Pela primeira vez, durante umas jornadas organizadas por hospital veterinário eborense, um pastor português foi distinguido entre os seus pares. Tem três mil ovelhas à sua guarda.
É uma profissão que enfrenta vários desafios e não parece apelar às gerações mais novas. Mas é fundamental. As Jornadas Internacionais do Hospital Veterinário Muralha de Évora juntaram-se às comemorações do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores - promovido pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) - e atribuíram o primeiro Prémio Nacional da Pastorícia. O vencedor foi Marcos Rebocho, pastor na Herdade do Barrocal.
Aos 60 anos, Marcos Rebocho foi reconhecido como o Melhor Pastor de Portugal, merecendo uma ovação em pé por todos os congressistas presentes no Hotel Vila Galé, onde decorreu a 17.ª edição destas jornadas. Foi com apenas 13 anos – em finais dos anos 70 - que se tornou responsável por um rebanho de 500 ovelhas e há 26 anos – desde os seus 34, portanto - que trabalha na Herdade do Barrocal, em Montemor-o-Novo. Começou a gerir 1500 ovelhas, um número que ao longo dos anos foi aumentando, contando atualmente com um rebanho de 3000 ovinos. O Prémio Nacional de Pastorícia, explica Nuno Prates, médico veterinário e coordenador das jornadas, teve como objetivo “homenagear os pastores e vaqueiros de Portugal, reconhecendo o seu contributo, dedicação e saber acumulado”. De forma a assinalarem Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, a organização pretendeu “desenvolver uma iniciativa que valorizasse o mundo rural e destacasse o papel fundamental da pastorícia enquanto verdadeiro serviço público, nomeadamente na gestão sustentável dos ecossistemas”.
Foram recebidas mais de 30 candidaturas, “desde Sagres até Bragança", explica o médico veterinário, que embora não saiba o número exato de pastores que existem em Portugal deixa claro que “os verdadeiros pastores são cada vez mais escassos, o que reforça ainda mais a importância de iniciativas como esta”. Mas agora sabemos qual é o melhor entre todos os candidatos, tendo-se destacado entre vários critérios que andaram em torno da tradição, eficiência produtiva, boas práticas ambientais e capacidade de adaptação às exigências do setor.
“Os pastores foram os meus professores na profissão”
Localizada no município de Évora, na antiga freguesia da Nossa Senhora da Tourega, a Herdade do Barrocal é local de património nacional. Por um lado, por ser neste território que se erguem as Antas do Barrocal, consideradas Monumento Nacional desde 1910. Por outro, porque é aqui que trabalha o agora Melhor Pastor de Portugal, Marcos Rebocho, com quem a SÁBADO esteve à conversa por telefone.
“É um reconhecimento para o resto da minha vida, não é? Desde pequenino que eu tenho sempre lidado com ovelhas, é o que eu gosto de fazer", conta. Ao mesmo tempo, e acreditando que este prémio também valoriza a sua profissão, lamenta que não tenha valor para as “pessoas que não conhecem ou não gostam disto” e a falta de interesse dos mais jovens em enveredar por uma profissão que não é bem para todos. Quando começou, recorda, “havia muitos pastores” dos quais foi ajudante e aprendiz. “Os pastores foram os meus professores na profissão”, recorda, descrevendo os seus pedagogos de campo como “pessoas já com alguma idade”.
“Com o decorrer dos anos, a gente vai adquirindo experiência com os animais, eles também nos ensinam”, sublinha o pastor que também já passou conhecimento a gerações mais novas. Infelizmente, não detetou muito interesse por parte de “rapazes” que por aqui estagiaram. Tem, sim, “um braço direito que está com uma idade à volta dos 50 anos e percebe alguma coisa disto", porque também foi ajudante "ainda em rapaz novo" de pastores.
No campo, que é também uma escola, há cada vez menos alunos. Marcos Rebocho sabe porquê: “É uma profissão muito dura”. E vai direto ao assunto, explicando que “é preciso lidar com a sujidade dos animais e a maior parte das pessoas tem nojo disso”. Outro motivo que pode estar a afastar interessados no ramo da pastorícia passa pelo tempo que, muitas vezes, é preciso de dedicar aos animais: “A gente tem de se privar de muita coisa e às vezes também da família para atender os animais, muita gente não está para isso. É preciso gostar muito para mandar algumas coisas para trás das costas”.
