Sábado – Pense por si

João Paulo Batalha
João Paulo Batalha
09 de julho de 2026 às 14:50

Os culpados do costume

A estafada reforma da justiça é uma gritaria ignorante entre as várias inércias do sistema.

Para a claque anti-Sócrates, a , por não ter sabido prevenir as violações do segredo de justiça na Operação Marquês, é mais um episódio da impunidade triunfal com que o ex-primeiro-ministro vem entretendo o país. Para a claque contrária (incluindo gente insuspeita de apoiar o “animal feroz”), é uma punição justa a um Ministério Público que usa a violação do segredo de justiça como tática pérfida para promover julgamentos na praça pública. Como tudo o que envolve Sócrates, e quase tudo o que envolve a justiça, a discussão faz-se em torno de caricaturas mal fundamentadas – e portanto dificilmente trará alguma conclusão útil.

Ninguém diria, ouvindo as proclamações celebratórias de Sócrates, que o tribunal não lhe deu razão em praticamente nenhuma das pretensões. Mesmo na violação do segredo de justiça, a sentença admite que não sabe quem o violou, quando, onde ou porquê – tornando impossível ao Estado, se a condenação se confirmar, exigir ao agente ou funcionário pretensamente responsável (se ele existir) que restitua ao erário público o valor da indemnização. Escreve a juíza que, tendo as informações saído numa fase em que vigorava ainda o segredo de justiça interno (em que, teoricamente, só as entidades ligadas à investigação conheciam o processo), “é de intuir que as informações fornecidas aos jornalistas […] tenham partido de alguém que se movia no interior da investigação”.

Deixemos de lado que há informações da Operação Marquês, noticiadas na imprensa, que já vinham do processo Monte Branco. E que a própria detenção de Sócrates à chegada a Lisboa, vindo de Paris, não foi afinal filmada por ninguém – a imagem que passou, de um carro a sair do aeroporto, não correspondia à viatura em que ele foi transportado. O próprio Sócrates, que admitiu que regressava para se colocar ao dispor das autoridades, poderia ter passado à imprensa o dia e hora do seu regresso. E a imprensa podia lá estar para o questionar sobre o caso, sem saber que seria detido. A mediatização do processo, de que tanto se queixa o principal arguido, sempre foi absolutamente central na sua estratégia de defesa; não vale a pena sermos ingénuos. Tudo somado, a tese de uma fuga de informação vinda de dentro do processo não é mesmo a única hipótese. Não significa que não tenha ocorrido; significa que “é de intuir que” é prova demasiado frágil. Veremos o que sai do recurso.

Seja como for, a sentença recolocou a discussão pública numa questão processual lateral, como tantas vezes acontece. Por muito que chorem opinadores bem-educados, a violação do segredo de justiça não é mesmo o problema central do sistema judicial. Vale até a pena lembrar que a própria

existência do segredo é, à luz da lei, excecional. A regra do processo penal é a transparência. A regra legal, bem entendido, porque a velha cultura estabelecida continua a premiar a opacidade e o segredo, para recato de quem investiga e conforto de quem é investigado – mesmo quando esse segredo não é uma opção realista, ou sequer desejável. Alguém acha que um ex-primeiro-ministro pode ser detido sem que ninguém fique a saber? Que suspeitas de crimes graves de alta corrupção sejam investigadas sem a mínima notícia ou o menor escrutínio sobre questões de relevantíssimo interesse público? Que democracia seria esta?

Eu sei que se decretou, sem necessidade de prova, que em Portugal é sempre o Ministério Público que viola o segredo de justiça. Isso simplesmente não é verdade – ou, para ser objetivo, ninguém sabe, a não ser os jornalistas que acedem à informação, e que têm direito ao sigilo das suas fontes (um direito que está cada vez mais sob ataque, quanto mais se eleva o segredo de justiça a problema-mor do sistema judicial). Uma investigação complexa de crime financeiro mobiliza dezenas, ou potencialmente centenas, de magistrados, polícias, funcionários judiciais, peritos, tradutores (quando, como é frequente, há pedidos de cooperação judiciária internacional envolvidos). Quando cai o dito segredo interno, envolve também arguidos e assistentes, e os seus advogados.

