Sábado – Pense por si

Tiago Freitas
Tiago Freitas Analista em Assuntos Europeus
14 de janeiro de 2026 às 17:08

Aparência física, poder e voto: um desconforto (in)evitável?

O aspeto físico e determinadas características corporais continuam a desempenhar um papel relevante numa decisão eleitoral.

Há cerca de um ano que pensava escrever este texto. Não num registo panfletário, nem num exercício de opinião política imediata, mas antes numa abordagem, o mais próxima possível do campo académico, sustentada em literatura científica, estudos experimentais e dados empíricos. Ainda assim, confesso: este é um tema difícil de abordar com serenidade, independência e racionalidade no espaço público contemporâneo.

Falar da relação entre aparência física, com características marcantes, em termos de peso e a estatura, e o acesso a posições de poder, seja por via eleitoral ou por nomeação, é entrar num terreno minado. O risco de ser imediatamente acusado de sexismo, fat shaming ou lookism surge mais depressa do que a fava no bolo-rei. Mesmo quando a análise não é normativa, mas descritiva; mesmo quando não há juízo moral, apenas leitura estatística.

Contudo, ignorar o tema não o faz desaparecer.

Diversos estudos desenvolvidos, entre outros, no contexto académico britânico e norte-americano, incluindo trabalhos associados à Universidade de Manchester, demonstram que a decisão eleitoral não se resume a programas, slogans ou debates televisivos. Há um conjunto vasto de motivações heterogéneas, muitas delas inconscientes, que influenciam o eleitor no momento do voto. Entre essas motivações, o aspeto físico e determinadas características corporais continuam a desempenhar um papel relevante.

É relativamente pacífico falar do assunto quando apresentado na sua vertente positiva. Poucos terão dificuldade em admitir que figuras como John F. Kennedy, José Sócrates ou Tony Blair beneficiaram, em maior ou menor grau, do seu carisma, presença mediática e atratividade física. O problema começa quando essas mesmas características físicas funcionam como um ónus.

Aí instala-se um pudor quase absoluto, tanto na análise político-eleitoral como no debate científico.

Os dados, porém, são persistentes. Estudos sobre lideranças empresariais mostram que CEOs e titulares de cargos de topo, políticos ou empresariais,  apresentam, em média, uma estatura significativamente superior à média da população. A altura associa-se, de forma recorrente, a perceções de competência, autoridade e liderança. O fenómeno não é culturalmente neutro nem recente, e repete-se em contextos tão diversos quanto o setor privado, a política ou as instituições militares.

Quando introduzimos a variável peso, o cenário torna-se ainda mais revelador. E desconfortável. A evidência empírica indica que candidatos com excesso de peso tendem a ser penalizados eleitoralmente, sendo que essa penalização é assimétrica em função do género.

Nos homens, o excesso de peso raramente constitui um obstáculo decisivo; a rejeição eleitoral surge, sobretudo, em situações de obesidade evidente. Recordo um caso pouco debatido, mas cuja evidencia poderá não deixar margens para grandes dúvidas. Na Madeira, de onde sou proveniente, o político e ator Nuno Morna, é uma voz considerada e normalmente ouvida. Reconhecem-lhe méritos na análise dos acontecimentos políticos e na pertinência das suas posições públicas. Contudo, os resultados eleitorais, sempre que encabeçou uma lista, ficaram muito aquém do reconhecimento que goza. O facto de ser obeso, algo que utiliza a seu favor na sua performance de palco, pode ser mera coincidência. Mas a ciência não parece concordar. Nas mulheres, porém, o cenário agudiza-se: basta um ligeiro afastamento do padrão corporal dominante para que a avaliação do eleitorado se torne significativamente mais negativa.

Este duplo critério revela não apenas preconceitos persistentes, mas também a dificuldade das sociedades contemporâneas em dissociar liderança política de estereótipos corporais profundamente enraizados.

A influência do excesso de peso nas possibilidades eleitorais de um candidato está hoje amplamente documentada por estudos empíricos publicados em veículos de referência, que evidenciam a persistência de vieses inconscientes na decisão do eleitor. Uma investigação citada pela NBC News demonstrou que, quando confrontados com candidatos fictícios, de currículo rigorosamente idêntico, os eleitores atribuíram menor competência, menor capacidade de liderança e menor disciplina pessoal àqueles cuja aparência física sugere excesso de peso, traduzindo essa perceção numa redução significativa da intenção de voto. No mesmo sentido, um estudo divulgado pela Campaigns & Elections revelou que candidatos classificados como obesos enfrentam taxas de rejeição superiores, mesmo quando apresentam propostas mais claras ou maior experiência política, indicando que o julgamento corporal antecede e condiciona a avaliação racional do conteúdo político. A revista The Cut, ao analisar dados experimentais de psicologia política e comunicação visual, sublinha que este efeito se manifesta de forma particularmente rápida, operando em frações de segundo, através de mecanismos de thin-slicing, semelhantes aos descritos por Malcolm Gladwell, em Blink: The Power of Thinking Without Thinking nos quais o cérebro constrói narrativas de competência ou incompetência com base em sinais físicos mínimos. Complementarmente, análises publicadas pela BBC News sobre comportamento eleitoral confirmam que a exposição mediática não corrige estes preconceitos; pelo contrário, quanto maior a presença pública do candidato, maior a cristalização do estigma associado ao corpo, transformando a aparência num fator estrutural de desvantagem eleitoral. Estes dados convergem para uma conclusão inquietante: a decisão do voto continua a ser atravessada por heurísticas visuais profundamente enraizadas, que escapam ao controlo consciente do eleitor e colocam limites invisíveis à competição política, mesmo em contextos democráticos maduros.

