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Aparência física, poder e voto: um desconforto (in)evitável?
O aspeto físico e determinadas características corporais continuam a desempenhar um papel relevante numa decisão eleitoral.
Há cerca de um ano que pensava escrever este texto. Não num
registo panfletário, nem num exercício de opinião política imediata, mas antes
numa abordagem, o mais próxima possível do campo académico, sustentada em
literatura científica, estudos experimentais e dados empíricos. Ainda assim,
confesso: este é um tema difícil de abordar com serenidade, independência e
racionalidade no espaço público contemporâneo.
Falar da relação entre aparência física, com características marcantes, em
termos de peso e a estatura, e o acesso a posições de poder, seja por via
eleitoral ou por nomeação, é entrar num terreno minado. O risco de ser
imediatamente acusado de sexismo, fat shaming ou lookism surge
mais depressa do que a fava no bolo-rei. Mesmo quando a análise não é
normativa, mas descritiva; mesmo quando não há juízo moral, apenas leitura
estatística.
Contudo,
ignorar o tema não o faz desaparecer.
Diversos
estudos desenvolvidos, entre outros, no contexto académico britânico e
norte-americano, incluindo trabalhos associados à Universidade de Manchester,
demonstram que a decisão eleitoral não se resume a programas, slogans ou
debates televisivos. Há um conjunto vasto de motivações heterogéneas, muitas
delas inconscientes, que influenciam o eleitor no momento do voto. Entre essas
motivações, o aspeto físico e determinadas características corporais continuam
a desempenhar um papel relevante.
É
relativamente pacífico falar do assunto quando apresentado na sua vertente
positiva. Poucos terão dificuldade em admitir que figuras como John F. Kennedy,
José Sócrates ou Tony Blair beneficiaram, em maior ou menor grau, do seu
carisma, presença mediática e atratividade física. O problema começa quando
essas mesmas características físicas funcionam como um ónus.
Aí instala-se
um pudor quase absoluto, tanto na análise político-eleitoral como no debate
científico.
Os dados,
porém, são persistentes. Estudos sobre lideranças empresariais mostram que CEOs
e titulares de cargos de topo, políticos ou empresariais, apresentam, em média, uma estatura
significativamente superior à média da população. A altura associa-se, de forma
recorrente, a perceções de competência, autoridade e liderança. O fenómeno não
é culturalmente neutro nem recente, e repete-se em contextos tão diversos
quanto o setor privado, a política ou as instituições militares.
Quando
introduzimos a variável peso, o cenário torna-se ainda mais revelador. E
desconfortável. A evidência empírica indica que candidatos com excesso de peso
tendem a ser penalizados eleitoralmente, sendo que essa penalização é
assimétrica em função do género.
Nos homens, o excesso de peso raramente constitui um
obstáculo decisivo; a rejeição eleitoral surge, sobretudo, em situações de obesidade
evidente. Recordo um caso pouco debatido, mas cuja evidencia poderá não deixar
margens para grandes dúvidas. Na Madeira, de onde sou proveniente, o político e
ator Nuno Morna, é uma voz considerada e normalmente ouvida. Reconhecem-lhe
méritos na análise dos acontecimentos políticos e na pertinência das suas
posições públicas. Contudo, os resultados eleitorais, sempre que encabeçou uma
lista, ficaram muito aquém do reconhecimento que goza. O facto de ser obeso,
algo que utiliza a seu favor na sua performance de palco, pode ser mera
coincidência. Mas a ciência não parece concordar. Nas mulheres, porém, o
cenário agudiza-se: basta um ligeiro afastamento do padrão corporal dominante
para que a avaliação do eleitorado se torne significativamente mais negativa.
Este duplo
critério revela não apenas preconceitos persistentes, mas também a dificuldade
das sociedades contemporâneas em dissociar liderança política de estereótipos
corporais profundamente enraizados.
A influência
do excesso de peso nas possibilidades eleitorais de um candidato está hoje
amplamente documentada por estudos empíricos publicados em veículos de
referência, que evidenciam a persistência de vieses inconscientes na decisão do
eleitor. Uma investigação citada pela NBC News demonstrou que, quando
confrontados com candidatos fictícios, de currículo rigorosamente idêntico, os
eleitores atribuíram menor competência, menor capacidade de liderança e menor
disciplina pessoal àqueles cuja aparência física sugere excesso de peso,
traduzindo essa perceção numa redução significativa da intenção de voto. No
mesmo sentido, um estudo divulgado pela Campaigns & Elections
revelou que candidatos classificados como obesos enfrentam taxas de rejeição
superiores, mesmo quando apresentam propostas mais claras ou maior experiência
política, indicando que o julgamento corporal antecede e condiciona a avaliação
racional do conteúdo político. A revista The Cut, ao analisar dados
experimentais de psicologia política e comunicação visual, sublinha que este
efeito se manifesta de forma particularmente rápida, operando em frações de
segundo, através de mecanismos de thin-slicing, semelhantes aos
descritos por Malcolm Gladwell, em Blink: The Power of Thinking Without
Thinking nos quais o cérebro constrói narrativas de competência ou
incompetência com base em sinais físicos mínimos. Complementarmente, análises publicadas
pela BBC News sobre comportamento eleitoral confirmam que a exposição mediática
não corrige estes preconceitos; pelo contrário, quanto maior a presença pública
do candidato, maior a cristalização do estigma associado ao corpo,
transformando a aparência num fator estrutural de desvantagem eleitoral. Estes
dados convergem para uma conclusão inquietante: a decisão do voto continua a
ser atravessada por heurísticas visuais profundamente enraizadas, que escapam
ao controlo consciente do eleitor e colocam limites invisíveis à competição política, mesmo em contextos
democráticos maduros.
