Campanha de Moedas usa arguidos do Tutti Frutti, além de assessores e motorista da CML
Gabinete de Carlos Moedas diz que arguidos "fazem parte das estruturas locais do partido" e que motorista da câmara estava "fora do horário de trabalho".
"Sou o motorista do presidente", dizia Alberto Soares na cancela para ter acesso aos bastidores da Estufa Fria, onde Carlos Moedas apresentou a sua recandidatura à Câmara Municipal de Lisboa (CML) no passado dia 16 de julho. Poucos minutos depois, chegou uma das filhas do autarca. Alberto Soares foi até ela buscar um saco e um par de raquetas de ténis e colocou tudo no carro.
O motorista oficial de Carlos Moedas na CML (a cujos quadros pertence e tem exclusividade de funções) permaneceu depois com o carro nas traseiras, circulou no evento, onde se apresentou como "motorista do presidente da câmara" e, já perto do fim, regressou até ao carro na companhia da filha de Moedas para lhe dar um saco, que tirou da bagageira. Os dois estiveram largos minutos à conversa.
Segundo o gabinete de Carlos Moedas, questionado pela SÁBADO, o que se passou naquele dia não foi um motorista da CML numa ação partidária, mas sim uma iniciativa própria do trabalhador. "No dia que refere, Alberto Soares estava fora do seu horário de trabalho e participou por opção própria na referida iniciativa. Utilizou a sua viatura própria para se deslocar para o local. As deslocações do candidato Carlos Moedas foram realizadas pelo motorista afeto à campanha e disponibilizado pelo partido."
Nas arruadas de Carlos Moedas está também sempre Afonso Costa, um dos adjuntos mais próximos do presidente da câmara. E com visíveis e testemunháveis funções de coordenação das tropas.
Afonso Costa mantém-se com vencimento pago pela câmara. Ao contrário, por exemplo, de Inês Catarino e João Aguiar, assessores de comunicação que estão na campanha mas rescindiram as avenças que tinham no gabinete de Moedas (como a SÁBADO contou aqui), Tal como António Valle, chefe de gabinete de Moedas, que abandonou o cargo no verão para assumir simultaneamente um cargo na Lismarketing (empresa da ATL, presidida pelo mesmo Carlos Moedas) e na chefia da campanha de... Carlos Moedas.
O gabinete de Carlos Moedas diz à SÁBADO que "o adjunto Afonso Costa é candidato pelas listas da Freguesia do Parque das Nações. Ao abrigo da Lei Eleitoral tem o direito de usufruir de 10 dias para o efeito".
Na verdade, Afonso Costa tem estado em todas as ações de campanha de Moedas, mesmo antes do início dos referidos 10 dias - desde logo no evento da Estufa Fria, em julho.
Menos frequente tem sido a presença de Amish Laxmidas, assessor de Carlos Moedas, com vencimento pago pela CML (segundo os contratos publicados no Base). Vimo-lo na arruada em Telheiras esta semana, no dia 6, mas esta decorreu a partir das 18h, podendo considerar-se um horário pós-laboral. No entanto, estava também na arruada de dia 3, que começou às 12h. Vimo-lo à frente da comitiva, com discretas funções de coordenação.
O gabinete de Carlos Moedas justifica: "O assessor Amish Laxmidas ao abrigo de um direito constitucional que a todos assiste tem a total liberdade de participar nas iniciativas cívico-políticas que considerar. De qualquer forma, uma das arruadas onde participou foi na hora de almoço e a outra ao início da noite. Não tem qualquer função de coordenação ou outra na campanha eleitoral."
Depois, duas sombras que estão em todas as ações de campanha de Carlos Moedas (pelo menos as que testemunhámos, no Areeiro, em São Domingos de Benfica, no Campo Pequeno, na FIL e em Telheiras): Ângelo Pereira e Luís Newton, dois arguidos no processo Tutti Frutti.
Ângelo Pereira (que saiu do cargo de vereador devido ao processo) está acusado de recebimento indevido de vantagem. Quanto a Luís Newton, o Ministério Público acusa-o de ser um dos pivots deste alegado esquema de corrupção, prevaricação, trafico de influências e favorecimentos nas juntas de Lisboa. Está acusado de quatro crimes de corrupção passiva, um de corrupção passiva agravada e cinco de prevaricação.
Sendo um facto que Carlos Moedas afastou das suas listas todos os envolvidos no processo, é também verdade que convive diariamente com os dois. Luís Newton mantém-se na sombra e retaguarda da campanha, enquanto Ângelo Pereira é mais ativo. Este último é o líder da distrital de Lisboa do PSD - Newton é ainda o líder da concelhia de Lisboa.
Respondeu apenas o gabinete de Carlos Moedas: "[Ângelo Pereira e Luís Newton] são pessoas que fazem parte das estruturas locais do partido".
Só na teoria, de facto, Newton não tem tido influência nesta campanha. Veja-se, por exemplo, as listas da coligação Por Ti, Lisboa à assembleia municipal, com quase todos os nomes indicados pelo PSD em lugares elegíveis com proximidade a Newton. Liliana Dias, Jorge Barata, Mafalda Gambeta e Ana Roberto (3º, 8º, 14º e 21º da lista) são funcionários da junta da Estrela, a que Newton preside. Artur Botão (5º) é pai de uma ex-avençada da mesma junta. Ana Mateus (7ª), Isabel Dias (11ª) e Maria José Cruz (24ª) têm ligações pessoais e partidárias a Newton. Como conta o Expresso, Newton tentou também interferir nas listas das Avenidas Novas.
Com estes lugares na assembleia municipal vêm depois as avenças dos assessores, que são aliás uma das histórias em foco na acusação do Ministério Público, como se viu o que aconteceu a José Eduardo Martins.
Sobre esta presença de Luís Newton sempre na sua comitiva, Carlos Moedas falou com a SÁBADO neste artigo.