Começar de novo - mas será que não há mesmo remédio para tantos males?
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Repare-se no que está a acontecer - e creio que, para usar uma expressão popular, a procissão ainda não saiu do adro - com os exames nacionais. E com todo o sistema educativo em geral. Como foi possível alguém ser tão irresponsável? Este é o resultado da peregrina ideia de que os governos têm de ser dotados de um “ímpeto reformista”.
Vivemos tempos enormemente perturbadores. Tanto no país como no resto do Mundo.
Lá fora, são os amantes da guerra que não nos dão um minuto de descanso e, incansavelmente, tudo fazem para agravar os conflitos já existentes e, quem sabe, irão até procurar iniciar novos confrontos.
Recordo, a título de mero exemplo, as persistentes ameaças de invasão de Cuba por parte das forças armadas dos EUA.
E não é de todo seguro que as eleições que a breve prazo se irão realizar nos EUA e em Israel modifiquem essa actual situação - sendo certo que no Irão, na Federação Russa, no Sudão, no Afeganistão e em Myanmar (antiga Birmânia) não são realizadas eleições livres e que mesmo no Paquistão e na Ucrânia é possível duvidar da existência de uma total conformidade das decisões dos governantes com a vontade da população desses países.
Aliás, até nos países em que a Democracia e o Estado de Direito ainda não foram destruídos (porque, infelizmente, é bem real o risco de desaparecimento dessa forma de organização das sociedades), e refiro-me muito concretamente àqueles que estão organizados na NATO/OTAN, a postura dos dirigentes nacionais desses Estados, salvo muito honrosas excepções, tem sido mais de cedência e até de abjecta bajulação, do que de oposição firme aos propósitos desses amantes da guerra.
Que fique claro: eu não sou propriamente um pacifista e reconheço a imperiosa necessidade de os países democráticos serem uma efectiva e credível força dissuasora a favor da resolução pacífica dos conflitos, e, em última análise, serem realmente capazes de se defender perante ataques militares que contra eles dirigidos.
Mas submetermo-nos aos interesses e agora até aos caprichos dos dirigentes dos EUA (e continuarmos a ser meros compradores do armamento produzido nesse país imperial), não é a solução.
Todavia, embora nunca o esquecendo, esse não é o assunto principal que hoje quero abordar.
Quero, isso sim, manifestar a minha enorme preocupação com o que se passa em Portugal.
Não tendo ficado agradado com os resultados eleitorais que ditaram a actual composição da Assembleia da República, confesso que nunca esperei que o governo liderado por Luís Montenegro tivesse alcançado um patamar tão baixo que faz parecer o governo de Pedro Santana Lopes um modelo de virtudes.
É inegável que existem no nosso país problemas estruturais cuja resolução tem sido sistematicamente adiada.
Por exemplo, as deficiências no funcionamento do sistema judiciário, que conheço muito bem, por dentro e por fora, constituem, com reflexos muito negativos para o desenvolvimento nacional, um desses problemas sem solução à vista.
E não serão os “pensos rápidos” aprovados recentemente e já promulgados pelo Presidente da República que irão constituir essa solução. Bem pelo contrário, asseguro-vos.
Mas, como sempre, e socorrendo-me mais uma vez da mitologia da Grécia Antiga, a minha condição de Cassandra, que partilho com algumas outras pessoas, irá seguramente prevalecer.
Recordando esse mito, Cassandra era uma princesa de Troia que tinha a capacidade de prever o futuro, mas em quem ninguém acreditava, mesmo quando as suas profecias se concretizavam.
E é por isso, por estar cansado de ser uma Cassandra dos tempos modernos, que agora pouco escrevo acerca das questões relativas ao sistema judiciário, cuja degradação irá continuar.
Só que, comparadas com o que se passa em outros sectores – neles se destacando o da saúde -, as deficiências do sistema judiciário são um problema menor.
Repare-se no que está a acontecer - e creio que, para usar uma expressão popular, a procissão ainda não saiu do adro - com os exames nacionais. E com todo o sistema educativo em geral.
Como foi possível alguém ser tão irresponsável?
Este é o resultado da peregrina ideia de que os governos têm de ser dotados de um “ímpeto reformista”.
