O ensino superior não pode ser apenas um negócio global de exportação de diplomas. Se o for, corre o risco de perder a sua missão fundamental: formar cidadãos qualificados, críticos e capazes de contribuir para o desenvolvimento sustentável das sociedades.
O sucesso pode ser uma ilusão bem vendida. No Reino Unido, os cursos de gestão e negócios estão em plena expansão, mas o fenómeno está longe de ser exclusivamente britânico. Em Portugal, na Europa continental e nos Estados Unidos, a tendência repete-se com nuances locais, mas com uma lógica comum: a crescente transformação do ensino superior num mercado altamente competitivo, onde os cursos de gestão assumem um papel central.
As universidades descobriram nestes programas uma fórmula quase perfeita. São relativamente baratos de oferecer, facilmente escaláveis e altamente apelativos para estudantes internacionais. Nos Estados Unidos, os MBA tornaram-se há décadas um símbolo de mobilidade social e ascensão profissional. Na Europa, multiplicam-se licenciaturas e mestrados em gestão, muitas vezes apresentados como escolhas seguras num mercado de trabalho incerto. Em Portugal, o crescimento desta oferta é igualmente visível, com instituições públicas e privadas a reforçarem a sua aposta na área.
O problema começa quando a promessa não acompanha a realidade. Em diferentes geografias, os dados revelam uma verdade incómoda: nem todos os diplomados em gestão obtêm os retornos esperados. Nos Estados Unidos, o valor de alguns MBA tem vindo a ser questionado face ao seu custo elevado. No Reino Unido, os salários médios de muitos licenciados em negócios não superam os de outras áreas. Em Portugal, a saturação do mercado em determinadas áreas da gestão começa a tornar-se evidente, sobretudo para quem não vem de instituições de topo.
Há, aliás, uma constante transversal: a desigualdade. Um diploma em gestão não vale o mesmo consoante a instituição que o emite. Nos Estados Unidos, escolas de elite continuam a garantir acesso privilegiado a redes e oportunidades. No Reino Unido, universidades mais prestigiadas funcionam como verdadeiros selos de qualidade no mercado de trabalho. Em Portugal, a reputação institucional também pesa cada vez mais. O resultado é um sistema que, em vez de nivelar oportunidades, tende a reforçar clivagens.
Entretanto, as universidades prosperam. Perante restrições orçamentais e modelos de financiamento cada vez mais exigentes, os cursos de gestão tornaram-se fontes essenciais de receita. A atração de estudantes internacionais, particularmente na Europa e no Reino Unido, reforça esta dependência. O ensino superior passa, assim, a operar numa lógica onde a sustentabilidade financeira se aproxima perigosamente da lógica empresarial.
Este desvio levanta questões profundas. O ensino superior deve responder à procura ou antecipar necessidades? Deve formar em massa ou formar melhor? A proliferação de cursos de gestão sugere que, muitas vezes, a resposta tem sido guiada mais por incentivos económicos do que por uma estratégia educativa de longo prazo.
Nada disto invalida a importância da formação em gestão. Num mundo cada vez mais complexo, a capacidade de gerir organizações, recursos e pessoas é essencial. Mas quantidade não é sinónimo de qualidade, e popularidade não é garantia de relevância. Quando milhares de estudantes seguem o mesmo caminho acreditando numa promessa que nem sempre se concretiza, o problema deixa de ser individual e passa a ser sistémico.
Portugal não está imune. A expansão da oferta, aliada a expectativas elevadas, exige uma reflexão séria por parte das instituições, dos decisores políticos e dos próprios estudantes. É fundamental garantir transparência sobre resultados, adequação da formação às necessidades reais e mecanismos de regulação que evitem a banalização do diploma.
O ensino superior não pode ser apenas um negócio global de exportação de diplomas. Se o for, corre o risco de perder a sua missão fundamental: formar cidadãos qualificados, críticos e capazes de contribuir para o desenvolvimento sustentável das sociedades.
Num mundo onde os diplomas em gestão se multiplicam, talvez a verdadeira questão não seja quantos existem, mas quantos fazem realmente a diferença.
O ensino superior não pode ser apenas um negócio global de exportação de diplomas. Se o for, corre o risco de perder a sua missão fundamental: formar cidadãos qualificados, críticos e capazes de contribuir para o desenvolvimento sustentável das sociedades.
Demasiados académicos em Portugal publicam para outros académicos, avaliam-se mutuamente, citam-se em circuito fechado e raramente produzem algo com impacto tangível fora das suas instituições. Não criam empresas, não desenvolvem produtos, não prestam serviços, não assumem riscos.
Portugal, como tantos outros países europeus, corre um risco particular. A rápida adoção de ferramentas de IA em contextos empresariais e educativos pode criar uma ilusão de modernização. Mas se essa adoção não for acompanhada por investimento sério em competências, estaremos apenas a acelerar desigualdades já existentes.
Com níveis de participação tão baixos, não existe qualquer representatividade estatística. Não existe, por conseguinte, validade científica. E sem validade científica, não há avaliação rigorosa. Existem apenas perceções dispersas, enviesadas e muitas vezes irrelevantes.
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