O Ministério Público tornou-se o culpado do costume, mas em vários casos (como a Operação Influencer, por exemplo) só houve fugas de informação depois de os arguidos ganharem acesso aos autos. A fuga permite o queixume, que permite atacar o MP e descredibilizar a investigação. Reconheça-se o óbvio: muita gente com acesso ao processo pode promover fugas, por muitas razões táticas ou até pessoais. O dano que isso pode provocar à eficiência da investigação ou à reputação dos envolvidos (incluindo magistrados) é o preço a pagar por vivermos numa democracia, com liberdade de imprensa, em que o exercício dos poderes (incluindo o poder judicial) é publicamente escrutinado. É mesmo assim que deve ser. Posto isto, o choradinho com o segredo de justiça e a ideia de que uma investigação criminal se pode fazer nas nuvens, num vácuo de opacidade que nunca desce à Terra, é não só tonta; é antidemocrática.

Infelizmente, enquanto continuarmos a discutir caricaturas maniqueístas, continuaremos a falhar as reformas. Agora foi (esse famoso reformista) para tentar travar o abuso evidente de manobras dilatórias que o processo penal permite. Amanhã poderá ser a reforma para impor ao Ministério Público prazos imperativos para a investigação – uma forma ardilosa de reescrever as regras de prescrição sem mostrar a mão. Vamos legislando à boleia do último solavanco do último caso mediático, porque não sabemos alargar a discussão.

O debate sobre a justiça em Portugal faz-se demasiado à boleia da experiência concreta de alguns advogados e de alguns magistrados. São perspetivas fundamentais, claro, mas não são completas nem suficientes. Portugal tem péssima estatística de justiça e não sabe extrair dados de um sistema (mal) informatizado e mal parametrizado. Sabemos mal como os processos andam, e onde tropeçam, nas várias jurisdições. Temos poucos dados empíricos que nos permitam diagnosticar – não no caso concreto, mas no funcionamento global – onde estão as ineficácias, onde emperram os processos, onde há excesso de formalismo e pouca discussão da substância de cada caso. Não conseguimos sequer perceber quanto do problema da nossa justiça é de más leis e quanto é de má gestão. Neste vazio de informação completa, organizada, estruturante, todo o debate sobre política pública é inevitavelmente ignorante.

Com maus dados não há boas decisões. Enquanto continuarmos às cegas, vamos discutir o eterno problema da justiça em função dos culpados do costume – seja o Ministério Público ou os arguidos ardilosos – sem nunca acertar numa solução. Sem organizar a casa nunca vamos conseguir limpá-la.

Mais crónicas do autor
09 de julho de 2026 às 14:50

Os culpados do costume

A estafada reforma da justiça é uma gritaria ignorante entre as várias inércias do sistema.

02 de julho de 2026 às 07:30

Quem dera ser albanês

Não é que a Albânia seja menos corrupta do que nós, mas o povo é, afinal, menos complacente.

25 de junho de 2026 às 07:07

Mais do mesmo

O padrão é o mesmo: em Portugal legisla-se mal, sem planear políticas públicas, sem identificar com rigor os problemas, sem fundamentar as propostas de solução, sem medir os impactos do que foi feito.

18 de junho de 2026 às 07:14

Os pategos vão à bola

Por um bilhetinho para o Mundial, os mesmos que fizeram a lei tratam de desfazê-la.a

11 de junho de 2026 às 08:41

Um coiso estratégico

Portugal, cheio de elefantes brancos “estruturantes”, é um país cronicamente desestruturado.

Mostrar mais crónicas