A rede de cunhas e favores de Oliveira Salazar

A rede de cunhas e favores de Oliveira Salazar
Marco Alves 17 de novembro de 2020

Os pobres pediam-lhe dinheiro e casas, mas as elites (médicos, engenheiros, deputados, juízes, militares, empresários, padres e condes) queriam colocações em bancos, aumentos, cargos e comendas. Durante 36 anos, o ditador acedeu a centenas de cunhas.


Embora as cartas tivessem quase sempre parágrafos iniciais a pedir desculpa pelo incómodo e por estar a roubar tempo, depressa se ia ao assunto. Eis o padre Aníbal da Silva Bastos, de Tondela (que tratava Salazar por tu), a interceder pelo filho de um amigo em 1956: "Se não puderes colocá-lo no Banco Ultramarino, vê se o colocas em qualquer outro banco ou em qualquer emprego onde ele ganhe a vida." Ou em 1958 o conde de Castro (João António Gomes de Castro) a pedir um cargo "na administração do futuro Banco do Fomento". Por falar em condes, eis o conde de Aurora em 1955 a pedir a Salazar para ser nomeado "para a próxima vaga no Supremo Tribunal Administrativo". Outro conde, o de Penha Garcia, pediu para o filho o cargo de diretor adjunto do Instituto Português das Conservas de Peixe. Mais tarde, a mulher (a condessa) pediu para o outro filho o cargo de delegado do Governo na Sociedade Hidroelétrica do Revue (Moçambique). Em 1948, foi a condessa do Restelo a pedir que o neto ("filho único da minha filha mais velha que morreu em 1918 na epidemia pneumónica") possa ocupar uma vaga que existia no Museu de Arte Popular.

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