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Ucrânia. Quatro anos de uma guerra que já fez quase dois milhões de vítimas e que não tem fim à vista

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Apesar de um cessar-fogo parecer estar longe, está marcada mais uma ronda de negociações para esta quinta-feira.

A 24 de fevereiro de 2022 a Rússia iniciou uma invasão em larga escala à Ucrânia e passados quatro anos os esforços para um cessar-fogo parecem pouco genuínos e deixam claro as diferenças entre as duas partes.  

Uma mulher grávida ferida gravemente ferida durante um ataque russo a Mariupol
Uma mulher grávida ferida gravemente ferida durante um ataque russo a Mariupol AP Photo/Evgeniy Maloletka, File

A liderança russa previa uma “operação militar especial” curta e bem-sucedida que fosse capaz de forçar Kiev a voltar para o círculo de influência russo depois de sucessivas aproximações à União Europeia e à NATO. No entanto a ofensiva dura já há mais tempo do que a “Grande Guerra Patriótica” da União Soviética contra a Alemanha nazi que decorreu entre 1941 e 1945. 

A Ucrânia tornou-se independente em 1991, depois da queda da União Soviética, no entanto a proximidade - os dois países partilham 2.245,8 quilómetros de fronteira – nunca deixou de ser uma preocupação para os ucranianos. No ano passado Vladimir Putin chegou a afirmar que “as fronteiras da Rússia não acabam”.  

Mas passados quatro anos, Moscovo controla menos de 20% do território ucraniano o que não indica um grande sucesso da ofensiva, especialmente tendo em conta que com a anexação da Crimeia, em 2014, já tinha conquistado 7% do território ucraniano.  

Em entrevista à BBC, no domingo, Zelensky acusou Putin de ter iniciado a III Guerra Mundial e referiu que a Ucrânia iria vencer: “A Rússia quer impor ao mundo um modo de vida diferente e mudar a vida que as pessoas escolheram para si mesmas”.  

Cessar-fogo

Durante a sua campanha presidencial, Donald Trump afirmou que a guerra na Ucrânia iria acabar nas primeiras 24 horas do seu mandato e foi mais longe ainda e referiu que se tivesse continuado na Casa Branca, a guerra poderia nunca ter começado. No entanto desde que regressou à Casa Branca o republicano não tem tido grande sucesso nesta pasta, várias foram as reuniões entre representantes russos e ucranianos para discutir um possível cessar-fogo, no entanto poucos parecem ser os pontos de convergência e grande parte das reuniões não são nada além de uma performance. A Europa tem sido deixada de fora destas negociações.  

Em novembro Trump anunciou um “plano de paz” de 28 pontos que continha exigências como a Ucrânia ceder todo o Donbass, incluindo a parte que ainda controla, reduzir o tamanho das suas forças armadas e aceitar nunca pertencer à NATO.  

Zelensky tem afastado a possibilidade de ceder território e refere que “não se trata apenas de terras”, mas sim “abandono”: “Abandono de centenas de milhares de pessoas que vivem lá”, o presidente ucraniano tem afirmado várias vezes que vai recuperar todo o território perdido, dando até a entender que quer a Crimeia de volta. Na entrevista à BBC referiu que “regressar às fronteiras justas de 1991 não é apenas uma vitória, é justiça”. Além disso o líder ucraniano considera que se entregar território a Putin a Rússia vai voltar a atacar depois de recuperar dos impactos económicos e sociais da guerra.  

Na quinta-feira, já depois do marco dos quatro anos, vai decorrer mais uma reunião, a quarta. As anteriores resultaram apenas numa troca de prisioneiros. 

Momentos-chave

Ainda não tinha passado um mês desde o início da guerra quando foi vivido um dos massacres mais marcantes do conflito, que deixou clara a forma como os russos pretendiam atuar no país. Em Bucha foram assassinados mais de 500 civis durante a ocupação russa e quando as tropas abandonaram o território ficaram à vista de todos valas comuns onde os corpos apresentavam claros sinais de tortura.  

