Sábado – Pense por si

Álvaro Rocha
Álvaro Rocha Professor Catedrático da Universidade Lusófona
09 de abril de 2026 às 12:56

Portugal contra a ciência: o caso dos concursos de professores

Se queremos um sistema académico mais justo, transparente e competitivo, é urgente recentrar os concursos de professores do ensino superior em critérios objetivos, comparáveis e internacionalmente reconhecidos.

Num mundo académico cada vez mais competitivo, globalizado e escrutinado, os indicadores de desempenho científico assumem um papel central na avaliação de investigadores, professores e instituições. Métricas como o índice H, nas suas diferentes variantes calculadas por bases de dados internacionais como Scopus, Web of Science e Google Scholar, são hoje referências incontornáveis. São estes indicadores que sustentam rankings internacionais de cientistas, que influenciam a reputação das universidades e que orientam políticas científicas em praticamente todo o mundo desenvolvido.

E, no entanto, em Portugal, assiste-se a um paradoxo inquietante: estes mesmos indicadores, amplamente reconhecidos pela comunidade científica internacional, são frequentemente ignorados nos concursos para professores do ensino superior.

Em teoria, os concursos deveriam premiar o mérito científico comprovado, a consistência da produção académica e o impacto internacional do trabalho desenvolvido. Na prática, porém, surgem situações difíceis de compreender (e ainda mais difíceis de justificar) em que candidatos com desempenho científico claramente inferior acabam por ser selecionados em detrimento de outros com currículos muito mais robustos. Não raramente, a diferença é gritante: há casos em que o candidato vencedor apresenta uma valia científica cinco a dez vezes inferior à do candidato colocado em primeiro lugar na avaliação objetiva de indicadores internacionais.

Como se explica esta distorção?

Parte da resposta reside nos próprios editais dos concursos. Em vez de valorizarem indicadores consolidados e comparáveis internacionalmente, muitos concursos exigem que os candidatos selecionem um número reduzido de artigos (cinco, dez) para avaliação qualitativa pelo júri. À primeira vista, esta abordagem pode parecer razoável, até desejável, por privilegiar a análise aprofundada da qualidade. Na prática, abre a porta à subjetividade extrema.

É aqui que o sistema se fragiliza, e, em muitos casos, se degrada.

Quando se substituem métricas robustas, baseadas em centenas de publicações avaliadas por pares e indexadas em bases de dados internacionais, por uma análise limitada a meia dúzia de artigos escolhidos pelo próprio candidato, cria-se um espaço fértil para a arbitrariedade. E com ela surgem fenómenos bem conhecidos: amiguismo, compadrio, cunha, redes de influência e, em situações mais graves, práticas que roçam ou ultrapassam os limites da ética, como, por exemplo, corrupção e fraude.

Mais preocupante ainda é o desequilíbrio de poder dentro dos júris. Bastam dois ou três membros com agendas próprias (ou com ligações diretas ou indiretas a determinados candidatos) para influenciar decisivamente o resultado final. Assim, opiniões individuais, muitas vezes pouco transparentes e dificilmente escrutináveis, acabam por sobrepor-se a sistemas internacionais de avaliação científica construídos ao longo de décadas, com base em critérios rigorosos e amplamente reconhecidos.

O resultado é um sistema que penaliza o mérito e recompensa a proximidade e a mediocridade. Que desvaloriza o esforço continuado e o impacto real da investigação científica, em favor de avaliações pontuais e subjetivas. Que envia um sinal profundamente negativo às novas gerações de investigadores: não basta produzir ciência de qualidade reconhecida internacionalmente, é preciso navegar redes informais de poder.

Este cenário tem consequências sérias. Fragiliza a credibilidade das instituições de ensino superior, compromete a sua competitividade internacional e afasta talento. Num momento em que Portugal procura afirmar-se como um país de conhecimento, inovação e excelência científica, estas práticas são não apenas anacrónicas, mas profundamente prejudiciais.

Não se trata de defender uma avaliação cega baseada exclusivamente em métricas. Toda a avaliação científica deve combinar dimensão quantitativa e qualitativa. Mas ignorar indicadores robustos, amplamente validados e utilizados em todo o mundo, em favor de processos altamente subjetivos, é um erro estratégico, e, mais do que isso, uma injustiça.

Se queremos um sistema académico mais justo, transparente e competitivo, é urgente recentrar os concursos de professores do ensino superior em critérios objetivos, comparáveis e internacionalmente reconhecidos. Caso contrário, continuaremos a perpetuar um modelo onde o mérito é secundário e onde a ciência, essa, perde sempre.

Mais crónicas do autor
08 de outubro de 2026 às 10:10

A falsidade dos concursos de dirigentes da Administração Pública

O Estatuto do Pessoal Dirigente deixa aos júris ampla liberdade para fixar métodos e ponderações, e com essa liberdade constrói-se um concurso cujo desfecho parece conhecido antes de abrir. Chama-se concurso, mas funciona como uma nomeação com outro nome. É essa a falsidade.

01 de outubro de 2026 às 09:29

A vigarice das entrevistas nos concursos de dirigentes da Administração Pública

Anos de formação académica, experiência comprovada e competências técnicas podem ser anulados numa conversa de meia hora, pontuada por quem bem entende.

24 de setembro de 2026 às 08:53

Portugal na segunda divisão da IA

Portugal vai crescendo ao ritmo da média. E numa corrida em que os outros aceleram, andar à média é ficar para trás.

17 de setembro de 2026 às 09:34

O médico, o robô e a senhora presidente da UE

Pergunte-se a uma mulher à espera do resultado de um rastreio se prefere a resposta amanhã, dada por um médico apoiado por uma máquina, ou daqui a um mês, dada por um médico sozinho. Não hesitará.

10 de setembro de 2026 às 09:09

A escola portuguesa está a ficar para trás

É difícil recuperar aprendizagens quando faltam docentes e tantos jovens deixam de encontrar sentido no que aprendem.

Mostrar mais crónicas