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Os resultados do “clube do coração” têm mais peso no quotidiano de milhões de portugueses do que as decisões políticas que, na realidade, moldam o seu futuro. Esta obsessão transforma-se em anestesia.
Escrevo estas linhas no limiar do meu regresso de férias, de um destino turístico além fronteiras do rectângulo à beira mar plantado.
Sendo um destino turístico visitado por gente do mundo inteiro, o local onde me encontro é igualmente pródigo na presença de muitos portugueses que procuram as praias e o cosmopolitismo super animado das suas ruas e atrações.
Aliás, nestas paragens, a maioria dos portugueses é facilmente identificada pelo facto de famílias inteiras se passearem envergando a camisola oficial mais recente do seu clube desportivo de eleição.
Ao longo destes quinze dias perdi a conta ao número de famílias inteiras, dos mais velhos aos mais novos que se passeavam nas ruas equipados a rigor com as camisolas do Benfica, do Sporting ou do FC Porto, olhando-se com desconfiança ou júbilo quando se cruzavam com outros “tugas” de clubes rivais ou da mesma filiação clubística.
Durante este período cruzei-me pontualmente com ou outro adepto local do Inter de Miami, do Real Madrid, do Manchester City ou do Barcelona, rapidamente esmagados em jeito de goleada pela pujança numérica dos portugueses, ostentando aos magotes e orgulhosamente as cores dos clubes nacionais.
Para meu espanto, a representação clubística nacional nestas paragens além mar não se limitou aos três grandes do futebol nacional. Registei vários encontros com portugueses envergando camisolas oficiais do Famalicão, do Guimarães e até me cruzei com uma família vestida a rigor com o equipamento do Vizela.
Nas esplanadas dos cafés e dos restaurantes, o tema das conversas destes representantes informais dos clubes portugueses além fronteiras era invariavelmente os resultados dos seus clubes, a performance dos jogadores e as opções dos treinadores.
Este fenómeno é bem demonstrativo e sintomático de que em Portugal o futebol não é apenas um desporto. É religião, identidade e catarse coletiva. O patriotismo está hoje reduzido aos jogos da seleção nacional, substituído pela clubite crónica.
Os resultados do “clube do coração” têm mais peso no quotidiano de milhões de portugueses do que as decisões políticas que, na realidade, moldam o seu futuro. Esta obsessão transforma-se em anestesia: quanto mais os olhos se concentram no relvado, menos atentos ficam ao que acontece nos corredores do poder.
O contraste socioeconómico é gritante. Portugal é um país pequeno e pobre, com uma economia frágil e uma dívida pública elevada. Ainda assim, os orçamentos dos principais clubes de futebol movimentam centenas de milhões de euros, a rivalizar com os orçamentos anuais de várias autarquias ou áreas essenciais do Estado. Os clubes investem somas astronómicas em jogadores e treinadores, enquanto hospitais, escolas e tribunais sentem a carência de recursos.
E não são apenas os clubes que alimentam esta máquina: também as famílias portuguesas têm um papel ativo neste ciclo. Em média, um bilhete para um jogo de futebol local custa entre €15,00 a €30,00 por pessoa. Um agregado familiar de três ou quatro pessoas vai facilmente gastar €45,00 a €120,00 por jogo, especialmente em encontros decisivos ou clássicos.
Além disso, muitos adeptos pagam anualmente entre €100,00 a €160,00 para manterem-se sócios de clubes, o que lhes garante descontos em bilhetes, merchandising e outros benefícios. No caso de clubes maiores, a receita anual destas atividades é colossal. Isto para não falar das centenas de euros gastos com a aquisição dos mais recentes equipamentos oficiais que vestem e exibem orgulhosamente.
Para a maioria das famílias portuguesas, que vive com orçamentos apertados, estes gastos representam um sacrifício real. No entanto, o símbolo do clube no peito justifica, para muitos, despesas que raramente fariam em cultura, educação ou saúde.
Este desequilíbrio cultural ganha contornos ainda mais preocupantes quando consideramos como o futebol domina o espaço mediático e de debate público. Discute-se mais um penálti duvidoso do que o Orçamento do Estado; comentam-se horas sobre árbitros e lances, mas poucos se interessam pelos vereadores das suas Câmaras Municipais ou por medidas que impactam directamente na sua vida.
Os políticos sabem bem como explorar esse desvio de atenção. Quanto mais entretidos estiverem os cidadãos, menos pressão exercerão sobre promessas não cumpridas, derivas orçamentais ou escândalos de corrupção. O futebol transforma-se num véu que encobre falhas estruturais e enfraquece o escrutínio democrático.
Num país com desafios como desigualdade social, estagnação da produtividade e dependência externa, a prioridade nacional não pode ser limitada aos 90 minutos de um jogo. Ainda mais quando um clube pode movimentar milhões, enquanto muitos portugueses lutam para equilibrar contas básicas.
É legítimo vibrar com uma vitória europeia ou com um golo no último minuto. Mas é irresponsável ignorar que, fora das quatro linhas, jogam-se partidas decisivas para o futuro coletivo. A centralidade excessiva do futebol na vida nacional não é apenas um factor de embrutecimento social e cultural: É também uma vulnerabilidade democrática.
Os resultados do “clube do coração” têm mais peso no quotidiano de milhões de portugueses do que as decisões políticas que, na realidade, moldam o seu futuro. Esta obsessão transforma-se em anestesia.
Num tempo em que o espaço para a investigação aprofundada rareia nos media convencionais, o "Repórter SÁBADO" destaca-se como exemplo de jornalismo com impacto real. A sua equipa actua onde há silêncio, investiga onde há resistência e obriga o sistema a olhar para quem, de outra forma, continuaria invisível.
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