Quando
comecei a pensar neste artigo, tinha em mente dois casos concretos: Alexandra
Leitão, na corrida à Câmara Municipal de Lisboa, e Marques Mendes, no contexto
presidencial. Aplicando o modelo interpretativo sugerido por estes estudos,
nenhum dos dois reuniria, à partida, as condições físicas que tendem a ser
associadas, ainda que inconscientemente, à vitória eleitoral.
No caso de
Alexandra Leitão, os factos acabaram por confirmar essa leitura. Já no caso de
Marques Mendes, embora o percurso político e as acusações de facilitador de
negócios possam vir a pesar, parece
existir um fenómeno mais subtil: uma penalização simbólica, quase
invisível, mas persistente. Sem ironia nem trocadilho, dir-se-ia que também ele
poderá estar a ser “puxado para baixo”.
Idealmente,
os eleitores deveriam avaliar programas, escrutinar o carácter, compreender a
natureza do cargo em disputa e o contexto político em que a eleição ocorre. Mas
a decisão de voto vai muito além daquilo que gostaríamos que fosse.
Ainda assim,
não sou partidário de uma visão pessimista ou elitista sobre o eleitorado. Pelo
contrário. A ideia da “sabedoria da multidão”, desde Aristóteles até Francis
Galton e, mais recentemente, James Surowiecki, mostra-nos que decisões
coletivas podem ser surpreendentemente acertadas, mesmo quando os indivíduos
não dispõem de todos os instrumentos racionais ideais. O célebre exemplo da
feira de gado, em que uma multidão estimou, com notável precisão, o peso de um boi, continua a ser um poderoso
argumento a favor da inteligência coletiva.
O problema é que essa sabedoria não é imune a enviesamentos
cognitivos. Estudos como os popularizados por Malcolm Gladwell mostram como
julgamentos rápidos, automáticos e viscerais moldam decisões complexas, muitas
vezes sem que o decisor tenha consciência disso.
Altura, peso, aparência geral: tudo isto entra no cálculo
eleitoral de forma silenciosa, mas eficaz.
O conjunto de
dados disponíveis, desde a relação entre a liderança/estatura de CEOs, até
estudos que relacionam o peso e penalização eleitoral, com impacto
particularmente severo sobre as mulheres, parecem apontar numa direção clara
quanto ao contexto português das eleições presidenciais, levantando dúvidas
legítimas quanto a um resultado favorável para o candidato Marques Mendes. Não
apenas por razões políticas, mas também porque a decisão eleitoral continua a
ser influenciada por fatores que escapam ao ideal racional que gostamos de
projetar sobre as democracias maduras.
Um dos
exemplos mais elucidativos, e talvez mais desconcertantes, desta literatura
surge no já referido trabalho de Malcolm Gladwell. Em Blink, Gladwell
analisou mais de metade dos CEOs que integravam a lista Fortune 500 e
encontrou um padrão difícil de ignorar: a esmagadora maioria eram homens
brancos e, sobretudo, notavelmente altos. Num país onde apenas 14,5% dos homens
têm 1,83 m (6 pés) ou mais, 58% dos CEOs analisados tinham essa estatura ou
eram ainda mais altos. O dado torna-se ainda mais revelador quando se observa o
extremo oposto: entre os milhões de homens norte-americanos com menos de 1,68 m
(5 pés e 6 polegadas), apenas 10 surgiam na amostra de Gladwell como tendo
alcançado posições de topo empresarial. Mais do que um detalhe estatístico, esta
correlação prolonga-se ao rendimento: pessoas mais altas tendem a ganhar mais
ao longo da vida profissional do que pessoas mais baixas com idênticas
qualificações e experiência. É difícil negar que este fenómeno resulta, pelo
menos em parte, daquilo que coletivamente imaginamos que um líder deve parecer,
mesmo quando não temos consciência desse estereótipo. Como sintetiza o próprio
Gladwell, de forma tão simples quanto perturbadora: “we see a tall person and
we swoon” que é como quem diz, vemos uma pessoa alta e, instintivamente,
rendemo-nos.
Tudo isto
revela, em última instância, o quanto ainda falta às sociedades para formularem
escolhas eleitorais assentes em pressupostos verdadeiramente racionais.
Reconhecer este desconforto não é um ataque à democracia. Pelo
contrário: é um convite a compreendê-la melhor, nas suas virtudes, fragilidades
e contradições.
Ignorar os dados não nos torna mais justos. Apenas nos torna
menos conscientes.
Aparência física, poder e voto: um desconforto (in)evitável?
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