Epstein: Quando o Procurador-Geral é apenas mais um funcionário
O escândalo Epstein não se limita, portanto, à esfera moral. É também a expressão de uma falha estrutural.
O caso Epstein, que agora volta a assombrar os Estados Unidos, é muito mais do que uma história de abuso e poder. Trata-se de uma verdadeira radiografia institucional, que revela as fragilidades de um sistema em que o responsável máximo pela investigação criminal depende politicamente do Presidente ou do Governo.
Nos Estados Unidos, o Attorney General responde diretamente ao poder executivo, que o nomeia e pode igualmente destituí-lo. Essa dependência tem consequências diretas para a administração da justiça, pois, quando o poder político controla quem investiga, ficam comprometidas as garantias de que os processos que envolvem figuras influentes sejam conduzidos com verdadeira independência e rigor.
O escândalo Epstein não se limita, portanto, à esfera moral. É também a expressão de uma falha estrutural.
Durante anos, a teia de cumplicidades manteve-se intocável porque quem devia investigar estava condicionado pela lógica da lealdade. Não à lei, mas ao poder que nomeia. E quando a justiça responde a quem governa, deixa de ser justiça para se tornar administração política de conveniências.
Em Portugal, a Constituição traçou um caminho diferente, ao consagrar um Ministério Público autónomo, livre da tutela do Governo e sem receio de investigar ministros, presidentes ou banqueiros.
É essa independência externa que distingue uma república saudável de um sistema de dependências e favores.
O Procurador-Geral da República não deve agir como representante do Primeiro-Ministro nem como instrumento do Presidente, mas sim como o garante de que ninguém está acima da lei.
A independência interna é tão essencial quanto a externa. Uma Procuradoria não pode sustentar uma hierarquia que transforme a autonomia em obediência automática. O procurador que investiga não deve agir por receio de desagradar superiores nem por cálculo de carreira. A verdadeira força do Ministério Público reside no equilíbrio entre a responsabilidade hierárquica e a liberdade de convicção jurídica.
Um Ministério Público silenciado é tão grave como um Ministério Público capturado, porque em ambos desaparece a integridade da justiça.
Em Portugal, há quem defenda o reforço do controlo político sobre o Ministério Público, como se o problema do país fosse o excesso de independência dos seus procuradores. É uma tentação antiga, apresentada com verniz reformista. Fala-se em promover a “accountability democrática”, mas, na realidade, isso significaria entregar ao Governo o poder de travar investigações incómodas e de orientar a ação penal segundo conveniências momentâneas.
É assim que começa a corrosão do Estado de direito, lenta e disfarçada de eficiência.
O exemplo americano deve servir de aviso. Quando o titular do poder de investigar depende da vontade política de quem pode ser investigado, o sistema perde credibilidade e o cidadão perde proteção. A justiça passa a servir interesses, não princípios.
A independência do Ministério Público não é um privilégio dos magistrados, mas um direito dos cidadãos, o direito a que a lei seja aplicada por quem não precisa de pedir licença para fazê-lo.
A justiça não pode submeter-se à vontade de quem governa, mas deve responder apenas à lei e à coragem de a fazer cumprir.
Quando o Procurador-Geral se torna apenas mais um funcionário, o crime mais perigoso deixa de ser o que se comete e passa a ser o que se encobre.
Epstein: Quando o Procurador-Geral é apenas mais um funcionário
Cada incêndio, cada cheia, cada tempestade extrema funciona como um espelho do nosso modelo de Estado e da forma como concretizamos o ideal de um verdadeiro Estado socioambiental de direito que a doutrina vem defendendo.
Se o Ministério Público não tiver condições para responder com eficácia, coerência e firmeza a essa ameaça, o preço não será apenas medido em estatísticas criminais. Será pago em erosão de confiança, em normalização da violência organizada e em perda de qualidade democrática.
O avanço simultâneo de anexações encapotadas e de intervenções militares unilaterais faz de “It’s the End of the World as We Know It” uma descrição amarga de uma ordem internacional que se desfaz e cede, pouco a pouco, à lei do mais forte.
O que está a emergir, comarca após comarca, é a falência de uma estrutura que há muito opera no limite. E quando um sistema de justiça se mantém apenas pelo esforço e sacrifício dos seus profissionais, algo de essencial se perdeu, isto é, a responsabilidade do Estado perante o cidadão.
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