Demasiados académicos em Portugal publicam para outros académicos, avaliam-se mutuamente, citam-se em circuito fechado e raramente produzem algo com impacto tangível fora das suas instituições. Não criam empresas, não desenvolvem produtos, não prestam serviços, não assumem riscos.
Há um problema estrutural, silencioso e profundamente enraizado no sistema académico português. Uma parte significativa dos seus protagonistas vive fechada sobre si própria, num circuito autorreferencial que pouco ou nada acrescenta à sociedade. Não se trata de uma crítica à academia em si, que é essencial, mas sim a uma cultura instalada que promove a estagnação, a irrelevância prática e, não raras vezes, a inveja.
Demasiados académicos em Portugal vivem confinados a um mundo estéril. Publicam para outros académicos, avaliam-se mutuamente, citam-se em circuito fechado e raramente produzem algo com impacto tangível fora das suas instituições. Não criam empresas, não desenvolvem produtos, não prestam serviços, não assumem riscos. Talvez mais grave, parecem desconfortáveis, quando não hostis, perante quem o faz.
Este desconforto transforma-se frequentemente em ressentimento. A existência de académicos que conciliam produção científica de topo com atividade empresarial, consultoria internacional ou envolvimento em políticas públicas expõe, por contraste, a limitação de muitos dos que nunca saíram da sua bolha institucional. Esse contraste incomoda.
Falo por experiência própria. Numa das mais prestigiadas universidades públicas portuguesas, fui alvo de um processo disciplinar por desenvolver atividades perfeitamente enquadradas na lei. Ser Chairman de uma empresa sem remuneração, colaborar como perito com entidades como a Comissão Europeia e agências governamentais de vários países europeus, ou participar em conferências internacionais durante períodos de férias, estando tudo isto claramente previsto no Estatuto da Carreira Docente Universitária (ECDU) como compatível com o regime de exclusividade.
O processo foi naturalmente arquivado. Não poderia ter outro desfecho. Ainda assim, o dano simbólico foi evidente. Alguém, incomodado com uma atividade que extravasa o universo académico tradicional, decidiu agir. Não por ilegalidade, mas por desconforto. Por inveja.
Este tipo de comportamento não é isolado. É sintoma de um sistema que, em muitos casos, penaliza a iniciativa e desconfia da ligação ao mundo real. Um sistema que ainda insiste em regras desajustadas aos tempos modernos. Como justificar, por exemplo, que investigadores não possam beneficiar diretamente, ainda que de forma regulada e transparente, dos resultados financeiros de projetos que conceberam, submeteram e executaram com sucesso. Em muitos países, isso não só é permitido como incentivado, precisamente para promover a transferência de conhecimento e a inovação.
Portugal continua a arrastar-se na cauda da Europa em vários indicadores de desenvolvimento, e não será por acaso. Quando se desincentiva a criação de valor fora dos muros da universidade, quando se olha com suspeita para quem empreende, quando se confunde dedicação académica com isolamento, o resultado só pode ser mediocridade.
O contraste com outras realidades é evidente. Na China, por exemplo, instituições como o Harbin Institute of Technology (HIT), no qual sou Professor Visitante, têm vindo a adotar modelos inovadores de reconhecimento académico. Em 2025, o HIT atribuiu, pela primeira vez no mundo, um grau de doutoramento sem a tradicional tese escrita, com base apenas na criação de um produto funcional, disruptivo e com impacto tecnológico real. É um sinal claro de que o valor pode e deve ser medido também pela capacidade de transformar conhecimento em soluções concretas.
Não se trata de abolir a investigação fundamental, nem de substituir artigos científicos por startups. Trata-se de abrir a academia ao mundo, de reconhecer diferentes formas de excelência e de deixar de penalizar quem ousa fazer mais.
Portugal precisa de académicos com mundo. Com visão. Com capacidade de criar, de arriscar, de intervir. Precisa de universidades que sejam motores de inovação e não apenas repositórios de produção bibliográfica. Precisa, acima de tudo, de abandonar uma cultura de suspeita e de inveja que só serve para travar quem quer fazer diferente e melhor.
Enquanto continuarmos reféns de uma academia fechada, autorreferencial e avessa ao risco, continuaremos também condenados à irrelevância. Esse é o verdadeiro problema.
Sem construir laboratórios, sem contratar mais investigadores, sem reforçar o financiamento e sem esperar pelos resultados de qualquer reforma, o país ganhou, de uma assentada, quinze universidades.
Quem anuncia o fim de uma profissão está, em parte, a provocá-lo. Isto não significa calar os riscos da IA. Significa tratá-los com o rigor que merecem, distinguindo entre tarefas que serão automatizadas e profissões que serão transformadas. A diferença é abissal.
O que une Luís Neves e Fernando Alexandre é uma cultura de desresponsabilização demasiado habitual. Um reúne documentos enquanto permanece no cargo perante uma investigação que envolve suspeitas de abuso de poder. O outro cria uma terceira oportunidade de exames para
tentar reparar um sistema que nunca deveria ter falhado desta forma.
Será que substituir professores por guias e a didática tradicional por algoritmos é a solução adequada ou apenas a versão rica e sofisticada de um velho problema estrutural?
A afirmação é dura, mas os factos sustentam-na. O AMALIA alucina. Inventa factos, referências, acontecimentos e explicações com a mesma fluência com que acerta. Reproduz enviesamentos, pode gerar conteúdos tóxicos ou discriminatórios e é vulnerável a manipulação através de instruções maliciosas.
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