O presidente dos Estados Unidos quer redesenhar os distritos eleitorais para o Congresso e acabar com a utilização de votos eletrónicos ou por correspondência.
Em novembro deste ano os cidadão
norte-americanos são chamados às urnas para as midterms – ou, em português, as
eleições intercalares – e o atual presidente da maior potência mundial está a
tentar alterar algumas das regras do jogo para que os republicanos saiam
beneficiados na eleição que pode ditar as regras para a segunda metade do seu
mandato.
Donald Trump, presidente dos EUAAP
O sistema eleitoral norte-americano
é bastante complexo e pode ser difícil de entender por isso vale a pena
recordarmos que existem dois partidos no Congresso – os republicanos, do
presidente Donald Trump, e os democratas – e que este Congresso é composto pelo
Senado e pela Câmara dos Representantes, órgãos responsáveis pela elaboração e
aprovação das leis. A cada dois anos estas duas câmaras vão a votos e os
poderes podem alterar-se, neste momento os republicanos lideram o Senado e a
Câmara dos Representantes.
Voltando a Trump, o presidente
dos Estados Unidos está a utilizar todas as ferramentas à sua disposição para
tentar influenciar as eleições deste ano, no entanto alguns meios de
comunicação norte-americanos consideram que algumas das iniciativas estão “além
da persuasão política típica, desafiando normas democráticas consolidadas”.
Desde que voltou para a Casa
Branca, em janeiro, a administração Trump já enfraqueceu o papel da agência
nacional de cibersegurança na proteção das eleições, colocou pessoas que negam
a legitimidade das eleições de 2020 no Departamento de Justiça, de Segurança
Interna e no FBI, deu entrada com ações judiciais contra políticas estaduais e
locais às quais se opõe e pediu que os censos passem a excluir pessoas que não
têm cidadania norte-americana. Em comunicado a porta-voz da Casa Branca,
Abigail Jackson, afirmou que o governo está focado em garantir que apenas
cidadãos votem e criticou estados governados pelos democratas pela forma como
mantêm as listas de votantes: “A única motivação do presidente Trump é fazer o
que é melhor para o povo americano e garantir que voto conta”.
Num discurso dirigido aos
republicanos da Câmara, no início deste mês, Trump classificou as eleições deste
ano como existenciais, uma vez que acredita que se os democratas conseguirem a
maioria o vão destituir, e insinuou ainda a possibilidade de cancelar as
eleições, apesar de ter garantido que não o iria fazer uma vez que seria
acusado de ser um ditador se o fizesse. A realidade é que Trump não pode
cancelar eleições e não tem autoridade para implementar alguns dos planos que
tem anunciado, até porque a supervisão de eleições é da responsabilidade das
autoridades locais e estaduais, e não do governo federal, ainda assim Trump já
ignorou essas restrições e afirmou que vai continuar a fazê-lo – o que
significa que muitas destas questões terão de ser decididas nos tribunais.
Entre as iniciativas que tem tentado
aprovar encontram-se as exigências para que os legisladores estaduais
republicanos redesenhem os distritos eleitorais para o Congresso antes de o
prazo estabelecido na Constituição, a perseguição judicial de oponentes
políticos, a pressão para que sejam endurecidas as regras de registo de eleitores
e as tentativas de acabar com a utilização de votos eletrónicos ou por
correspondência.
Redesenho do mapa eleitoral
Trump pressionou os líderes
republicanos de vários estados a redesenharem os distritos eleitorais, de forma
a beneficiar o partido, e a realidade é que no Ohio, Missouri, Carolina do Norte
e Texas essas alterações já chegaram mesmo a acontecer tornando nove distritos
mais favoráveis aos republicanos. Se forem bem-sucedidos os republicanos podem
conseguir proteger a sua pequena maioria na Câmara dos Representantes, a diferença
atual é apenas de cinco cadeiras.
A reorganização dos distritos não
é algo novo, no entanto a Constituição pede que seja feita apenas de dez em dez
anos, após a conclusão do censo. O Supremo Tribunal já confirmou o novo mapa
eleitoral do Texas, mas grupos de defesa do direito ao voto estão a avançar com
ações judiciais contra a decisão pelo que a decisão ainda pode ser alterada.
Os democratas do Missouri também
estão a tentar aprovar um referendo para bloquear as alterações enquanto os
legisladores estaduais republicanos no Indiana, Knasas e New Hampshire
rejeitaram o pedido de Trump.
Em direção contrária, os eleitores
da Califórnia aprovaram, em novembro, um plano para dar aos democratas possibilidades
de ganharem até mais cinco lugares.
Fim do voto por correio
Há vários anos que Trump critica
o voto por correio, método que tem levado os seus apoiantes até a questionaram
os resultados eleitorais apesar de vários estudos académicos e decisões
judiciais terem garantido que a fraude eleitoral generalizada é rara. Em agosto
o líder norte-americana prometeu “liderar um movimento” para acabar com o voto por
correio e sugeriu até que pode emitir uma ordem executiva para que isso
aconteça.
Uma decisão como esta teria um
grande impacto uma vez que todos os estados teriam de alterar drasticamente a
forma como as eleições são conduzidas. Mais uma vez vale a pena referir que a
Constituição atribui aos estados a responsabilidade pelas eleições e não dá
poder ao presidente para ditar as regras da votação.
Esta é uma medida que nem entre
os republicanos é consensual, tendo em conta que é uma prática muito popular
entre os seus eleitores mais velhos, incluindo em estados decisivos como no
Arizona.
Em março, Donald Trump emitiu uma
ordem executiva para estabelecer novos padrões de equipamentos de votação, no
entanto não existe nenhuma máquina disponível no mercado que compra os requisitos
impostos pelo republicano e esta medida ainda não foi votada pela Comissão de
Assistência Eleitoral. Este tópico é especialmente sensível porque a votação
eletrónica é prática em todos os estados e limitar a sua utilização significaria
que seria necessário recrutar centenas de milhares de pessoas extra para o dia
das eleições.
Tal como no caso dos votos por
correio, Trump tem alegado que as urnas eletrónicas são fraudulentas e em
agosto recorreu às redes sociais para as chamar de um “desastre completo”.
Deixar imigrantes sem documentos
de fora
Em agosto o presidente
norte-americano referiu que está a planear realizar os censos, antes do prazo anteriormente
previsto, para excluir pessoas presentes no país ilegalmente. Desde 2020,
eleição que perdeu mas que tem considerado como uma fraude, que Trump tem afirmado
que um grande número de imigrantes indocumentados votou em Biden, ainda que o
voto de não cidadãos seja extremamente raro.
Trump escreveu na Truth Social
que tinha “instruído nosso Departamento de Comércio a começar imediatamente a
trabalhar em um novo CENSO altamente preciso, baseado em fatos e números
atuais”.
O censo é importante porque é utilizado
para determinar quantos votos eleitorais cada estado recebe para as eleições
presidenciais, quantas cadeiras na Câmara dos Representantes e como são
definidos os distritos eleitorais. Alterar a contagem do censo poderia diminuir
a representação de alguns estados democratas. Mas alguns estados republicanos,
incluindo a Flórida, também poderiam ser prejudicados.
É pouco provável que este desejo
de Trump seja realizado antes das eleições intercalares de 2026, porque uma
contagem nacional leva meses a ser concluída e muitos estados realizam as
primárias na primavera. No entanto o republicano pode continuar a pressionar
para que o censo seja realizado antes da eleição presidencial de 2028.
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