Os casos dos cartéis mostram o que acontece quando uma entidade reguladora tem coragem, mas também o que se perde quando o sistema político não lhe dá os instrumentos necessários para fazer valer as suas decisões.
Na sexta-feira o Parlamento
arrecadou 880 milhões de euros. Não foi um aumento de impostos, nem um corte
num serviço público. Tratou-se de uma lei que acaba com a impunidade dos
cartéis que, como o da Banca, depois de condenados a pagar centenas de milhões
de euros em multas, recorrem à justiça europeia para atrasar o desfecho ao
ponto da prescrição.
No
caso da banca, foram 225
milhões num único processo que se arrastou 13
anos. Em 2022, a lei mudou, acabando com o prazo de prescrição para casos
futuros. Mas estão ainda a decorrer 16 processos com contraordenações, em
setores tão vastos como a grande distribuição, banca, energia, telecomunicações
e transportes, que vão marinando no Tribunal de Justiça da União Europeia, em
busca da sua prescrição.
Foi
uma vitória de última hora, com o CHEGA a mudar o sentido de voto entre a
Comissão e o Plenário. Mas será uma vitória por mais motivos do que o encaixe
financeiro. É que, com esta lei, acaba-se com a impunidade e restaura-se alguma
justiça na concorrência entre as grandes empresas e as pequenas e médias
empresas, entre os “chico-espertos” e os cumpridores.
Esta
é, também, uma clara vitória para Nuno Cunha Rodrigues, o diligente Presidente
da Autoridade da Concorrência. Cunha Rodrigues batalhou de forma muito séria e
persistente pela efetividade das sanções que os seus serviços aplicaram.
Coragem é aliás uma boa definição do seu mandato, onde ainda ontem voltou a
estar nas
notícias por enfrentar as desproporcionais comissões da banca.
Os
casos dos cartéis mostram o que acontece quando uma entidade reguladora tem
coragem, mas também o que se perde quando o sistema político não lhe dá os
instrumentos necessários para fazer valer as suas decisões. Devemos falar mais
das entidades reguladoras, da reforma que precisam para reforçar a sua
capacidade de fazer cumprir a lei, dotando-lhes de recursos e independência
para o efeito.
Não é possível
acreditar que vivemos num país onde o Presidente da Autoridade de Supervisão de
Seguros e Fundos de Pensões precisa de ir recolher a assinatura do Ministro das
Finanças para alugar
um autocarro. Noutro exemplo, a discussão sobre a nova sede do Banco de
Portugal foi transformada num acerto de contas com Mário Centeno, entre teorias
da conspiração e detalhes arquitetónicos que pouco tinham que ver com o
essencial. O dia acabou com até o PSD a desvalorizar as críticas tresloucadas de
Paulo Núncio. Claro que o debate não ficará por aqui – a nova solução,
apresentada oralmente por Álvaro Santos Pereira como 35 milhões mais barata,
tem custos de operação superiores à solução já contratualizada de 2 milhões de
euros por ano. Ao fim de apenas 17 anos, o barato sairá caro.
Noutro
momento igualmente lamentável, a Ministra do Ambiente veio pedir publicamente à
ERSE para fazer uma análise às margens de lucro dos combustíveis, análise essa que
esta entidade já
faz. Como não se crê que a mais capaz das ministras deste Governo não
tivesse disso conhecimento, pode-se concluir que Graça Carvalho
instrumentalizou a ERSE para desconversar, numa altura em que cresce a
insatisfação com um Governo que teima em não descer o imposto sobre os
combustíveis (nem sequer reverter os aumentos que aprovou em dezembro
de 2024 e novembro
de 2025).
Mas
esta não tem de ser uma sina portuguesa. Tanto em
2017, com um Governo PS, como agora
em 2026, com um Governo da AD, houve grupos de trabalho que concluíram pela
necessidade de reforma das entidades de supervisão. Também a avaliação aprofundada
do sistema financeiro, conduzida este ano pelo
FMI, oferece recomendações importantes nesta matéria.
Podíamos
começar pela nomeação dos seus cargos de direção por concurso internacional,
eliminando leituras políticas sobre elas. Tirando lições a partir do caso do
cartel da banca, podemos assegurar que as alterações legislativas propostas por
estas entidades vêm a luz do dia, em vez de acumularem pó numa gaveta
ministerial. Devemos ainda repensar a arquitetura institucional do sistema,
separando funções de supervisão das funções de resolução, como previsto desde
2019.
A concorrência
não se defende sozinha. Os consumidores não se protegem sozinhos. Precisam de
reguladores fortes, independentes e respeitados — não de reguladores ignorados
quando incomodam e instrumentalizados quando dão jeito. Numa altura em que
tanto se fala de pactos de regime, este devia ser um dos mais simples: garantir
que quem tem poder económico cumpre a lei, paga quando é condenado e sabe que,
em Portugal, a regulação não é decoração institucional. É Estado de direito
económico.
Os casos dos cartéis mostram o que acontece quando uma entidade reguladora tem coragem, mas também o que se perde quando o sistema político não lhe dá os instrumentos necessários para fazer valer as suas decisões.
Era um desastre anunciado e Fernando Alexandre decidiu seguir em frente, comprometendo a normalidade da vida de dezenas de milhares de professores e alunos.
Podem fazer o pino ou fazerem-se de estátuas para tentar conter a despesa e salvar a situação. Contudo, isso também não resolverá problemas às pessoas nem facilita a vida a governos em difíceis circunstâncias.
Tanto em 2020 como em 2025, o INE fez grandes correções às suas estimativas anteriores, aumentando retrospetivamente o crescimento de praticamente todos os anos.
Mais que a incoerência, a questão central é financiar o quê e como. Portugal ainda tem uma dívida elevada e tanto Bruxelas como o Banco de Portugal preveem que o Governo vá incumprir os limites de despesa já no próximo ano.
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