A rede de balcões e de caixas automáticas tem vindo a reduzir-se em Portugal, privilegiando as empresas financeiras as localizações com mais população, mais atividade económica e intensidade turística, o que penaliza territórios menos povoados.
O Banco de Portugal identificou 1.241 freguesias sem ponto de acesso a dinheiro físico em 2025, o que corresponde a 40% do total, situando-se a maioria em zonas rurais, segundo o estudo divulgado esta segunda-feira.
Quase metade das freguesias portuguesas não têm um ponto de acesso a numerárioRicardo Ponte
De acordo com o estudo sobre a rede de acesso a numerário, no final de 2025, existiam em Portugal quase 18 mil pontos de acesso ao numerário - dos quais cerca de 14.600 (80%) correspondiam a caixas automáticas (caso do Multibanco), 2.700 a agências bancárias com serviços de numerário e 550 a pontos de cash-in-shop (rede da marca Nickel).
Apesar desta cobertura, das 3.092 freguesias existentes em Portugal, havia 1.241 (40%) que não dispunham de nenhum ponto de acesso. Tal significa que as populações, cerca de 700 mil, têm de sair da sua freguesia para poder ter acesso a dinheiro 'vivo'. Nos distritos de Bragança e Vila Real mais de 40% da população vive nestas freguesias.
Contudo, diz o Banco de Portugal (BDP) que tal pode não significar uma limitação por si só, pois pode haver pontos de acesso a numerário em freguesias próximas. Assim, segundo o estudo, são 67 as freguesias com mais constrangimentos (onde residem 16 mil pessoas), pois são as que se situam a mais de 15 quilómetros do ponto mais próximo. Em 15 delas a distância média é mesmo superior a 20 quilómetros.
A freguesia mais distante de um ponto de acesso a numerário é a União das Freguesias de Quirás e Pinheiro Novo (município de Vinhais), ao distar 30,6 quilómetros.
Baseado nestes dados, o banco central considera que os concelhos com maiores desafios no acesso a numerário são Beja, Boticas, Bragança, Carrazeda de Ansiães, Chaves, Mirandela, Mogadouro, Montalegre, Torre de Moncorvo, Vimioso e Vinhais. "Nestes territórios, uma eventual contração da rede poderia revelar-se particularmente crítica para a população residente (174 mil pessoas, ou 1,7% da população nacional)", alerta o BdP.
Ainda segundo o BdP, estes dados indicam que há "relevância territorial" neste tema de falta de acesso a numerário, mas que à escala nacional têm "expressão demográfica limitada" e que "a situação não parece ter-se agravado nos últimos anos".
O supervisor bancário identificou ainda o que chamou 'freguesias potencialmente vulneráveis', onde há ponto de acesso a numerário mas qualquer contração da rede (retirada de caixa automática ou fecho de agência) pode ter um efeito muito problemático devido a serem zonas em que cada ponto serve uma população e áreas significativas.
Em 2025, o BdP identificou 36 freguesias como potencialmente vulneráveis, sendo Beja o distrito com mais freguesias nestas condições (oito), seguido de Santarém (cinco), Castelo Branco (quatro) e Évora (três).
São potencialmente vulneráveis freguesias que, no final de 2025, cumpram pelo menos uma das condições: cada ponto de acesso servia, em média, 4.000 ou mais residentes; cada ponto de acesso servia, em média, 150 quilómetros quadrados ou mais; cada ponto de acesso servia, em média, pelo menos 1.500 residentes e 50 quilómetros quadrados.
No estudo divulgado em 2023, com dados relativos a 2022, o BdP identificava 30 freguesias como particularmente vulneráveis, pelo que o 36 agora referido fica acima.
Contudo, é de notar, que a metododologia é diferente. Então, eram sinalizadas as freguesias que distavam mais de 10 quilómetros do ponto de acesso mais próximo e mais de 15 quilómetros do segundo ponto de acesso mais próximo.
A rede de balcões e de caixas automáticas tem vindo a reduzir-se em Portugal, privilegiando as empresas financeiras as localizações com mais população, mais atividade económica e intensidade turística, o que penaliza territórios menos povoados.
Apesar dos constrangimentos de vários territórios, indica o estudo que, em 2025, 95% da população dispunha de um ponto de acesso a numerário a menos de cinco quilómetros (por via rodoviária) da residência. Se a distância for aumentada para 10 quilómetros, 99% da população está coberta.
Estes cálculos tiveram por base os últimos censos e não refletem a estimativa do Instituto Nacional de estatística (INE) segundo a qual, no ano passado, a população residente atingiu 11,4 milhões de pessoas.
Em 2025, o montante levantado em caixas automáticos totalizou 29 mil milhões de euros, correspondentes a 358 milhões de operações de levantamento.
O Governo apresentou recentemente o projeto-piloto Multibanco + Perto, iniciativa para garantir o acesso a serviços bancários a populações que vivem em localidades sem qualquer ponto de atendimento, que contará com 30 terminais.
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