Sábado – Pense por si

Álvaro Rocha
Álvaro Rocha Professor Catedrático da Universidade Lusófona
26 de março de 2026 às 11:54

Enquanto a Europa regula, a China conquista o futuro

O modelo económico que sustentou o crescimento chinês (baseado em mão de obra abundante, exportações e investimento em infraestruturas) está esgotado.

A China decidiu que o seu futuro não será apenas industrial — será tecnológico. E essa escolha pode redefinir o equilíbrio global de poder nas próximas décadas.

O novo plano estratégico para a economia tecnológica até 2030, enquadrado no próximo Plano Quinquenal, é mais do que planeamento estatal: é uma afirmação clara de ambição. Pequim quer liderar não apenas na produção, mas na definição das tecnologias que moldarão o século XXI.

O modelo económico que sustentou o crescimento chinês (baseado em mão de obra abundante, exportações e investimento em infraestruturas) está esgotado. O envelhecimento da população, o abrandamento económico e as tensões com os Estados Unidos obrigaram a uma mudança de paradigma. A resposta é inequívoca: menos quantidade, mais qualidade; menos expansão, mais domínio tecnológico.

A aposta recai em áreas como inteligência artificial, computação quântica, biotecnologia e mobilidade avançada. Não são apenas setores de inovação, mas instrumentos de poder. Definir padrões, controlar cadeias de valor e garantir autonomia estratégica tornou-se central. Num mundo fragmentado, quem domina a tecnologia molda dependências.

A China compreendeu algo que a Europa ainda hesita em assumir: a soberania tecnológica é a nova soberania económica. Dependências em semicondutores, software ou infraestruturas digitais são hoje vulnerabilidades geopolíticas. Daí a aposta na autossuficiência, no reforço da investigação e na coordenação entre Estado, academia e empresas.

Ao contrário do modelo ocidental, mais dependente do mercado, a China segue um capitalismo dirigido, onde o Estado define prioridades e mobiliza recursos. É um modelo discutível, mas eficaz na execução. A iniciativa “AI Plus”, que integra a inteligência artificial em toda a economia, ilustra bem esta estratégia, funcionando como resposta aos desafios de produtividade e demografia.

Ainda assim, o caminho não é isento de riscos. A transição pode acentuar desigualdades, eliminar empregos tradicionais e gerar ineficiências ou excesso de capacidade. A própria China já enfrentou alguns destes problemas.

No plano externo, a dimensão geopolítica é evidente. A rivalidade com os Estados Unidos deslocou-se para a tecnologia. Semicondutores, dados e infraestruturas digitais tornaram-se campos centrais de disputa pelo controlo do futuro.

E a Europa? Surge novamente numa posição desconfortável. Entre o planeamento estratégico chinês e o dinamismo americano, a Europa destaca-se sobretudo como reguladora. Instrumentos como o AI Act são relevantes, mas insuficientes. Regular sem capacidade tecnológica própria pode significar depender das inovações de outros.

O risco não é apenas económico, mas estratégico. Num mundo organizado em blocos tecnológicos, a falta de autonomia traduz-se em dependência estrutural.

O plano chinês para 2030 deve, por isso, ser lido como um sinal global. A próxima década será definida pela capacidade de transformar conhecimento em poder — e poder em influência. A tecnologia deixou de ser um setor; tornou-se o eixo das relações internacionais.

A questão já não é apenas se a China conseguirá cumprir o seu plano, mas se a Europa conseguirá acompanhar sem perder relevância. Porque, no final, a verdadeira disputa não é sobre quem produz mais, mas sobre quem define as regras do jogo.

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