Todos os dias acorda bem cedo para ir tratar das cerca de três mil ovelhas marino que tem à sua guarda, em dias que raramente são iguais. Tem de olhar pela saúde dos animais, estar atento a lesões, à alimentação ou mesmo às condições climatéricas, porque a ovelha “é um animal que sofre muito com o calor”. Neste momento, conta com a ajuda de mais dois pastores e, quando o dia está mais calmo, um deles “sai para fazer outros serviços”. “Mas já me tenho visto aí muitas vezes sozinho também”.
No contexto do Prémio Nacional de Pastorícia, o Hospital Veterinário Muralha de Évora produziu uma curta-documental sobre Marcos Rebocho, intitulada O Guardador. Nota: inclui imagens reais de pastorícia, incluindo um procedimento tradicional de cuidado com os animais que pode ser sensível para quem não está habituado.
Entre o “cajado e o tablet”
Durante as Jornadas Internacionais do Hospital Veterinário Muralha de Évora foi debatida a importância de unir a tradição da pastorícia às novas tecnologias, reforçando-se a ideia de encurtar caminho entre “o cajado e o tablet”. Uma forma de explicar a “conjugação entre o saber tradicional e as ferramentas modernas de gestão”, traduz Nuno Prates. Em concreto, “o uso de tablets ou outros dispositivos digitais permite registar dados como pesos dos animais, datas de partos ou informação sanitária, fundamentais para uma gestão eficiente”. Se o cajado representa “o contacto direto com os animais e o território”, o tablet “simboliza a modernização e a necessidade de uma gestão cada vez mais informada e rigorosa”.
Existem outras soluções no terreno, como cercas virtuais, sistemas de geolocalização ou mesmo a utilização de drones “que permitem uma gestão mais eficiente dos efetivos e do território”, diz Nuno Prates. E que também podem servir de atrativo para que as novas gerações se aproximem deste setor de atividade. Mas o coordenador destas jornadas destaca um dado importante: “A pastorícia continua a ser uma atividade exigente, que requer vocação e uma forte ligação ao meio rural. A tecnologia pode aproximar, mas o gosto pela vida no campo continua a ser determinante”.
A pastorícia em Portugal e no mundo
Com a maioria das populações concentradas nos grandes centros urbanos, a tendência permanece seguir na direção oposta a uma vida mais rural. E, por consequência, diz a sabedoria popular, o que está longe da vista, está longe do coração. Mas, destaca a FAO, as pastagens e os pastores são uma peça fundamental na batalha contra as alterações climáticas e a declaração deste Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores oferece uma oportunidade para aumentar a consciencialização sobre a sua importância, defendendo o aumento do investimento e a adoção de políticas adaptadas ao setor pastoril.
Um dos exemplos de políticas portuguesas que seguem neste sentido foi a recente criação de um programa de apoio ao pastoreio extensivo para redução do risco de incêndios rurais. Um comunicado do Governo explica que o programa integra duas medidas principais, com o "objetivo de diminuir a suscetibilidade do território continental a incêndios rurais e promover uma gestão ativa e sustentável da paisagem". Passam pelo "apoio às áreas de baldio e o apoio aos animais para gestão da carga combustível". Ou seja, por um lado valoriza o papel da pastorícia tradicional extensiva na prevenção de incêndios e ao mesmo tempo contribui para a redução das emissões de gases com efeito de estufa e para as metas previstas no Plano Nacional de Energia e Clima 2030.
Mas há outras vantagens. Segundo Thanawat Tiensin, diretor de Saúde e Proteção Animal na FAO, a pastorícia ajuda, por exemplo, na preservação da diversidade da vegetação autóctone, uma vez que "a movimentação do gado ajuda as plantas a regenerarem-se, dispersando as sementes através das suas fezes e ligando diferentes ecossistemas", proporcionando também aos animais uma "alimentação variada e nutritiva". Em todo o mundo, estima o diretor da FAO, cerca de dois mil milhões de pessoas dependem de pastagens, de onde tem origem 10% do abastecimento mundial de carne.
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