Em Maio de 2022 a cidade de Mariupol tornou-se mais um símbolo da brutalidade dos ataques russos. As forças russas levaram a cabo um cerco brutal e consecutivos bombardeamentos indiscriminados, até hoje não foi possível saber ao certo quantas pessoas morreram apesar de a ONU afirmar que foram milhares e que 90% dos edifícios residenciais ficaram danificados ou destruídos.  

Entre os momentos mais marcantes deste certo está o bombardeamento ao teatro de Mariupol, onde estavam protegidas centenas de crianças, com duas bombas de 500 quilos que detonaram em simultâneo.  

No ano passado Zelensky foi recebido na Casa Branca para aquilo que foi descrito pelo resto do Ocidente por uma emboscada ou um “assalto diplomático”. Neste encontro Trump assumiu uma postura próxima à de Putin e acusou o líder ucraniano de não ser grato por toda a ajuda militar enviada pela Casa Branca. 

Depois disso, em agosto, Putin foi recebido, com uma passadeira vermelha, no Alasca. 

A guerra em números

Apesar da Rússia não apresentar números de baixas militares, é estimado que existam 1,8 milhão de soldados mortos, feridos ou desaparecidos em ambos os lados, tendo em conta o mais recente relatório do centro de Estudos Estratégicos Internacionais. Zelensky afirmou no início deste mês que 55 mil soldados ucranianos já morreram na guerra e muitos estão desaparecidos.  

A missão de Monitorização dos Direitos Humanos das Nações Unidas tem feito a contabilização do número de civis mortos desde o início da invasão russa e aponta para pelo menos 14.999. Além disso foram identificados mais de 40.600 civis feridos.  

Desde 24 de fevereiro de 2022 cerca de 5,9 milhões de civis abandonaram a Ucrânia, destes 5,3 milhões encontram-se na Europa, revela um relatório divulgado este mês pelo escritório da ONU na Ucrânia. Outros 3.7 milhões de ucranianos encontram-se deslocados dentro do país.  

O apoio militar do Ocidente

Em 2025 a assistência militar dos Estados Unidos caiu 99% face aos anos anteriores, ciando dos 11,3 mil milhões para 400 milhões de euros, avançam os números de Kiel Institute for the Workd Economy, que agrega os valores do apoio financeiro e militar prestada à Ucrânia desde 2022. Para tentarem compensar esta perda os aliados europeus da NATO aumentaram as suas contribuições em 60% quando comparado à média de 2022/24 

No seu último relatório, publicado no dia 11 de fevereiro, é referido que os aliados europeus tiveram de aumentar o seu apoio para não deixar a Ucrânia ainda mais vulnerável aos ataques russos.  

Trump chegou a afirmar que deixaria de enviar armamento para a Ucrânia, no entanto acabou por optar por algo ainda melhor para si: tornar esse envio num negócio. Isto porque o armamento norte-americano, sobretudo em termos de defesa antiaérea, passou a fazer parte da Lista de necessidades Prioritárias da Ucrânia - um programa gerido pela NATO – e o que antes era disponibilizado pelos aliados americanos passou agora a ser vendido aos europeus para depois ser enviado para a Ucrânia.  

Este apoio tem chegado à Ucrânia partindo de várias configurações, além da União Europeia, também a coligação nórdico-báltico-Ucrânia e a Coligação dos Dispostos têm garantido a ajuda militar. Alemanha, reino Unido e os países nórdicos foram responsáveis por cerca de 95% da ajuda militar que a Ucrânia recebeu no ano passado, a Alemanha enviou quase 10 mil milhões de euros em 2025. 

A realidade é que, pelo menos publicamente, os líderes europeus se mantêm firmes no apoio militar e económico à Ucrânia. A diferença do apoio à Ucrânia por parte dos seus aliados está amplamente relacionada com a proximidade territorial, isto porque grande parte dos países europeus acreditam que se Putin conseguir conquistar a Ucrânia pode lançar ataques a outros países europeus.  

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