Uma das organizadoras criticou ainda o modelo digital de correção dos exames nacionais, indicando que implica fornecer dados à inteligência artificial.
Professores e pais protestaram esta quinta-feira, em Lisboa, contra a digitalização na educação e processos de classificação que consideram estar a prejudicar os alunos, quando se registaram falhas no novo modelo de correção digital dos exames nacionais.
Professores durante a Vigília pela EducaçãoANTONIO COTRIM/LUSA
"Houve dezenas, centenas de professores que disseram publicamente que não aceitavam classificar itens, que não aceitavam trabalhar ao sábado e ao domingo, que não aceitavam começar a classificar itens às 11 da noite, porque isso não daria nenhum tipo de segurança daquele processo", disse à Lusa uma das organizadoras da vigília, a professora e historiadora Raquel Varela.
Raquel Varela criticou ainda o modelo digital de correção dos exames nacionais, indicando que implica fornecer dados à inteligência artificial (IA).
"É um processo que nos desvincula do processo educativo. A digitalização significa um retrocesso do desenvolvimento cerebral dos nossos alunos", acrescentou Raquel Varela, indicando que com a iniciativa espera conseguir ter uma "escola onde os professores não tenham que entregar dados sistematicamente à IA".
Para os organizadores, "educar não é digitalizar. Avaliar não é digitalizar".
Por volta das 21:00 estavam perto de 50 professores, também pais, tios e alunos, numa vigília, em Lisboa, em frente à Assembleia da República.
"Estamos a viver um momento muito grave em termos de educação", disse à Lusa a professora e tia de um aluno que está a concorrer para o ensino superior, Margarida Caldeira.
Margarida Caldeira referiu que a classificação dos exames nacionais não pode ser feita "a correr sob a pena de serem os alunos os prejudicados".
Na vigília também estava Fernando Cruz, pai de um aluno do 12.ºano, que admitiu à Lusa estar "preocupado com o que se sucedeu nas últimas semanas" e considerou ser inadmissível que os exames corram mal por causa de um processo de classificação que não é da responsabilidade do seu filho.
"A sucessão de notícias sobre os exames nacionais, toda esta polémica não é saudável e acho que um aluno não tem de se preocupar com este género de coisas. Não tem de estar a pensar se o seu exame foi bem digitalizado, se as folhas de continuação aparecem ou não", disse Fernando Cruz.
O protesto, organizado por um grupo de professores, destinou-se a demonstrar que estão contra "a destruição da educação em nome de um alegado progresso e inovação".
Além do evento em Lisboa, segundo a organização, também se realizaram vigílias à mesma hora em Coimbra, no Porto e na Covilhã.
Pela primeira vez este ano, os exames nacionais do ensino secundário estão a ser avaliados em formato digital, mas o processo tem registado falhas técnicas desde o início e, devido aos constrangimentos, o Ministério adiou, em quatro dias, os prazos inicialmente previstos.
Hoje, no Parlamento o ministro da Educação, Fernando Alexandre, manifestou-se confiante de que todas as notas dos exames nacionais do ensino secundário serão publicadas na sexta-feira à tarde.
"Tivemos uma excelente recetividade [dos professores], as avaliações estão a decorrer e estamos muito confiantes que amanhã [sexta-feira] à tarde publicaremos as notas de todas as disciplinas", declarou aos jornalistas no final do debate sobre o estado da nação.
O prazo para concluir a classificação dos exames do 11º e 12º anos terminou na quarta-feira, depois de adiado por duas vezes devido aos problemas com o modelo de classificação digital.
Professores e pais protestam contra a digitalização no processo de correção dos exames
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