Conheça em primeira mão os destaques da revista que irá sair em banca.
(Enviada semanalmente)
Não é que a Albânia seja menos corrupta do que nós, mas o povo é, afinal, menos complacente.
Na próxima semana começa a ser julgada, no Tribunal
Administrativo e Fiscal de Sintra, uma providência cautelar de que sou coautor,
contra a urbanização, do nosso ponto de vista ilegal e indiscutivelmente
danosa, da Quinta dos Ingleses, em Carcavelos – uma das últimas áreas costeiras
não urbanizadas da Grande Lisboa. A ação tem 66 autores – somos 66 pela Quinta. Podíamos ser muitos mais,
mas o número 66 tem um simbolismo: foi há 66 anos, ainda no tempo da outra
senhora, que o velho conluio de governantes e patos-bravos que atravessa
regimes em Portugal começou a cobiçar a urbanização daquele espaço único, não
apenas em termos naturais, mas culturais. A Quinta é conhecida como “dos
Ingleses” porque foi ali que se estabeleceu a companhia britânica que instalou
os primeiros cabos submarinos que ligaram Portugal e a Europa às Américas.
Desde há 66 anos, em ditadura e em democracia, os poderes
públicos vêm criando uma legalidade à medida dos interesses imobiliários, numa
cultura de poder que se limita à arbitragem de negócios (e, não raramente, à
cobrança de comissões) e reduz o interesse público a uma abstração facilmente
descartável. Há 66 anos que, passo a tímido passo, se têm feito despachos,
licenciado loteamentos e aprovado planos de urbanização, criando “direitos
adquiridos” para tentar forçar um facto consumado. No tribunal, os 66 pela
Quinta estarão a combater não só a cupidez dos empreiteiros, mas a cumplicidade
do município de Cascais, há muito enfeudado ao lóbi do tijolo e que há anos se
desdobra em truques e manobras de legalidade duvidosa para lhes fazer as
vontades.
É pela Quinta dos Ingleses (mas não só por ela) que olho com
alguma inveja para o que andam a fazer, por estes dias, os albaneses. Há um mês
que
a população anda nas ruas, num protesto que começou contra a construção de
um resort de luxo ligado à família Trump numa zona ambientalmente sensível e se
tornou entretanto num movimento de repúdio da classe política, vista como
servil e corrupta face ao poder do dinheiro. É verdade que o toque Trump – esse
talento natural para transformar em lixo tudo aquilo em que tocam – pode ter
sido aqui decisivo para acordar e mobilizar a população contra um conluio
corruptivo que faz leis e suspende regras ambientais à medida dos interesses de
quem paga. Na Albânia já se fala na “Revolução dos Flamingos”, com o Governo e
o principal partido da oposição acossados pelo repúdio das ruas.
Ao lado da raiva albanesa, a nossa complacência com o saque
do território é um monumento à obediência mansa dos portugueses aos poderes
que, numa lógica neo-feudal, põem e dispõem de Portugal. Não são só os 66 anos
que os cidadãos de Cascais levam a contestar, contra a aliança suja de
empreiteiros e poderes públicos, a betonização do último grande espaço não
urbanizado do concelho, fora da área do Parque Natural Sintra-Cascais – uma
causa em que, como comecei por expor, sou parte empenhada.
Por cá, as
praias são domínio público desde el-rei D. Luís, mas a família Mirpuri
litiga a pretensa posse
privada de cinco praias da Arrábida, confiante de que, em Portugal, o
Direito é de quem o comprar. É um esbulho com
precedentes conhecidos e denunciados, que incluem vedações ilegais de
praias e caminhos, mas um esbulho que se mantém impune – e veremos se não acaba
protegido pelos tribunais. O rei D. Luís está a fazer tijolo há muito tempo e
os imperadores do betão já perceberam que, se a pressão for persistente e
continuada, boa parte do povo acaba por baixar os braços.
O fecho de acessos e a falta de sinalização às praias entre
Tróia e Melides continua triunfal, como constatou
uma reportagem do Expresso. Um ano depois de o Governo ter anunciado que
iria garantir a liberdade de acesso, continua a privatização voraz da última
costa selvagem de Portugal, de braço dado com a urbanização desenfreada daquele
território, retalhado em resorts de luxo para estrelas de cinema e VIP globais,
onde ninguém quer locais remediados a estragar o cenário. Há grupos de
cidadãos, como a associação Dunas Livres,
a fazer um trabalho heroico de denúncia e oposição ao saque, mas não há
Revolução dos Flamingos que proteja a Costa Azul e resgate a dignidade dos
portugueses.
Em Boticas, onde a população está mobilizada contra o dano
ambiental das concessões de exploração de lítio, o
Ministério do Ambiente tomou agora o lado contrário. Reagindo a uma
providência cautelar que tinha suspendido a eficácia de uma servidão
administrativa que dá à Savannah Resources o poder de entrar em terrenos
privados, o Governo emitiu uma resolução fundamentada afirmando o interesse
público do projeto – contra a vontade do público –, permitindo o retomar da
prospeção. O Estado e os seus concessionários unidos contra a vontade popular
para sacar os recursos naturais das terras do Barroso, seja qual for o custo,
num processo que, desde o início, está
marcado por omissões de informação e atentados vários aos direitos de
participação pública.
Como a Albânia, Portugal tem níveis balcânicos de corrupção
desenfreada, com poderosos interesses privados a servirem-se do território,
protegidos pelo próprio Estado, contra a vontade e o interesse da população.
Mas, por cá, se vai havendo resistentes, não há gente nas ruas nem revoluções
contra um sistema político que se deixou capturar e enterra a democracia debaixo
de campos de golfe ou minas sujas. Mesmo a discussão acalorada (e estranhamente
controversa) sobre a
magna questão dos chapéus de sol – como se não fosse óbvio que os
concessionários de praia não têm um direito natural de se assenhorar, como
lordes feudais, de áreas fora da sua concessão – mostra bem como por cá o saque
está generalizado e naturalizado. Quem pode serve-se, e a única conversa
admissível é o tamanho das migalhas que se concedem para calar o povo. Sim,
portugueses, quem nos dera sermos a Albânia.
O padrão é o mesmo: em Portugal legisla-se mal, sem planear políticas públicas, sem identificar com rigor os problemas, sem fundamentar as propostas de solução, sem medir os impactos do que foi feito.
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