Portugal, como tantos outros países europeus, corre um risco particular. A rápida adoção de ferramentas de IA em contextos empresariais e educativos pode criar uma ilusão de modernização. Mas se essa adoção não for acompanhada por investimento sério em competências, estaremos apenas a acelerar desigualdades já existentes.
A promessa da inteligência artificial tem sido apresentada como inevitavelmente otimista. Fala-se de democratização do conhecimento, de acesso universal à informação, de uma nova era em que todos podem produzir mais, melhor e mais depressa. Mas há um problema incómodo que começa a emergir com clareza: a inteligência artificial não nivela, acentua diferenças.
Um artigo recente da MIT Sloan Management Review mostra precisamente isso. A IA ajuda os melhores a serem ainda melhores e, paradoxalmente, pode prejudicar os restantes. Não se trata de uma falha técnica. Trata-se de uma característica estrutural.
A lógica é simples. Quem já possui competências sólidas, pensamento crítico e experiência consegue utilizar a IA como um amplificador. Sabe o que perguntar, como interpretar as respostas e, sobretudo, quando desconfiar. Para estes utilizadores, a IA é uma extensão da sua capacidade intelectual.
Mas para quem não tem esse capital cognitivo, a realidade é outra. A IA fornece respostas plausíveis, bem estruturadas e aparentemente credíveis, mesmo quando estão erradas. Sem capacidade crítica para avaliar essas respostas, o utilizador torna-se dependente de um sistema que pode induzir em erro. O resultado não é apenas estagnação. Pode ser regressão.
Estamos, assim, perante um fenómeno clássico na história da tecnologia: aquilo que deveria reduzir desigualdades acaba por ampliá-las. Tal como aconteceu com a educação formal, com a internet ou com o acesso à informação digital, a vantagem não está no acesso em si, mas na capacidade de uso.
Nas organizações, este efeito torna-se ainda mais visível. Empresas que adotam inteligência artificial sem investir seriamente na capacitação dos seus colaboradores estão, na prática, a criar dois grupos: os que sabem usar a tecnologia e os que apenas a consomem. Uns tornam-se mais produtivos, mais estratégicos, mais valorizados. Outros tornam-se mais dependentes, mais vulneráveis e, a prazo, mais dispensáveis.
O discurso dominante insiste em apresentar a IA como uma ferramenta neutra. Não é. É uma tecnologia profundamente dependente de quem a utiliza. E isso coloca um desafio enorme às lideranças: não basta implementar soluções de inteligência artificial. É necessário garantir que todos têm condições para as utilizar de forma competente.
Isso implica formação, sim, mas também algo mais exigente: desenvolver pensamento crítico, literacia digital e capacidade de decisão. Sem isso, a IA não será uma aliada da produtividade. Será um mecanismo silencioso de exclusão.
Portugal, como tantos outros países europeus, corre um risco particular. A rápida adoção de ferramentas de IA em contextos empresariais e educativos pode criar uma ilusão de modernização. Mas se essa adoção não for acompanhada por investimento sério em competências, estaremos apenas a acelerar desigualdades já existentes.
No fundo, a questão é desconfortável, mas inevitável. A inteligência artificial não vai substituir todos os trabalhadores. Vai, isso sim, diferenciar de forma mais clara aqueles que sabem pensar daqueles que apenas executam.
E essa talvez seja a maior transformação de todas.
Durante anos, as universidades venderam a ideia de que a formação em informática era quase uma apólice contra o desemprego e muitas famílias acreditaram nisso. Mas quando uma área cresce demasiado depressa, aquilo que antes distinguia passa a ser comum.
O problema é que a ciência contemporânea diz valorizar a novidade, mas muitas vezes castiga quem a pratica. Projetos arriscados têm menos probabilidade de financiamento. Ideias fora da corrente dominante encontram mais resistência nos painéis de avaliação.
Muitos académicos passam anos a publicar, ensinar, orientar estudantes, participar em projetos e construir percursos científicos respeitáveis. Depois candidatam-se a concursos públicos e descobrem que o seu trabalho pode ser descartado não pelo mérito, mas por uma vírgula administrativa. É difícil imaginar maior desprezo pelo esforço académico.
O ensino superior não pode ser apenas um negócio global de exportação de diplomas. Se o for, corre o risco de perder a sua missão fundamental: formar cidadãos qualificados, críticos e capazes de contribuir para o desenvolvimento sustentável das sociedades.
Demasiados académicos em Portugal publicam para outros académicos, avaliam-se mutuamente, citam-se em circuito fechado e raramente produzem algo com impacto tangível fora das suas instituições. Não criam empresas, não desenvolvem produtos, não prestam serviços, não assumem riscos.
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.