Proibir não é competir: o dilema tecnológico da Europa
Hoje há mais maturidade tecnológica e maior consciência política. Mas há uma questão essencial que a Europa parece ignorar: libertar-se da dependência não pode significar apenas trocar produtos americanos por soluções “open source”.
Durante décadas, a Europa construiu a sua economia digital sobre tecnologias que não controla. Sistemas operativos, plataformas de produtividade, cloud, inteligência artificial, quase tudo tem origem fora do continente, sobretudo dos Estados Unidos. Agora, começam finalmente a surgir sinais de desconforto.
Por exemplo, o estado alemão de Schleswig-Holstein decidiu abandonar soluções da Microsoft e migrar para alternativas “open source”. Mais do que uma decisão técnica, trata-se de uma escolha política: reduzir a dependência e recuperar controlo sobre dados e infraestruturas.
Mas a Alemanha não está sozinha. Em França, o governo proibiu o uso, na administração pública, de plataformas de videoconferência americanas como Zoom, Google Meet e Microsoft Teams, invocando razões de segurança e soberania digital.
A mensagem é clara: quem controla o software, controla os dados e, com isso, uma parte significativa do poder no século XXI.
O problema é que sair é muito mais difícil do que entrar. A Europa habituou-se a este ecossistema durante décadas. Organizações inteiras funcionam com estas ferramentas. Mudar implica custos, resistência interna e riscos operacionais. Basta recordar o caso de Munique, que tentou abandonar a Microsoft e acabou por recuar.
Hoje há mais maturidade tecnológica e maior consciência política. Mas há uma questão essencial que a Europa parece ignorar: libertar-se da dependência não pode significar apenas trocar produtos americanos por soluções “open source”.
Se quer verdadeira soberania digital, a Europa precisa de mais do que independência tecnológica, precisa de capacidade económica. Precisa de criar produtos próprios, competitivos e exportáveis. Precisa de empresas capazes de disputar o mercado global com gigantes como a Microsoft, a Meta, a Google ou a Amazon.
O “open source” pode ser parte da solução, mas não substitui uma estratégia industrial. Sem empresas fortes e plataformas próprias, a Europa continuará dependente, apenas com uma sensação de maior controlo.
Há aqui uma ironia evidente: a Europa lidera na regulação tecnológica, mas continua atrasada na inovação. Regula o que não produz. Define regras para tecnologias que não domina.
As iniciativas alemã e francesa são importantes. Mas não chegam. A autonomia digital não se constrói com proibições ou substituições, constrói-se com investimento, inovação e ambição.
Se quiser ser relevante no século XXI, a Europa terá de fazer mais do que abandonar tecnologia estrangeira. Terá de criar a sua própria. Caso contrário, continuará dependente, mesmo quando pensa que se está a libertar.
Proibir não é competir: o dilema tecnológico da Europa
O ensino superior não pode ser apenas um negócio global de exportação de diplomas. Se o for, corre o risco de perder a sua missão fundamental: formar cidadãos qualificados, críticos e capazes de contribuir para o desenvolvimento sustentável das sociedades.
Demasiados académicos em Portugal publicam para outros académicos, avaliam-se mutuamente, citam-se em circuito fechado e raramente produzem algo com impacto tangível fora das suas instituições. Não criam empresas, não desenvolvem produtos, não prestam serviços, não assumem riscos.
Portugal, como tantos outros países europeus, corre um risco particular. A rápida adoção de ferramentas de IA em contextos empresariais e educativos pode criar uma ilusão de modernização. Mas se essa adoção não for acompanhada por investimento sério em competências, estaremos apenas a acelerar desigualdades já existentes.
Com níveis de participação tão baixos, não existe qualquer representatividade estatística. Não existe, por conseguinte, validade científica. E sem validade científica, não há avaliação rigorosa. Existem apenas perceções dispersas, enviesadas e muitas vezes irrelevantes.
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