Há que fazer reformas, muitas reformas, reformar tudo a todo o custo, sem cuidar das consequências.
Muito em especial aquelas que estão a afectar, de forma muito grave, os alunos e as alunas, e as suas respectivas famílias.
Mas se neste caso, como na área da saúde, da habitação e até dos transportes, está em causa um problema de capacidade técnica e política dos dirigentes, o que se passa com o Ministro da Administração Interna (outra surpresa muito desagradável), assume contornos muito distintos.
Aqui estão em causa condutas eventualmente assumidas no âmbito da vida privada do titular do cargo que carecem de ser devidamente apuradas.
E será adequado, até para o próprio, que o Ministro da Administração Interna se mantenha em funções enquanto decorre a investigação?
Em primeira linha, é ao próprio e ao primeiro-ministro que cabe responder a essa pergunta.
E, seja qual for a decisão que um ou o outro venham a tomar, de tudo isso resultarão consequências. Mesmo que se decidam (um e outro) pela inacção.
Porque não agir (neste caso, não reagir) é uma forma de acção.
Voltando ao governo presidido por Pedro Santana Lopes e usando um eufemismo, por complicações de percurso bem menores e bem menos graves, o então Presidente da República Jorge Sampaio dissolveu o Parlamento e determinou a realização de eleições antecipadas.
Conceptualmente essa é uma hipótese possível.
Mas, com o actual Presidente da República, essa hipótese não é plausível.
E, a meu ver, bem.
A esmagadora (e em minha opinião perigosa) vitória das Direitas nas últimas eleições parlamentares - sempre em minha opinião, insisto, e eu não tenho a pretensão de ser dono da verdade - constituiu uma reacção à incapacidade dos governos liderados por António
Costa em resolver os tais problemas estruturais de que o país padece, mesmo depois de os eleitores e as eleitoras terem concedido ao PS uma maioria absoluta na Assembleia da República.
E também porque os portugueses e as portuguesas tiveram uma clara percepção de que António Costa, como antes aconteceu com Durão Barroso, queria abandonar a governação do país para ocupar um cargo cimeiro numa das instituições da União Europeia - presidente da Comissão no caso de Durão Barroso, presidente do Conselho no caso de António Costa.
As consequências dessa escolha (dos eleitores e das eleitoras, clarifico) estão à vista.
E é bom que todos percebam que as escolhas que fazemos têm consequências.
Talvez na próxima eleição, as escolhas sejam mais bem ponderadas e não tão epidérmicas e/ou irreflectidas. Mas talvez também seja bom que as alternativas que se apresentam a sufrágio tenham mais qualidade.
Em todo o caso, como a história recente do país bem demonstrou, optar sistematicamente pela dissolução do Parlamento não constitui uma boa solução.
Ao contrário do que muitos dizem, não é assim tão mau que um Orçamento de Estado não seja aprovado.
E os governos podem ser remodelados numa mesma Legislatura. Ou, como esta semana sucedeu no Reino Unido (e não foi primeira vez que tal aconteceu), é possível mudar de primeiro-ministro numa mesma Legislatura.
Se calhar Luís Montenegro e os deputados e os militantes do PSD deveriam pensar bem nestas questões durante estas próximas férias estivais.
Começar de novo - mas será que não há mesmo remédio para tantos males?
Repare-se no que está a acontecer - e creio que, para usar uma expressão popular, a procissão ainda não saiu do adro - com os exames nacionais. E com todo o sistema educativo em geral. Como foi possível alguém ser tão irresponsável? Este é o resultado da peregrina ideia de que os governos têm de ser dotados de um “ímpeto reformista”.
Os falhanços dos governos presididos por Luís Montenegro são evidentes e, pior do que isso, são muito graves, estando até, com a sua rendição ao programa político do Chega, a violar os direitos humanos fundamentais e a pôr em causa a Democracia.
Nos últimos tempos, esta exposição pública dos casos tornou-se regra até para as situações envolvendo pessoas anónimas, bastando para tanto que os acontecimentos tenham algum grau de espectacularidade, normalmente por más razões.
O que verdadeiramente impediu a aprovação dessa indesmentível contra-reforma cultural, social e política foi a luta árdua e difícil dos trabalhadores e das trabalhadoras e das suas associações sindicais.
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