Quando comecei a pensar neste artigo, tinha em mente dois casos concretos: Alexandra Leitão, na corrida à Câmara Municipal de Lisboa, e Marques Mendes, no contexto presidencial. Aplicando o modelo interpretativo sugerido por estes estudos, nenhum dos dois reuniria, à partida, as condições físicas que tendem a ser associadas, ainda que inconscientemente, à vitória eleitoral.

No caso de Alexandra Leitão, os factos acabaram por confirmar essa leitura. Já no caso de Marques Mendes, embora o percurso político e as acusações de facilitador de negócios possam vir a pesar, parece  existir um fenómeno mais subtil: uma penalização simbólica, quase invisível, mas persistente. Sem ironia nem trocadilho, dir-se-ia que também ele poderá estar a ser “puxado para baixo”.

Idealmente, os eleitores deveriam avaliar programas, escrutinar o carácter, compreender a natureza do cargo em disputa e o contexto político em que a eleição ocorre. Mas a decisão de voto vai muito além daquilo que gostaríamos que fosse.

Ainda assim, não sou partidário de uma visão pessimista ou elitista sobre o eleitorado. Pelo contrário. A ideia da “sabedoria da multidão”, desde Aristóteles até Francis Galton e, mais recentemente, James Surowiecki, mostra-nos que decisões coletivas podem ser surpreendentemente acertadas, mesmo quando os indivíduos não dispõem de todos os instrumentos racionais ideais. O célebre exemplo da feira de gado, em que uma multidão estimou, com notável precisão, o peso de um boi, continua a ser um poderoso argumento a favor da inteligência coletiva.

O problema é que essa sabedoria não é imune a enviesamentos cognitivos. Estudos como os popularizados por Malcolm Gladwell mostram como julgamentos rápidos, automáticos e viscerais moldam decisões complexas, muitas vezes sem que o decisor tenha consciência disso.

Altura, peso, aparência geral: tudo isto entra no cálculo eleitoral de forma silenciosa, mas eficaz.

O conjunto de dados disponíveis, desde a relação entre a liderança/estatura de CEOs, até estudos que relacionam o peso e penalização eleitoral, com impacto particularmente severo sobre as mulheres, parecem apontar numa direção clara quanto ao contexto português das eleições presidenciais, levantando dúvidas legítimas quanto a um resultado favorável para o candidato Marques Mendes. Não apenas por razões políticas, mas também porque a decisão eleitoral continua a ser influenciada por fatores que escapam ao ideal racional que gostamos de projetar sobre as democracias maduras.

Um dos exemplos mais elucidativos, e talvez mais desconcertantes, desta literatura surge no já referido trabalho de Malcolm Gladwell. Em Blink, Gladwell analisou mais de metade dos CEOs que integravam a lista Fortune 500 e encontrou um padrão difícil de ignorar: a esmagadora maioria eram homens brancos e, sobretudo, notavelmente altos. Num país onde apenas 14,5% dos homens têm 1,83 m (6 pés) ou mais, 58% dos CEOs analisados tinham essa estatura ou eram ainda mais altos. O dado torna-se ainda mais revelador quando se observa o extremo oposto: entre os milhões de homens norte-americanos com menos de 1,68 m (5 pés e 6 polegadas), apenas 10 surgiam na amostra de Gladwell como tendo alcançado posições de topo empresarial. Mais do que um detalhe estatístico, esta correlação prolonga-se ao rendimento: pessoas mais altas tendem a ganhar mais ao longo da vida profissional do que pessoas mais baixas com idênticas qualificações e experiência. É difícil negar que este fenómeno resulta, pelo menos em parte, daquilo que coletivamente imaginamos que um líder deve parecer, mesmo quando não temos consciência desse estereótipo. Como sintetiza o próprio Gladwell, de forma tão simples quanto perturbadora: “we see a tall person and we swoon” que é como quem diz, vemos uma pessoa alta e, instintivamente, rendemo-nos.

Tudo isto revela, em última instância, o quanto ainda falta às sociedades para formularem escolhas eleitorais assentes em pressupostos verdadeiramente racionais. Reconhecer este desconforto não é um ataque à democracia. Pelo contrário: é um convite a compreendê-la melhor, nas suas virtudes, fragilidades e contradições.

Ignorar os dados não nos torna mais justos. Apenas nos torna menos conscientes.

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