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Crise no Amadora-Sintra: "Equipas funcionam desfalcadas"

Sofia Parissi
Sofia Parissi 09 de janeiro de 2026 às 07:00
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Sindicatos falam em situação de "extrema gravidade" e atribuem responsabilidades ao Conselho de Administração e ao Governo.

A , Luísa Ximenez, demitiu-se do cargo, no mesmo dia em que o Conselho de Administração (CA) anunciou que o médico Mário Rui Machado Cruz, , que acumulava funções nos Cuidados de Saúde Hospitalares, renunciou a estas funções transitórias. “Não há nenhum plano para reverter esta situação. Ultrapassaram-se os limites”, diz à SÁBADO Joana Bordalo e Sá, presidente da FNAM (Federação Nacional dos Médicos) sobre a situação atual nas urgências.

Hospital Amadora-Sintra
Hospital Amadora-Sintra Sérgio Lemos

Na passada terça-feira, o, que pertence à FNAM, revelou que na noite de dia 2 para 3 de janeiro, “a urgência geral do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (Amadora-Sintra) funcionou, durante várias horas, com apenas um médico escalado para toda a área ambulatória”, uma situação que o sindicato considera de “extrema gravidade”.  

Para Rui Nunes, médico e professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, o problema é estrutural e já existe há vários anos. "A impressão geral é que os problemas foram adensados a partir do momento em que [o hospital Amadora-Sintra] deixou de ser uma PPP [parceria pública ou privada], e passou a ser uma gestão empresarial, agora na forma da ULS".

Além disso, o especialista refere que a zona onde se insere o hospital também contribui para agravar o problema. "O hospital foi projetado para atender cerca de 200 a 250 mil pessoas e atende uma área de abrangência que é mais do dobro desta população". Por outro lado, sobre a falta de médicos, afirma que a situação "não é exclusiva do Amadora-Sintra, mas transversal ao resto do País".

A presidente da FNAM concorda e relembra que a crise se estende à “esmagadora maioria dos hospitais, de norte a sul do País” e que "as equipas funcionam desfalcadas, no limite". Situação esta que leva "os médicos a procurarem outras opções fora do Serviço Nacional de Saúde (SNS), com condições mais dignas”.

Na hora de atribuir responsabilidades, Joana Bordalo e Sá afirma que o CA da ULS Amadora-Sintra "tem a sua cota de culpa, por não conseguir acautelar os médicos suficientes para os serviços funcionarem na normalidade", mas salvaguarda: "Os conselhos de administração são nomeados de forma política e o que acontece é que há falta de transparência nesse processo". A FNAM e o SMZS também atribuem responsabilidade ao Governo em funções.

Rui Nunes considera que há no SNS "um problema de qualidade de gestão", que não se deve à falta de recursos, "nem materiais, nem humanos". E justifica: "Portugal é o terceiro país da OCDE com mais médicos por mil habitantes. Temos de mudar e implementar um modelo diferente". 

Tempos de espera "inaceitáveis"

No comunicado que diz respeito à madrugada do dia 2, o sindicato referia ainda que “a gravidade e repetição destas situações levaram à demissão da chefe e da subchefe da equipa da Urgência Geral”. Segundo o SMZS, no "início da noite, encontravam-se 179 doentes em circulação na urgência, com mais de 60 doentes internados no serviço de observação" e "tempos de espera com "níveis inaceitáveis". 

A informação sobre os tempos de espera nas urgências do hospital Fernando Fonseca esteve indisponível no início do ano devido a uma falha informática, mas entretanto já foi restabelecida e pode ser consultada no portal do SNS. Na manhã de quinta-feira, 8 de janeiro, os doentes com pulseira amarela aguardavam cerca de duas horas e meia para primeira observação, sendo que o recomendado é não exceder uma hora. Para os pacientes em observação, o tempo médio de espera era de 12 horas. 

No mês passado, o diretor executivo do SNS, Álvaro Almeida, fez referência aos tempos de espera elevados no Amadora-Sintra, mas considerou-os uma "exceção". Sobre o Hospital Fernando da Fonseca, afirmou, citado pela agência Lusa: “Tem problemas específicos e por isso têm tempos exagerados”. Joana Bordalo e Sá rejeita que o Amadora-Sintra seja uma exceção e relembra que também existem tempos de espera elevados em hospitais como o Beatriz Ângelo (Loures) e o Santa Maria. No entanto, admite que "a situação é mais grave na região de Lisboa e Vale do Tejo". O aumento dos casos de gripe tem sido apontado como justificação para os tempos de espera elevados.

Recorde-se ainda que o presidente do CA da ULS Amadora-Sintra, Carlos Sá, demitiu-se no início de novembro de 2025, e não foi substituído até ao momento. Em causa estiveram dois casos polémicos, relacionados com a morte de uma grávida e tempos de espera nas urgências superiores a 20 horas.

Esta quinta-feira, o noticiou que Ana Paula Martins terá escolhido Sandra Cavaca, atual presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), para assumir a liderança do CA da ULS Amadora-Sintra. Na segunda-feira, a ministra da saúde admitiu que existe uma crise nas urgências e não espera que a situação melhore até ao final desta semana. A SÁBADO contactou o Bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, e a (ULS) Amadora-Sintra, mas não obteve resposta até à data de publicação do artigo.

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