Quando vozes de diferentes quadrantes (académicos, antigos governantes, cidadãos comuns) convergem no diagnóstico, talvez seja tempo de deixar de fingir surpresa.
Escrevi recentemente, neste espaço de opinião, um artigo intitulado “A
bandalheira dos concursos de docentes no Ensino Superior”, onde descrevi,
com exemplos concretos, a podridão que corrói os concursos no ensino superior
público. Não podia estar mais certo.
Esta quinta-feira, Pedro Passos Coelho, ex-Primeiro-Ministro, veio também
denunciar a degradação que graça nos concursos para altos cargos da
Administração Pública. A crítica é clara: há concursos viciados, feitos à
medida, conduzidos para produzir um resultado previamente decidido.
Quando vozes de diferentes quadrantes (académicos, antigos governantes,
cidadãos comuns) convergem no diagnóstico, talvez seja tempo de deixar de
fingir surpresa.
A imagem que passa para a opinião pública é devastadora: a podridão nos
concursos da Administração Pública não é um caso isolado. É um fenómeno
estrutural. Um cancro transversal. Dos municípios aos ministérios, das
universidades às empresas públicas, a perceção é a mesma — concursos
esmagadoramente viciados, favorecimentos descarados, compadrios institucionais
e, em alguns casos, suspeitas sérias de corrupção.
O problema não é apenas legal. É ético. É cultural.
Quando um concurso é aberto já com destinatário definido, o ritual serve
apenas para legitimar o ilegítimo. Simula-se transparência, cumpre-se a
formalidade, publica-se em Diário da República, nomeia-se um júri, e tudo
decorre dentro da “normalidade”. Mas essa normalidade é profundamente anormal.
Os membros dos júris são, muitas vezes, os principais responsáveis por este
estado de coisas. Não todos, evidentemente. Mas demasiados. Vendem a sua
independência e a sua honestidade intelectual aos chefes, aos partidos, às
redes de influência, às entidades confessionárias, aos interesses instalados.
Avaliam com critérios subjetivos, distorcem grelhas de classificação, manipulam
ponderações, inventam justificações técnicas para sustentar decisões políticas.
O resultado é previsível: promove-se a mediocridade em detrimento da
meritocracia.
E quando a mediocridade ascende, reproduz-se. Quem chega ao topo por
favorecimento tende a favorecer. Quem deve o lugar a um padrinho raramente
rompe com o sistema que o colocou lá. Cria-se uma cadeia de dependências que
atravessa gerações administrativas.
Depois admiramo-nos com a falta de competitividade do país. Com a
incapacidade de executar políticas públicas. Com a lentidão dos serviços. Com a
ausência de visão estratégica.
Mas como poderemos exigir excelência a instituições cujo processo de
seleção é estruturalmente enviesado?
Há quem diga que “sempre foi assim”. Esse conformismo é parte do problema.
A naturalização do vício torna-o invisível. E quando o vício se torna
invisível, deixa de ser combatido.
Não basta alterar regulamentos ou introduzir plataformas digitais. O
problema não é tecnológico, é moral e institucional. Exige responsabilização
efetiva dos membros dos júris. Exige auditorias independentes. Exige
transparência real nos critérios e nas classificações. Exige que os tribunais
administrativos sejam céleres e eficazes. Exige proteção efetiva para
denunciantes.
Sobretudo, exige coragem.
Coragem para romper com a lógica do “ajuste direto humano”. Coragem para
dizer não ao amigo, ao colega de partido, ao protegido. Coragem para assumir
que o mérito deve prevalecer sobre a conveniência.
Sem isso, continuaremos presos a um ciclo perverso: os melhores afastam-se
ou emigram; os medianos acomodam-se; os oportunistas prosperam.
E assim, como país, não sairemos de cepa torta.
Enquanto os concursos públicos forem instrumentos de legitimação de
decisões prévias, em vez de mecanismos de seleção justa e meritocrática,
continuaremos a minar a confiança dos cidadãos no Estado. E um Estado em que os
cidadãos não confiam é um Estado fragilizado.
A questão já não é se há podridão. A questão é se estamos dispostos a
enfrentá-la.
A podridão dos concursos de recrutamento na Administração Pública
Quando vozes de diferentes quadrantes (académicos, antigos governantes, cidadãos comuns) convergem no diagnóstico, talvez seja tempo de deixar de fingir surpresa.
Num contexto em que Washington não hesita em utilizar tarifas e instrumentos económicos para defender os seus interesses, Bruxelas não pode ignorar a assimetria existente no domínio digital.
A Inteligência Artificial não é um capricho tecnológico nem uma moda passageira. É uma revolução estrutural comparável à chegada da internet, dos motores de busca, do e-mail, do software estatístico, das bibliotecas digitais e dos smartphones.
Em nome de uma suposta “autonomia” das instituições de ensino superior, o Estado criou um regime que, na prática, promove a selva, a mediocridade, o compadrio e, em casos mais graves, a corrupção.
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