferentes alturas da sua presidência, tanto consensualmente inatacável como consensualmente insuportável. Falava tanto e sobre tudo que a palavra presidencial se banalizou. Mas essa leveza respondia a uma época em que a comunicação política está mais desintermediada e em que as instituições perderam a aura de credibilidade de antigamente. Marcelo percebia isto e preocupava-o muito, cultivando uma relação próxima dos movimentos inorgânicos que queria estudar e controlar.
Talvez exatamente por isso, os seus mandatos fiquem marcados pela vitória da conjuntura e da polarização, sobre a negociação e o planeamento. Afinal, foi Marcelo quem bateu recordes de dissoluções. Foi ele quem aproveitou a demissão de um Primeiro-Ministro e a interrupção de uma maioria absoluta para distrair o país do seu próprio escândalo das gémeas. Derradeiramente, foi essa instabilidade que precipitou a eleição de 60 deputados de extrema-direita.
Tudo isso tem um preço nos livros da história. Ao contrário de vários dos seus antecessores, não lhe ficaram associadas grandes causas reformistas. Quis fazer a reforma da justiça, onde tudo ficou por fazer. Quis combater a pobreza, em especial dos sem-abrigo, e nunca houve tanta gente a dormir na rua. As decisões mais marcantes do seu mandato foram, paradoxalmente, de bloqueio político, tanto da eutanásia como da regionalização.
Na sua relação com outros agentes políticos, nunca largou o seu critério político. Todos se lembram da demissão conseguida e tentada de Constança Urbano de Sousa e João Galamba, respetivamente. Poucos se lembrarão da conspiração aberta para derrubar Montenegro como líder da oposição e lá instalar Carlos Moedas. Ameaçou Ana Abrunhosa por uma execução do PRR que piorou depois desta sair. Mais recentemente, foi dando novas vidas a Ana Paula Martins, sucessivamente adiando a data da sua prometida avaliação. O resultado? Todos podem dizer que “eram felizes”, sabendo ou não, mas Marcelo deixa Belém sem uma base duradoura de apoio, seja à direita seja à esquerda.
Esta análise, da qual podemos tirar algumas lições, comprova que os políticos que querem ser criadores de conteúdos acabam sempre esvaziados de conteúdo. Mesmo reduzida a sua magistratura de influência ao seu papel formal, Marcelo jamais deixou de ser um grande Presidente. Na relação com as comunidades portuguesas no estrangeiro, a quem deu centralidade, no gosto pela música e pela literatura, consagrada na Festa do Livro que criou, na lucidez da análise e no amparo da proximidade. Perante o risco da fratura social, Marcelo foi “cola” que construiu a nossa paz com a inovação da “geringonça” e as dificuldades da gestão da pandemia.
Marcelo Rebelo de Sousa testou os limites da presidência. O quanto podia aparecer, o quanto podia comentar, o quanto podia intervir sem deixar de ser árbitro. Durante uma década, a sua presença constante ajudou a aproximar os portugueses da política. Quando os historiadores olharem para este período, talvez concluam que Marcelo foi um Presidente fautor do seu tempo. Talvez o vejam como o homem certo para uma época dominada pela comunicação permanente e pela política em tempo real. Porque, como tantas vezes sucede na história, o estilo que melhor serve uma época é também aquele que acaba por revelar os seus limites.
O país não pode ficar satisfeito com debater se este é o momento para reformar o nosso sistema de pensões. Devemos mesmo debater quais os seus verdadeiros desafios e que soluções podem estar à altura.
O Ministro da Defesa poderia ser hoje a estrela do Governo. Portugal prepara-se para comprar 3 das mais avançadas fragatas do mundo. Infelizmente, as suspeitas levantadas pelo Chega de participação privada no negócio da venda das fragatas foram elevadas a drama político-judicial pelo próprio Ministro.
O problema nunca foi o Primeiro-Ministro descansar. Foi ter sentido necessidade de anunciar ao país que não o faria, como se trabalhar sem parar fosse certificado de empenho e tirar férias uma pequena deserção do dever.
Quanto mais Luís Neves arrasta uma resposta, mais espaço dá à desconfiança mas também a novas descobertas, contadas sempre por outrem em tons que não lhe podem ser favoráveis.
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